O truque da Nasa | Plural
30 abr 2019 - 6h00

O truque da Nasa

Marcos Pamplona fala de multidões abduzidas por mentirosos e ignorantes que não acreditam em conhecimentos

Era 1973. Fui com meu avô levar a Vemaguet à oficina de um sobrinho dele. Ficava perto da nossa casa, no Capão Raso. A oficina era um galpão alto de madeira castigado pelo tempo. No meio de uma desordem maravilhosa de peças, calendários de mulher pelada, macacos hidráulicos, ferramentas e carros empoeirados, deitado embaixo de um Belcar, encontramos o Hartmut. Saiu de lá vermelho, o rosto derretido pelo trabalho e (diziam) pela cachaça. Limpou as mãos numa estopa e conversou em alemão com meu avô. Para meu alívio, em algum momento começaram a falar em português. Não me lembro por que meu avô mencionou a chegada do homem à Lua. Hartmut jogou numa bancada a chave de boca que tinha recolhido do chão e disse, categórico:

– Isso é truque da Nasa.

Meu avô riu. E aquelas imagens que a gente tinha visto?

– Eles inventaram. Truque de televisão. Ninguém pisou na lua.

Vemaguet

Fiquei pasmo, mas tinha nove anos e, naquela época, um menino devia se manter quieto. Os dois infelizmente mudaram de assunto.

A caminho de casa cismei com aquilo. Eu já sabia que (nas palavras do próprio avô) uma grande mentira podia contaminar muita gente. Ele mesmo tinha vivenciado isso entre as duas Guerras Mundiais, quando parte de sua família fugiu da Alemanha porque uma “verdade” estava a ponto de explodir. Perguntei ao velho o que achava do tal truque da Nasa. Os olhos irônicos dele me analisaram através das lentes verdes dos óculos.

– Isso é falta de estudo.

Tropecei dentro de mim. Com alguma dificuldade, julguei entender. A coisa se resumia assim: havia multidões abduzidas por mentirosos e havia pessoas ignorantes que não acreditavam em conhecimentos e fatos consagrados (eu ainda não podia perceber a conexão entre as duas coisas).

Ano passado me lembrei dessa história. Estava num bar, bebendo, lendo, quando os caras da mesa ao lado comemoraram algo. Um deles gritou:

– Fodeu-se, sapo barbudo!

Outra mesa aplaudiu. Peguei meu celular. Tinham prendido Lula. Moro, agindo contra a Constituição no caso das escutas telefônicas, sem provas, limpava o caminho com ar de justiceiro e abria sua carreira política. Saí do bar. Bar errado.

Em busca de outro lugar para acomodar minha tristeza, me veio aquela conversa perdida no tempo com o Hartmut. Os homens não tinham pisado na lua, assim como Lula era um grande ladrão. O segundo fato, sem sombra de dúvidas, era truque de televisão.

E pouco a pouco, ao longo de um ano, fui vendo um delírio coletivo nascer de uma mentira. Surgiu o espectro de Bolsonaro. Pela primeira vez na história do país, um candidato à Presidência vinha amparado por uma milícia digital. Verdades fabricadas e disseminadas através das redes sociais atacavam por toda parte noções consagradas pela ciência, pela história, pela filosofia, pela cultura, pelo welfare state. Os disparos não seguiam uma ordem, bastava que atentassem contra a razão. O nazismo é de esquerda; a terra é plana; negros e homossexuais não prestam; mulheres são inferiores; a polícia é amiga do homem de bem; o Exército garante a nossa integridade; a população deve andar armada; a família e o patriotismo são o cerne duro da moral e dos bons costumes; nunca houve Ditadura; professores e artistas são agentes do mal; Paulo Freire destruiu a educação no Brasil; a Lei Rouanet é uma desgraça; carnaval é um grande golden shower; escolas e universidades públicas só servem para fazer lavagem cerebral; a massa imensa de velhos pobres deve trabalhar até morrer. O Estado deve ser mínimo. A livre iniciativa e a meritocracia (os ricos) nos salvarão…

As fake news devastaram o hesitante bom senso dos brasileiros e abriram as portas para uma estupidez que andava acanhada. Depois dos sopapos no whatsapp, muitas famílias se dividiram: comunistas pra cá, homens de bem pra lá – ambos inventados. Está aberta a temporada de caça aos mendigos, gays e travestis. O Exército e a Polícia Militar passaram a atirar preventivamente contra negros. O homem branco bem sucedido, que se acha mais inteligente do que a mulher “porque entende os jargões boçais da bolsa de valores, porque se mantém discreto diante dos pormenores de algum negócio sórdido ou profissão degradante, tais como o atacado de sopas ou o Direito”, como disse H.L. Mencken, tirou do armário sua fantasia embolorada de Macho Superior. Saiu por aí exibindo sua alta capacidade intelectual para replicar lugar-comum.

Talvez o maior legado do governo atual, até agora, tenha sido o empoderamento da ignorância. Foi uma estratégia eficiente. Pessoas limitadas, truculentas e preconceituosas são os agentes ideais para infundir pânico e criar o caos. Como as milícias a que a famiglia do presidente está vinculada, tais pessoas insuflam a violência e destroem rapidamente os valores republicanos de renúncia às vantagens privadas em favor do bem comum. Nesse cenário, e com o Estado deixando de regulamentar a vida e a saúde social, política e econômica do país, os chacais das grandes corporações e do mercado financeiro encontram campo aberto para iniciar a chacina lucrativa. Dilapidam os cofres públicos. Devastam o meio ambiente. Acabam com os direitos do trabalhador. Aumentam vertiginosamente a desigualdade social. Tiram da frente todas as leis que possam refrear sua fome. E o país da “nova política” canta o hino nacional com um orgulho tolo, sem saber que entoa a canção de morte do seu povo.

O sobrinho de meu avô ainda está vivo. Soube quando sua atual parceira solicitou minha amizade há alguns meses no Facebook. Tive o prazer de ver o Hartmut numas fotos. Bem velhinho. Mora numa propriedade rural perto de Curitiba. Para minha surpresa, soube pelas postagens que ele não deu crédito ao mito e deplora este governo. Talvez eu o tenha julgado mal. Talvez ele nem descresse dos avanços tecnológicos. Sua incredulidade quem sabe repousasse sobre o inescrupuloso domínio imperial americano. Haveria uma linha de pensamento. Nesse caso, me irmano com Hartmut. O homem não pisou na Lua. O homem esqueceu a Lua.

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