As 11 escolas municipais de Curitiba que devem deixar de oferecer o 6º ao 9º ano a partir de 2027 têm equipes quase inteiramente concursadas, mais estáveis e com formação mais adequada que os colégios estaduais apontados como destino dos alunos. Segundo o Censo Escolar 2025, 99,1% dos 569 docentes das 11 municipais são concursados. Nos 30 colégios estaduais mais próximos delas, a proporção cai para 42,4%. Os outros 57,6% têm contrato temporário, CLT ou terceirizado. Dois indicadores calculados escola por escola pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) vão na mesma direção. O primeiro é o de Regularidade do Docente (IRD), que mede quanto tempo os professores permanecem na mesma escola. O segundo é o de Adequação da Formação Docente (AFD), que mede quantas aulas são dadas por professores formados na área. Cada municipal foi comparada com os três colégios estaduais mais próximos, num total de 33 pares. A municipal tem regularidade maior em 30 deles e formação mais adequada em 31.
Entre as 151 escolas públicas da cidade com anos finais e IRD calculado, sete das oito mais bem colocadas estão na lista das 11. Só o Colégio da Polícia Militar, com 3,88, fica à frente. Como a Plural mostrou, a comparação pelo Ideb dá um resultado dividido: em cinco casos a municipal tem nota maior que a estadual mais próxima, em cinco a estadual fica à frente e há um empate. Os dados sobre os professores, ao contrário, apontam quase sempre para o mesmo lado.
Concursado ou temporário
Nas 11 municipais, o Censo Escolar registra apenas cinco docentes sem concurso: quatro na Erasmo Pilotto, no Bairro Alto, e um na Herley Mehl, no Pilarzinho. Nas outras nove, todos os professores são concursados.
Nos 30 colégios estaduais de destino, que somam 1.547 docentes, 46,4% têm contrato temporário, pelo Processo Seletivo Simplificado (PSS) do governo do Paraná. Outros 7,2% são contratados pela CLT e 3,9% são terceirizados. Em nenhum dos 30 a proporção de professores sem concurso fica abaixo de 38%. Em 18 deles, os temporários do PSS passam da metade do corpo docente. O quadro é parecido no conjunto das 140 estaduais de Curitiba com anos finais: 42,8% de concursados e 50,5% de temporários.
Os casos extremos estão entre os destinos indicados:
- Cândido Rondon, a 1,3 km da Escola Municipal Papa João XXIII, no Portão: 38 dos 41 professores são temporários (92,7%).
- Arlindo C. de Amorim, entre os três mais próximos da Cândido Portinari e da São Miguel, na Cidade Industrial: 84,1% de temporários.
- Homero B. de Barros, perto da Maria Clara B. Tesserolli, no Novo Mundo: 73,7%.
- Dirce C. do Amaral, a 411 metros da Albert Schweitzer, na Cidade Industrial: 28 dos 39 professores têm contrato CLT, e só 11 são concursados.
O caso do Dirce não é único. Em sete dos 30 colégios de destino, não há nenhum temporário do PSS, e o lugar deles é ocupado por professores com vínculo CLT ou terceirizado. São o Dirce C. do Amaral, o Branca do N. Miranda, o Algacyr M. Maeder, o Santa Gemma Galgani, o João de Oliveira Franco, o Protásio de Carvalho e o Olivio Belich.
Na prática, o temporário e o terceirizado podem mudar de escola, ou sair da rede, a cada novo contrato. É isso que o indicador de regularidade capta.
O que cada indicador mede
O IRD vai de 0 a 5. Segundo a nota do Inep, ele observa a permanência de cada professor na escola nos últimos cinco anos (2021 a 2025) e dá mais peso a quem ficou mais tempo, em anos mais recentes e em anos seguidos. Quanto mais perto de 5, mais regular é o vínculo dos professores com a escola. A nota da escola é a média dos seus docentes.
O AFD classifica cada aula conforme a formação de quem a dá. No grupo 1 ficam os professores com licenciatura (ou bacharelado com complementação pedagógica) na mesma área da disciplina que lecionam. Por exemplo, um licenciado em matemática que dá aula de matemática. No grupo 3, os licenciados em outra área, como um professor de história que assume aulas de geografia. O grupo 5 reúne quem não tem curso superior. O indicador conta docências, e não pessoas: o mesmo professor entra uma vez para cada turma e disciplina.
