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Tarifa técnica do transporte subiu 36% enquanto o preço pago pelo passageiro ficou parado

O Plural abre em dados a série mensal completa da tarifa técnica paga pela URBS aos consórcios de ônibus de Curitiba, de agosto de 2022 a maio de 2026 — 45 meses, três consórcios, R$ 2,98 bilhões.

Tarifa técnica do transporte  subiu 36% enquanto o preço pago pelo passageiro ficou parado
Foto: Tami Taketani/Plural

O Plural abre em dados abertos, a partir desta semana, a série mensal completa da tarifa técnica do transporte coletivo de Curitiba — o valor que a URBS reconhece aos consórcios operadores por passageiro transportado —, dos passageiros equivalentes e do valor pago aos consórcios, de agosto de 2022 a maio de 2026. São 45 meses de dados, extraídos dos demonstrativos financeiros diários da URBS e cruzados com os processos mensais de cálculo publicados no Diário Oficial. No período, a tarifa técnica média subiu de R$ 6,67 para R$ 9,09 — alta de 36,3% —, mais que o dobro do IPCA geral de Curitiba (15,8%) e muito acima da variação do preço do ônibus para o passageiro, que ficou praticamente parado (-0,4% no IPCA do subitem "ônibus urbano" da RM de Curitiba, pelo IBGE). A diferença não some: ela aparece no orçamento municipal, como subsídio.

A coleção fica aberta na página Linhas de ônibus de Curitiba: dados abertos e, a partir de hoje, inclui os CSVs mensais por consórcio, os PDFs originais dos processos de cálculo da tarifa técnica do Diário Oficial do Município (edições de janeiro a agosto de 2026 já reunidas), os demonstrativos financeiros diários baixados do portal de transparência da URBS, o relatório final da Comissão de Avaliação Permanente da Tarifa e o decreto que fixou a tarifa em R$ 6,00. A metodologia de extração e os scripts usados para montar a série também estão publicados.

O que a série mostra

Entre agosto de 2022 e maio de 2026, a URBS pagou aos três consórcios operadores (Pioneiro, Pontual e Transbus) R$ 2,98 bilhões em 45 meses, para transportar 496,7 milhões de passageiros equivalentes. A tarifa técnica média do período foi de R$ 7,47 por passageiro — mas o número esconde uma trajetória de alta sustentada que se acelerou em 2026.

Período Tarifa técnica média Variação acumulada
ago/2022 R$ 6,67 —
dez/2023 R$ 7,67 +15,0%
dez/2024 R$ 7,96 +19,3%
dez/2025 R$ 8,54 +28,0%
fev/2026 (pico) R$ 9,79 +46,8%
mai/2026 (último mês completo) R$ 9,09 +36,3%

Os picos de 2026 — R$ 9,79 em fevereiro, R$ 9,27 em março, R$ 9,18 em abril — foram os mais altos de toda a série. Em fevereiro de 2026, o valor pago aos consórcios chegou a R$ 82,7 milhões em um único mês, 41% acima do mês inicial da série (R$ 58,7 milhões, em agosto de 2022). Esse é o cenário que levou a Prefeitura, em 2026, a abrir três créditos suplementares em sequência para bancar o subsídio ao transporte, incluindo um corte na reserva de contingência e a anulação de precatórios (Prefeitura tira R$ 40 milhões de precatórios e da reserva de emergência, setembro de 2026).

O passageiro vê preço estável; a conta do contribuinte sobe sozinha

Entre agosto de 2022 e maio de 2026, enquanto a tarifa técnica subiu 36,3%, o IPCA do item ônibus urbano em Curitiba — ou seja, o preço efetivamente pago pelo passageiro — variou -0,4%: praticamente zero, com leve queda, consequência direta do congelamento da tarifa em R$ 6,00 desde março de 2023 e do programa Domingão Paga Meia a partir de janeiro de 2025. No mesmo período, o IPCA geral de Curitiba subiu 15,8%. O descolamento entre o que o passageiro vê (preço estável) e o que o contribuinte paga (custo em alta) é o eixo da coleção que o Plural abre agora em dados.

Indicador (ago/2022 → mai/2026) Variação acumulada
Tarifa técnica paga pela URBS aos consórcios +36,3%
IPCA geral — RM de Curitiba +15,8%
IPCA ônibus urbano — RM de Curitiba -0,4%

Fonte: Plural (série mensal da tarifa técnica) e IBGE/SIDRA, tabela 7060 (IPCA mensal da RM de Curitiba, subitem 5101001 — ônibus urbano, e índice geral; números acumulados pelo encadeamento das variações mensais).

