A Tradener — comercializadora de energia elétrica de Curitiba que hoje pede recuperação judicial com R$ 1,85 bilhão em dívidas — transferiu, no fim de 2025, seu jato executivo Cessna Citation CJ4 (prefixo PP-PGA) para a Pierp Comercializadora de Energia S.A., outra empresa da família Gulin. A operação, registrada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) em novembro de 2025 e contabilizada no balanço da Tradener como venda em dezembro, aconteceu cinco meses antes do pedido de recuperação judicial. Três meses depois de receber a aeronave, em fevereiro de 2026, a Pierp repassou o mesmo jato ao Banco Daycoval — que o arrendou a uma empresa recém-criada do Grupo Simpar, com valor declarado de R$ 42 milhões no registro do arrendamento.
No mesmo ano em que se desfez do jato antigo, a Tradener arrendou do Bradesco, por R$ 62,53 milhões, um jato novo — o Cessna Citation CJ3+ (PS-PGA) — e chegou a operar as duas aeronaves em paralelo por sete meses. Em 2023, emprestara R$ 12 milhões à Auto Viação Marechal, operadora de ônibus da mesma família em Brasília.
Entre 2017 e 2026, a Tradener operou pelo menos quatro aeronaves executivas, segundo o Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) da ANAC. As duas primeiras eram turboélices menores e passaram pela Tradener por menos de um ano cada. O Hawker Beechcraft King Air C90GTI (prefixo PP-JCL, ano de fabricação 2012) foi operado pela comercializadora como próprio entre janeiro e dezembro de 2017 e hoje aparece no RAB registrado em nome da Polifrigor S/A Indústria e Comércio de Alimentos (em recuperação judicial, sediada em São Paulo), operado pela Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), em Minas Gerais. O Beechcraft King Air B200GT (prefixo PR-PGA, ano de fabricação 2017) foi arrendado pela Tradener em regime de arrendamento mercantil entre agosto de 2017 e julho de 2018 e hoje aparece no RAB registrado em nome de uma pessoa física do Paraná. As duas aeronaves mais recentes — os dois Cessna Citation — concentram a história.
O Cessna Citation CJ4 (prefixo PP-PGA, ano de fabricação 2018) foi matriculado pela Tradener em 12 de fevereiro de 2019. Operou como aeronave própria da comercializadora até outubro de 2025, quando o RAB registrou a mudança de titularidade. Nos balanços auditados da Tradener, o custo original de aquisição do jato é de R$ 31,751 milhões; ao longo dos anos de operação, foi depreciado à taxa de 10% ao ano, chegando à data da baixa (dezembro de 2025) com depreciação acumulada de R$ 22,082 milhões — portanto um valor contábil líquido de R$ 9,669 milhões.
O Cessna Citation CJ3+ (prefixo PS-PGA, ano de fabricação 2025) foi arrendado do Bradesco Leasing S.A. — Arrendamento Mercantil (CNPJ 47.509.120/0001-82), com valor de contrato de R$ 62.529.077,17, segundo os dados do RAB. As duas holdings controladoras da comercializadora — D.G.W. Participações e Fraternita Participações — figuram como avalistas do contrato, cuja assinatura, segundo a manifestação da administradora judicial anexada ao processo, foi em 14 de fevereiro de 2025. A matrícula no RAB é datada de março de 2025. Donato Gulin, ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Curitiba, aparece como administrador da D.G.W. e da Fraternita; Carlos Frederico Gulin, filho de Donato, dirige a Tradener e preside a KITH Participações Societárias, sócia majoritária das duas holdings.
Segundo o RAB, entre março e outubro de 2025 — sete meses —, a Tradener operou ao mesmo tempo dois jatos executivos; e em novembro do mesmo ano, transferiu o antigo para a Pierp.
A Pierp Comercializadora de Energia S.A. (CNPJ 04.810.290/0001-90), sediada em Curitiba e com capital social declarado de R$ 2,5 milhões, atua no comércio atacadista de energia elétrica — o mesmo ramo da Tradener. Aparece na base de empresas do grupo Gulin, produzida a partir de dados da Receita Federal.