Em termos práticos, os dois números respondem a duas perguntas que as famílias fazem na porta da escola: o professor vai continuar aqui no ano que vem? E ele estudou aquilo que ensina?
Regularidade: 3,4 contra 2,4
A média do IRD nas 11 municipais é de 3,4. Nos 30 colégios estaduais de destino, é de 2,4. Nas 140 estaduais de Curitiba com anos finais, 2,5.
As maiores diferenças aparecem no Novo Mundo e no Cajuru. A Maria Clara B. Tesserolli tem IRD de 3,7. O Colégio Estadual Homero B. de Barros, a 1,2 km, tem 2,1. No Cajuru, a Omar Sabbag também tem 3,7, e o Colégio Natalia Reginato, a 515 metros, tem 2,1. No Portão, a Papa João XXIII tem 3,3. O Colégio Estadual João Bettega, a 931 metros, tem 2,0. O Cândido Rondon, o dos 92,7% de temporários, tem 1,85, o menor entre todos os destinos possíveis.
O registro de pagamentos ao Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação (SIOPE), do FNDE, mostra o mesmo de outro ângulo. Dos profissionais do magistério efetivo declarados nas 11 escolas em 2026, 77% já estavam na mesma escola em 2024.
Exceção: a Escola Municipal Albert Schweitzer, na Cidade Industrial, tem IRD de 2,3, o menor das 11 e no nível das estaduais. Ela fica abaixo de dois dos três colégios mais próximos (Dirce C. do Amaral, com 2,4, e Brasílio V. de Castro, com 2,5). Todos os seus 24 docentes são concursados, mas, pelo indicador, não ficaram na escola nos últimos anos. É também a escola que não teve nenhum aluno matriculado no 8º ano em 2025, como a Plural registrou.
Formação: nove em cada dez aulas com professor da área
Nos anos finais das 11 municipais, em média 90% das aulas são dadas por professores formados na disciplina (grupo 1). Nos 30 colégios estaduais de destino, são 77%. A diferença vem principalmente do grupo 3, de professores licenciados em outra área: 6,6% das aulas nas municipais e 14,8% nas estaduais vizinhas. Nas municipais, nenhuma aula é dada por professor sem curso superior. Nas estaduais vizinhas, são 1,9%.
A Omar Sabbag é a única escola pública de Curitiba com 100% das aulas dos anos finais no grupo 1. A Julia A. Di Lenna, na Barreirinha, e a São Miguel, na Cidade Industrial, vêm logo atrás, com 97,1%. Entre as 152 escolas públicas da cidade com o indicador calculado para os anos finais, as 11 municipais estão todas entre as 60 primeiras.
Do lado estadual, os casos mais distantes desse padrão estão justamente entre os destinos indicados:
- Eurides Brandão, a 274 metros da Escola Municipal Cândido Portinari: dois terços das aulas (66,7%) têm professor formado na área, e 28,2% são dadas por licenciados em outra disciplina.
- João Bettega, perto da Papa João XXIII: 31,9% das aulas com professor de outra área.
- Maria A. Teixeira, um dos três mais próximos do Durival Britto e Silva, no Cajuru: 33,8%.
- Newton F. da Costa, um dos destinos da Maria Clara B. Tesserolli: só 56,5% das aulas são dadas por professor formado na disciplina, a menor proporção entre os 30 colégios vizinhos.
A diferença também aparece na pós-graduação, contando todos os docentes da escola:
| 11 municipais | 30 estaduais de destino | |
|---|---|---|
| Docentes com especialização | 89,6% | 69,6% |
| Docentes com mestrado ou doutorado | 12,5% | 10,5% |
| Docentes com formação continuada específica para os anos finais | 19,7% | 4,6% |
| Docentes com licenciatura | 98,4% | 88,6% |
| Docentes sem curso superior | 0 | 3,7% |
Na Albert Schweitzer, 29% dos docentes têm mestrado.