A planilha com os 45 meses, incluindo tarifa técnica, IPCA geral e IPCA do ônibus urbano em números-índice (ago/2022 = 100), está no CSV tarifa_tecnica_vs_ipca_cwb.csv da coleção.

Por que publicar os dados brutos

A URBS calcula a tarifa técnica todo mês. O cálculo é publicado no Diário Oficial do Município em um processo administrativo com várias páginas de planilhas e, até 2025, era também disponibilizado em uma seção específica do portal de transparência da autarquia. Dois episódios recentes degradaram essa disponibilidade:

Nos dois casos, o Plural teve de obter os processos por meio de pedidos de acesso à informação e de leitura direta das edições do Diário Oficial do Município. A publicação agora da série completa visa pôr em acesso aberto o que a autarquia deveria ter mantido disponível desde o início, e permitir que pesquisadores, movimentos de transporte e vereadores façam suas próprias análises.

O que está na coleção

A coleção de dados inclui:

  1. Série mensal consolidada (resumo_mensal_consorcios.csv) — 45 meses, de agosto de 2022 a maio de 2026, com uma linha por consórcio (Pioneiro, Pontual, Transbus) e uma linha "TOTAL" por mês. Campos: tarifa técnica média, valor pago aos consórcios, receita bruta de tarifa técnica, passageiros equivalentes transportados, número de dias com dado no mês, e a fonte (repasse ou demonstrativo). Meses com menos de 20 dias de dado são descartados.

  2. Demonstrativos financeiros diários (1.401 PDFs, 757 MB) — um PDF por dia, por consórcio, baixados do portal de transparência da URBS. É a base da série mensal.

  3. Processos de cálculo da tarifa técnica — DO Município — processos mensais publicados no Diário Oficial. Edições de janeiro a agosto de 2026 já estão disponíveis; o Plural segue baixando as edições anteriores.

  4. Relatório final da Comissão de Avaliação Permanente da Tarifa — o documento mais recente da comissão que avalia a metodologia do cálculo da tarifa técnica.

  5. Decreto 306/2023 — o decreto que fixou a tarifa paga pelo passageiro em R$ 6,00.

  6. Scripts de extração e consolidação — o código em Python que lê os PDFs e monta o CSV, para quem quiser auditar ou reproduzir a série.

Além dos dados financeiros, a página Linhas de ônibus de Curitiba continua trazendo os indicadores de operação em tempo real medidos por um coletor próprio do Plural: pontualidade por linha, headway (intervalo entre ônibus) e velocidade operacional. Em junho de 2026, a mediana de pontualidade das 79 linhas acompanhadas era de 52,4%.

Quem opera o transporte

A tarifa técnica é paga a três consórcios de empresas, mas o controle das viações concentra-se na família Gulin. Em agosto de 2026, o Plural publicou que a família controla, direta ou indiretamente, cerca de 73% dos ônibus que circulam na capital (Família Gulin: os donos de 73% dos ônibus de Curitiba). Em setembro de 2026, a Tradener — outra empresa do grupo, no setor de energia — entrou em recuperação judicial, e o Plural rastreou movimentações patrimoniais do grupo nos meses anteriores ao pedido (Antes da recuperação judicial, Tradener passou jato para outra empresa dos Gulin). As reportagens do dossiê estão linkadas na hub.

Também em setembro, os consórcios notificaram a Prefeitura cobrando até R$ 584,5 milhões em "passivo regulatório" antes do leilão da nova concessão (Consórcios querem até R$ 584,5 milhões da Prefeitura antes do leilão). O valor equivale a aproximadamente sete meses da tarifa técnica paga pela cidade na série de 2026.

O que vem pela frente

O edital da Concorrência FUC 001/2026, publicado em agosto de 2026, mantém a tarifa em R$ 6,00 pelos próximos 15 anos de concessão e oficializa o subsídio público permanente. Pelas projeções do próprio edital, o aporte municipal começa em R$ 330,7 milhões em 2027 e chega a R$ 567 milhões em 2041, somando R$ 6,4 bilhões em valores nominais no período. A série que o Plural agora publica — e que seguirá sendo atualizada mês a mês — é a referência histórica contra a qual essas projeções deverão ser comparadas quando os primeiros contratos entrarem em operação.


Como citar: Plural (2026). A coleção de dados do transporte coletivo de Curitiba, 2022–2026. https://www.plural.jor.br/curitiba/linhas-de-onibus-de-curitiba/

Fontes: URBS (portal de transparência, Diário Oficial do Município, processos de cálculo mensal da tarifa técnica, relatório da Comissão de Avaliação Permanente da Tarifa, Decreto 306/2023), base de dados do Plural (coletor próprio de pontualidade; agregação dos demonstrativos diários). Última atualização: 19 de outubro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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