Arthur, o psicopatinha | Plural
1 maio 2019 - 6h00

Arthur, o psicopatinha

Fagner Zadra conta a história da noite em que enfrentou o legítimo “Piá do Djanho”

Criar os filhos é algo complicado e com tantas variáveis quanto um cálculo de terceiro grau, só que um pouco pior, principalmente se você não quiser que seus filhos se tornem psicopatas. Às vezes isso é inevitável, ainda mais se você der muito chocolate para eles, pois é a mesma coisa que dar uma carga extra numa bateria que já estava funcionando. Minha sobrinha, com chocolate no organismo, vira uma minidemônio como energia para dominar o mundo, pelo menos o meu mundo.

Teve uma vez que ela “aprendeu” uma receita de brownie com uma coleguinha da escolinha e tentou reproduzir na casa da vovó, minha mãe, enquanto a minha mãe estava no banho. E ela fez tudo direitinho, a única coisa que ela não sabia, era que antes de derreter o chocolate, tinha que tirar ele da embalagem, que inclusive, tem papel laminado, e este foi o triste fim de um microondas novinho em folha, que pegou fogo e poderia ter causado um incêndio no apartamento ou no prédio. Minha sobrinha é geniosa e hiperativa, ainda bem. Gosto disso, pois para mim, criança saudável, é criança correndo ao redor da mesa, até bater a cabeça na quina e deixar de ser saudável, tem que proteger as quinas, do contrário tem que vestir os filhos com equipamento de futebol americano ou de hóquei.

Pois é, tem que ter cuidado e atenção, muita atenção! Eu mesmo fui uma criança maluca, fazendo meus pais me levarem em tudo quanto é tipo de psicólogo, psiquiatra, benzedeira e até um padre exorcista, mas chegaram a conclusão de que não era o demônio no meu corpo, era só o efeito do chocolate mesmo.

Fiz tanta folia na infância, que sinceramente não sei como não me puseram para adoção (na verdade não sei se puseram e alguém devolveu, nunca perguntei).

Criança acredita em quase tudo o que vê, principalmente o que vê na tevê. Eu tinha uns 5 aninhos de idade e na minha época o que fazia mais sucesso não eram Os Vingadores, era o Super Man, e eu pensava que realmente as pessoas poderiam voar se estivessem vestindo uma capa vermelha. Então, coloquei a cueca por cima do pijaminha, vesti uma toalha vermelha como capa, fui até a janela, e antes de saltar, quando gritei “para o alto e avante!”, minha mãe me segurou pelo pescoço, só que a gente morava no segundo pavimento de um prédio. Ainda bem, porque pelo que eu saiba, não tenho parentesco com o Ícaro, o das asas.

Teve outra vez que pus um cavalo no hall do pequeno prédio onde morávamos. Calma, tem uma explicação, mesmo parecendo absurdo uma criança pôr um cavalo de verdade dentro de casa. É que eu sempre mexi com cavalos, desde a infância, e fui do sítio para a cidade com o meu. Sim, naquela época, numa pequena cidade no interior do interiorzão do Rio Grande do Sul, era normal ver uma criança montada num cavalo, no centro da cidade. Fui até em casa buscar algo que não lembro, deixei o cavalo no terreno ao lado e esqueci a porta do prédio aberta e o Pingo, meu cavalo, como gostava muito de mim, me seguia igual cachorro que segue o dono, e ele apenas entrou onde viu o dono entrando. Quando minha mãe ouviu um enorme barulho nas escadas, foi lá ver e se deparou com um cavalo, dentro de casa, que de alguma forma havia conseguido subir uns lances de escada e só parou de tentar quando caiu, foi quando corri lá com o grito ensurdecedor que minha mãe deu. Ficamos na antessala nos olhando, Dona Rose, eu e o Pingo, com minha mãe surtada, e eu e o cavalo achando tudo normal.

Mas e o que o Arthur tem à ver com tudo isso? É que ser arteiro é bem diferente de ser psicopata e tenho certeza que o Arthur é. Explico.

Certa vez, quando eu tinha uns 20 anos de idade, eu estava visitando minha irmã na cidade dela e fomos convidados para ir jantar na casa de um casal amigo dela. Este casal tinha um filho de 4 anos, que batizaram como Arthur, mas deveria ter sido Lúcifer, pois era o legítimo “Piá do Djanho”. Tinham outros convidados no jantar, mas o pequeno sádico me escolheu para sua sessão noturna de tortura. Acho que ele gostava de executar uma torturazinha antes do mamá. E pelo comportamento dos pais, acho que aquilo era normal ali, e tem coisa que tem que ter limite, coisa que o Arturzinho não tinha.

Não gosto de comer na casa de desconhecidos, mas me servi e sentei no sofá, quando estava prestes à comer, veio a criança, fofa, com uma chupeta na boca, a qual lançou no meu prato, com baba e tudo. E o pai “repreendeu” o Arthurzinho. ‘Repreendeu” com aspas mesmo, e você, caro leitor, já vai descobrir o porquê das aspas.