Há colégios estaduais com indicadores tão bons ou melhores. O Teobaldo L. Kletemberg, no Sítio Cercado, tem IRD de 3,2 e 92% de adequação, acima do Novo CAIC Guilherme Lacerda Braga Sobrinho, a 976 metros (3,1 e 86,7%). O Pilar Maturana, a 730 metros da Erasmo Pilotto, no Bairro Alto, tem 92,3% de adequação, contra 91,3% da municipal. Somados os dois indicadores, são 66 confrontos, e a municipal fica atrás em cinco: dois da Albert Schweitzer em regularidade, dois do Novo CAIC diante do Teobaldo e um da Erasmo Pilotto diante do Pilar Maturana.
Uma escola, um turno
O Inep também classifica os professores em seis níveis de esforço docente (IED), conforme o número de escolas, turnos, etapas e alunos. No nível 1 fica, em geral, o docente com até 25 alunos, num único turno, escola e etapa. No nível 2, o que tem de 25 a 150 alunos, também num único turno, escola e etapa. Nos níveis 5 e 6, o que tem mais de 300 ou 400 alunos e trabalha nos três turnos, em duas ou três escolas.
Nas 11 municipais, em média 28,6% dos professores dos anos finais estão nos níveis 1 e 2. Nos colégios estaduais de destino, são 7,5%. Nos níveis mais altos (5 e 6), a proporção é parecida: 13,6% nas municipais e 12,8% nas estaduais. A maior parte dos professores estaduais fica nos níveis intermediários (3 e 4), com até dois turnos, até 400 alunos e, em alguns casos, duas escolas.
Turmas maiores nas municipais
Um dado vai na direção contrária. As turmas de anos finais das 11 municipais são maiores que as dos colégios vizinhos: 32,8 alunos por turma, contra 28,2 nas 30 estaduais de destino. Em dez das 11 municipais, a média passa de 30 alunos. As maiores ficam na Papa João XXIII (35,4) e na Cândido Portinari (34,9). Só o Durival Britto e Silva, com 26, fica abaixo da média estadual.
Essa vantagem dos colégios estaduais depende de eles continuarem com o mesmo número de alunos, e isso não vai acontecer. Para absorver os estudantes das municipais, o número de alunos por turma nas estaduais terá de subir, a menos que o Estado abra novas turmas. A mudança começa pelo 6º ano. Em 2025, as 11 municipais tinham 956 alunos nessa série, em 28 turmas (34,1 por turma). Os 30 colégios de destino tinham 2.869 alunos de 6º ano em 111 turmas, uma média de 25,8. Se recebessem os alunos das municipais sem abrir nenhuma turma, passariam a 34,5 alunos por turma, mais do que as próprias municipais têm hoje. Para manter a média atual, seriam necessárias cerca de 37 turmas novas de 6º ano.
O aumento é maior onde os colégios vizinhos são poucos ou pequenos. Os 102 alunos de 6º ano da Julia A. Di Lenna, na Barreirinha, divididos entre os três colégios mais próximos, levariam a média deles de 26,4 para 39,1 alunos por turma. No caso da Cândido Portinari, com 139 alunos, iria de 27,7 para 37,0. Na Omar Sabbag, com 132, de 21,2 para 35,9, e dois dos três colégios vizinhos da Omar (Natalia Reginato e Olivio Belich) também estão entre os mais próximos do Durival Britto e Silva. A simulação usa as matrículas e turmas de 6º ano do Censo Escolar 2025 como referência para a entrada de 2027.
Quem são os professores
| 11 municipais | 30 estaduais de destino | |
|---|---|---|
| Mulheres | 86,6% | 58,8% |
| Com 50 anos ou mais | 35,0% | 40,4% |
| Com menos de 30 anos | 3,2% | 10,7% |
| Pretos e pardos | 14,6% | 15,6% |
| Brancos | 81,7% | 76,4% |
Os números incluem todos os docentes de cada escola. Nas municipais, entram também os da educação infantil e dos anos iniciais.
A forma de escolha da direção também é diferente. Nas 11 municipais, todos os diretores chegaram ao cargo por eleição com participação da comunidade escolar. Nos 30 colégios estaduais, só 12 diretores foram escolhidos assim. Três passaram por processo seletivo seguido de eleição, dez por processo seletivo e nomeação, e cinco foram indicados pela gestão.