Segundo o RAB, a aeronave saiu do CNPJ da Pierp em fevereiro de 2026 — cerca de cinco semanas antes da cautelar antecedente ajuizada pela Tradener em 31 de março de 2026. Passou a operar sob arrendamento mercantil da Daycoval Leasing S.A. (CNPJ 57.731.012/0001-03, do Banco Daycoval), com a Asim Participações e Holding Ltda (CNPJ 58.534.722/0001-06) como arrendatária. A Asim é uma sociedade aberta em 20 de dezembro de 2024 em Mogi das Cruzes (SP), com capital social de R$ 98,2 milhões, cujos sócios são todas empresas do Grupo Simpar — JSL S.A., Movida Participações S.A., Vamos Locação, Simpar S.A., Automob Participações e CS Infra. No cadastro do RAB, o valor declarado da aeronave é de R$ 42.000.000,00.
O valor efetivo que a Pierp pagou à Tradener em novembro de 2025 não consta dos documentos anexados ao processo de recuperação judicial. O balanço da Tradener registra o custo original do CJ4 (R$ 31,751 milhões), a depreciação acumulada até a baixa (R$ 22,082 milhões) e o valor contábil líquido, na data da venda, de R$ 9,669 milhões. Também não consta, nas notas explicativas do balanço de 2025, uma linha específica de "recebimento por venda de imobilizado" ou de "ganho/perda com alienação de ativos". O preço pelo qual a Pierp vendeu o jato ao Daycoval em fevereiro de 2026 também não está no processo.
Credores contestam
A maior credora da Tradener na recuperação judicial, a Comerc/Bom Nome Solar (crédito de R$ 201,6 milhões), acusou nos autos a Tradener de "omitir ou distorcer os fatos" sobre o leasing do jato novo. A comercializadora informou aos credores, no movimento 613, que a parcela mensal do arrendamento seria "na média de R$ 1.400.000,00"; o administrador judicial constatou, no movimento 782, que a parcela mensal do contrato é de R$ 322.302,07 — quatro vezes menor.
A Eneva apontou nos autos duas anomalias específicas no leasing do CJ3+ (movimento 728, página 9.543): (i) divergência entre o número de série citado no laudo de viabilidade do plano de recuperação e o número que consta no compromisso de arrendamento (525B0665 versus 525B0740), pedindo a exibição do contrato definitivo; e (ii) uma data de aquisição lançada no ativo em 31 de março de 2025 que poderia indicar uma segunda aeronave, cuja origem dos recursos ainda não foi esclarecida. O processo, até agora, não trouxe resposta definitiva a essas perguntas.
Em decisão publicada em 18 de setembro de 2026, a juíza da 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba, Luciane Pereira Ramos, autorizou a Tradener a ceder sua posição no contrato do CJ3+ por R$ 60,87 milhões, valor pouco superior ao saldo devedor do leasing (R$ 60,39 milhões). Segundo a manifestação da Comerc de 24 de setembro de 2026 (movimento 971), naquele momento a aeronave representava 97,6% do imobilizado avaliado da empresa.
R$ 12 milhões à Viação Marechal em 2023
Em 2023, dois anos antes da chegada dos jatos e do pedido de recuperação judicial, a Tradener firmou contrato de mútuo com a Auto Viação Marechal Ltda. no valor de R$ 12 milhões. A operação está registrada nas notas explicativas dos balanços auditados pela PwC anexados ao processo — no balanço de 2023 (juntado com a petição inicial, movimento 1) e nos balanços de 2024 e 2025 (anexados pela administradora judicial na manifestação de 7 de agosto de 2026, movimento 529). A partir do balanço de 2024, a nota informa que o valor foi "totalmente recebido em 2024 com os devidos juros contratuais".
No balanço, o mútuo aparece classificado como "Outros valores a receber", junto com um empréstimo antigo à SPE RJ CMU Cobrança e Execução de Crédito (R$ 300 mil, feito em 2019) e a compra de precatórios do Rio Grande do Sul. Não aparece na nota de "transações com partes relacionadas" — quadro em que a Tradener lista apenas as operações com a TRD Comercializadora (outra empresa do próprio grupo) e a remuneração dos administradores.