– Arthur, o que o papai falou sobre jogar a chupeta nos outros?

– Calma, é só uma criança.

– Nada disso, tem que educar.

– Isso é verdade.

– Viu só Arthur, agora este titio vai ter que comer com a sua chupeta dentro do prato.

– Na verdade como na dieta do titio aqui não cabe saliva de criancinha, o titio vai trocar de prato, né papai?

Fui lá, troquei de prato e sentei novamente no mesmo lugar. Aí o menino veio, fofo, e ergueu a mão, como se quisesse fazer carinho no meu rosto, e como adoro criança, levei meu rosto de encontro à sua mãozinha, e que com ela, carinhosamente ele acariciou a minha comida. Sim! Ele enfiou a mão no meu prato! Não só enfiou, como começou a comer a minha comida, com as mãos, no meu prato! E o pai dele, com toda a calma do mundo, enquanto seu filho se alimentava como um macaco, o “repreendeu”:

– Filho, o que o papai falou sobre pôr as mãos dentro do prato dos outros?

– Como é o nome dele?

– Arthur.

– Arthur, isso não pode tá? Agora o titio aqui vai ter que trocar o prato de novo.

– Desculpe Fagner.

– Não, tudo bem, criança é criança mesmo.

Fui lá e mais uma vez troquei de prato, voltei e novamente sentei no mesmo lugar, confesso que já com um tanto de antipatia com o piazinho. Quando eu estava na metade do prato, lá veio o menino com um garfo na mão.

– Olha só, teu filho tá com um garfo na mão.

– Arthur, o que você vai fazer com este garfo? Não, não, não, solta lá de volta.

O Arthur, fofo, veio e me espetou com o garfo. Só que era um dia especial e nestes dias especiais as pessoas põe seus melhores talheres na mesa, do tipo os que ganham de presente de casamento, que dá para ver que custaram caro. E talher do bom, vem super afiado de fábrica. Aquele garfo era assim e enquanto eu e o pai do menino ficamos observando ele entregar o garfo na minha mão, pois era o que parecia que ele faria, ele se aproximou e cravou o garfo na minha perna, bem em cima da coxa. Sem querer eu gritei:

– Caralho! Minha perna!

E enquanto eu sangrava tentando arrancar o garfo da minha perna, o pai dele calmamente disse’

– Isso é feio Arthur. Falar palavrão é feio.

– E cravar o garfo nas pessoas também é! Cacete, não consigo tirar!

– Cacete também é feio viu! Tem criança aqui, não percebeu não?

– Feio vai ser a tua criança ver um homem entrar em choque hipovolêmico de tanto perder sangue, com um garfo cravado na perna e morrer no meio da tua sala. Você pode me ajudar aqui?

– Calma, estressadinho você hein! Arthur, o que o papai falou sobre espetar as pessoas com o garfo, te disse que isso poderia machucar alguém, olha esse titio…

– Cara, tá escorrendo sangue no teu tapete!

– Puta que o pariu, meu tapete novo!

Eles haviam acabado de se mudar e tinham comprado um tapete de cerdas altas, branco, que o filho havia feito uma pintura de vermelho com meu sangue que se não fosse limpo logo, iria ficar manchado. Aparentemente era mais importante salvar o tapete do que a minha vida. O pai do pequeno jagunço tirou o tapete da sala, e eu o garfo da perna.

A mãe do Projeto de Assassino me fez um curativo, foi a única vez que fiquei sem calça no banheiro com uma mulher, com seu marido na sala.

Com o curativo feito e calça vestida, voltei para a sala e desta vez sentei em outro lugar. Depois de um tempo, o menino veio em minha direção, mas desta vez segurando uma faca de cozinha na mão.

– Cara, teu piá tá vindo com uma faca na minha direção!

– Calma, ele não vai fazer nada.

– Ah é? Igual fez nada com o garfo?

– Arthur, o que o papai falou sobre pegar a faca na cozinha?

Aí eu levantei, dominei o Chucky e tirei a faca dele, e antes de eu dar uma surra no pai dele por ser tão sonso e permissivo, fui embora, até porque, eu já estava esperando aquele psicopatinha vir com a arma do pai dele e ter o mesmo desfecho do garfo.

– Arthur, o que eu falei sobre pegar a arma do papai? Me dá aqui o revólver, filho, deixa eu tirar as balas pra você poder brincar sem machucar ninguém aqui, o tapete é novo e sangue mancha

Inclusive, nos tempos de hoje, tempos de liberação de armas, talvez essa cena fosse real mesmo.

O fato é que as crianças crescem e viram adultos, uns mudam, outros nem tanto. Não sei o que aconteceu com o Arthur, só sei que que hoje ele é adulto e eu gostaria muito de convidar ele para jantar aqui em casa, só que dessa vez, quem iria dar uma de louco dando garfada nele seria eu! Não sou assim, mas confesso que nessa noite, eu dormiria sorrindo.

 

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