Os 33 pares
| Municipal | IRD | Formação adequada (anos finais) | Estaduais mais próximas: IRD / formação adequada / docentes sem concurso |
|---|---|---|---|
| Albert Schweitzer | 2,34 | 85,0% | Dirce C. do Amaral 2,43 / 74,5% / 72%; Brasílio V. de Castro 2,50 / 81,5% / 55%; Alcyone M. C. Vellozo 2,33 / 79,3% / 61% |
| Novo CAIC | 3,09 | 86,7% | Inez Vicente Borocz 2,66 / 75,2% / 53%; Teobaldo L. Kletemberg 3,21 / 92,0% / 58%; Flávio F. da Luz 2,26 / 82,1% / 60% |
| Cândido Portinari | 3,72 | 84,4% | Eurides Brandão 2,70 / 66,7% / 51%; Hildegard Sondahl 2,38 / 74,6% / 72%; Arlindo C. de Amorim 2,28 / 63,9% / 84% |
| Durival Britto e Silva | 3,19 | 82,2% | Natalia Reginato 2,10 / 75,5% / 58%; Olivio Belich 2,54 / 62,1% / 45%; Maria A. Teixeira 2,09 / 66,2% / 46% |
| Erasmo Pilotto | 3,41 | 91,3% | Pilar Maturana 2,91 / 92,3% / 47%; Algacyr M. Maeder 2,32 / 67,8% / 57%; Branca do N. Miranda 2,42 / 84,8% / 59% |
| Herley Mehl | 3,61 | 92,4% | Bento M. da Rocha Neto 2,40 / 90,3% / 60%; Ernani Vidal 2,22 / 89,3% / 65%; Sebastião Saporski 2,25 / 85,8% / 61% |
| Papa João XXIII | 3,29 | 85,3% | João Bettega 2,00 / 68,1% / 58%; Cândido Rondon 1,85 / 78,5% / 93%; Pedro Macedo 2,97 / 85,0% / 44% |
| Julia A. Di Lenna | 3,52 | 97,1% | Maria P. Martins 2,10 / 95,2% / 38%; Santa Gemma Galgani 2,41 / 66,1% / 54%; Gelvira C. Pacheco 2,09 / 90,7% / 56% |
| Maria Clara B. Tesserolli | 3,69 | 88,0% | João de Oliveira Franco 2,48 / 72,3% / 52%; Homero B. de Barros 2,07 / 62,8% / 74%; Newton F. da Costa 2,80 / 56,5% / 54% |
| Omar Sabbag | 3,70 | 100,0% | Natalia Reginato 2,10 / 75,5% / 58%; Olivio Belich 2,54 / 62,1% / 45%; Julio Mesquita 2,33 / 80,4% / 55% |
| São Miguel | 3,56 | 97,1% | Avelino A. Vieira 2,61 / 72,6% / 53%; Protásio de Carvalho 2,91 / 76,1% / 48%; Arlindo C. de Amorim 2,28 / 63,9% / 84% |
Fonte: Inep, Indicadores Educacionais 2025 e Censo Escolar 2025. As estaduais estão em ordem de distância (linha reta) da municipal. Nas 11 municipais, a proporção de docentes sem concurso é zero, exceto na Erasmo Pilotto (9%) e na Herley Mehl (2%).
Como esta reportagem foi produzida
Os dados vêm dos Indicadores Educacionais 2025 do Inep por escola (regularidade, adequação da formação e esforço docente), dos microdados do Censo Escolar 2025 (vínculo, formação e perfil dos docentes, direção, matrículas e turmas) e do SIOPE/FNDE (permanência do magistério efetivo, de 2024 a 2026). Os colégios de destino são os três estaduais com anos finais mais próximos de cada municipal, em linha reta, pelas coordenadas do Inep: 33 pares, com 30 colégios diferentes. As médias de regularidade, adequação e esforço são simples entre escolas; as demais proporções somam os docentes das escolas. Adequação, esforço e alunos por turma referem-se só aos anos finais. Os outros dados incluem todos os professores da escola, e nas municipais isso abrange também a educação infantil e os anos iniciais.