Segundo o dossiê societário — construído a partir dos autos e da Receita Federal —, Donato Gulin figura como administrador direto da D.G.W. Participações e da Fraternita Participações (controladoras da Tradener) e é o único sócio da Diodorus Participações, que por sua vez é sócia da Only e da Scenario, ambas sócias da Auto Viação Marechal.
A Marechal que operou ônibus em Curitiba até 2016 e a Marechal que opera hoje em Brasília são a mesma pessoa jurídica. Na Receita Federal, ambas figuram sob o CNPJ raiz 76.557.867, com matriz em Curitiba (76.557.867/0001-04) e filiais em Brasília — em especial a 76.557.867/0004-57, aberta em 29 de maio de 2013, e a 76.557.867/0006-19, aberta em 19 de fevereiro de 2014. A empresa opera no Distrito Federal sob a concessão nº 08/2013 da Secretaria de Mobilidade do DF (Semob-DF).
O quadro societário da matriz está inteiramente na família Gulin. As sócias pessoa jurídica são Glória Participações, Citinvest Participações, Only, Scenario, Redebus Veículos, Triple Veículos e Great Wall Compra e Venda de Ativos e Participações. Entre os administradores está Angelo Gulin Neto, ao lado de dois executivos de fora da família (Celso Luis Kukiela e Paulo Henrique Barreto Munhoz da Rocha). Segundo o levantamento histórico da família Gulin, a Marechal foi comprada pelos Gulin em 1996; em 7 de junho de 2016, repassou a operação em Curitiba à Transporte Coletivo Glória, empresa da mesma família. Hoje é responsável pela chamada Bacia 4 do sistema do DF, com cerca de 510 ônibus e 144 linhas, segundo publicações do próprio governo do Distrito Federal.
O ano em que a Marechal parou
Em relatório de visita técnica da Câmara Legislativa do Distrito Federal apresentado em 6 de outubro de 2023, apurou-se que a Marechal precisava substituir 326 dos 446 ônibus que operava, para cumprir a exigência regulatória de idade máxima da concessão. O prazo era até agosto de 2023.
Em novembro de 2023, o Correio Braziliense noticiou que os rodoviários da Marechal entraram em greve por falta de pagamento de salários e que, em acordo firmado no Tribunal Regional do Trabalho, a empresa ganhou prazo até 8 de novembro para quitar, sem cumprir. Em 11 de dezembro de 2023, segundo o Diário do Transporte, a Marechal começou a recolher ônibus alegando falta de óleo diesel; no dia seguinte, cerca de 100 ônibus não saíram da garagem — 40% da frota. O Procon-DF deu à empresa 48 horas para justificar.
Em 15 de dezembro de 2023, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, pela Promotoria de Defesa do Patrimônio Público (Prodep), oficiou o governo do DF a suspender de imediato qualquer repasse à Marechal. O promotor Paulo Binicheski classificou os fatos como "extremamente graves", segundo comunicado da própria Prodep. Em decisão posterior, o Tribunal de Justiça do DF confirmou a suspensão. A decisão apontou que a Semob-DF havia reconhecido administrativamente uma dívida de R$ 196.794.311,80 com a Marechal — a origem alegada era um erro de planilha da secretaria que teria deixado de fora, no cálculo do subsídio, 75 ônibus da frota desde 2013. O governo do DF já havia pago R$ 64.023.749,47 com base nesse reconhecimento antes de a Justiça travar o restante.
Em novembro de 2025, segundo o Diário do Transporte, a Marechal foi selecionada pelo Novo PAC com R$ 139,4 milhões de financiamento para renovação de frota, via FGTS, com o Banco Mercedes-Benz e a Caixa Econômica Federal.
Dividendos, pedidos de fiscalização e um pagamento à Pierp em abril
Os balanços auditados anexados ao processo mostram que, nos três anos anteriores à recuperação judicial, a Tradener distribuiu R$ 127,75 milhões em dividendos aos sócios em 2023, R$ 70,4 milhões em 2024 e R$ 48,5 milhões em 2025. Nos três primeiros meses de 2026, foram distribuídos mais R$ 19,5 milhões, com pagamentos registrados nos livros razão das holdings como "RECEBIDO DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS TRADENER" em 7 e 13 de janeiro, 23 de janeiro, 25 de fevereiro e 25 de março, dois meses antes do pedido de recuperação.
Os credores da Tradener — entre eles Eneva, Grupo CEI (CEI, NEC e ATMO), Comerc/Bom Nome Solar e Statkraft — pediram à Justiça a nomeação de um observador independente para fiscalizar as operações entre as empresas do grupo e a reconciliação do caixa dos exercícios de 2025 e 2026. As manifestações da Eneva (movimento 729, de 28 de agosto de 2026) e da Comerc/Bom Nome Solar (movimento 971, de 24 de setembro de 2026) tratam das "transferências intragrupo" em termos genéricos e concentram-se no leasing do CJ3+ junto ao Bradesco; nas manifestações consultadas até 26 de setembro de 2026, nenhum credor nomeou o mútuo à Auto Viação Marechal, a transferência do CJ4 à Pierp Comercializadora nem outro trânsito de recursos: um pagamento de R$ 747.969,03, classificado nos extratos bancários anexados à petição inicial como "Pagamento A Fornecedores", feito pela Tradener à Pierp em 9 de abril de 2026 — nove dias após a cautelar antecedente e 41 dias antes do pedido de recuperação judicial.
A juíza Luciane Pereira Ramos proibiu, no deferimento do processamento, a distribuição de novos dividendos até a aprovação do plano de recuperação. Até o fechamento desta reportagem, nenhum relatório específico sobre o mútuo à Marechal, sobre a transferência do CJ4 à Pierp ou sobre o pagamento à Pierp em abril de 2026 havia sido apresentado pela administradora judicial.
Outro lado
Procurada pela reportagem a Tradener informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não iria comentar o processo de Recuperação Judicial que tramita na Justiça. As perguntas enviadas incluíam o preço efetivo pago pela Pierp Comercializadora na transferência do Cessna Citation CJ4 em novembro/dezembro de 2025, a taxa de juros e as datas do mútuo à Auto Viação Marechal em 2023, a razão para a classificação da operação fora de "transações com partes relacionadas" no balanço, a natureza do pagamento de R$ 747.969,03 feito à Pierp em 9 de abril de 2026 e os termos do leasing do Cessna Citation CJ3+ junto ao Bradesco Leasing.
Fontes: processo 0008972-30.2026.8.16.0194 (2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba) — petição inicial (movimento 1, distribuída em 20/05/2026), manifestações da administradora judicial (mov. 529, 07/08/2026; mov. 782, 18/09/2026), manifestações dos credores Eneva (mov. 728 e 729, 28/08/2026) e Comerc/Bom Nome Solar (mov. 971, 24/09/2026), e decisão da juíza Luciane Pereira Ramos publicada em 18/09/2026 sobre a cessão do contrato do jato, com os balanços auditados de 2023, 2024 e 2025 da Tradener Ltda e o parecer da PwC (PricewaterhouseCoopers Auditores Independentes Ltda.); Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) da ANAC — histórico das aeronaves prefixos PP-JCL, PR-PGA, PP-PGA e PS-PGA, incluindo a matrícula atual do PP-PGA sob arrendamento mercantil do Banco Daycoval para a Asim Participações e Holding Ltda; Receita Federal (base CNPJ, competência 08/2026) — Auto Viação Marechal Ltda sob o CNPJ raiz 76.557.867 (matriz Curitiba, filiais Brasília), Pierp Comercializadora de Energia S.A. (CNPJ 04.810.290/0001-90) e Asim Participações e Holding Ltda (CNPJ 58.534.722/0001-06); CPC 05 (R1) — Divulgação sobre Partes Relacionadas, revisão 06, emitida pela Comissão de Valores Mobiliários; contrato de concessão nº 08/2013 da Semob-DF; nota do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (Prodep) de 15/12/2023 sobre a suspensão dos repasses à Marechal; relatório de visita técnica à garagem da Auto Viação Marechal apresentado à Câmara Legislativa do Distrito Federal em 06/10/2023; reportagens do Correio Braziliense (novembro/2023), Diário do Transporte (dezembro/2023 e julho/2026) e Metrópoles (dezembro/2023); resposta da assessoria de imprensa da Tradener em 29 de setembro de 2026. Última atualização: 29 de setembro de 2026.