O diabo roga praga – inconclusões sobre leitura e literatura | Jornal Plural
8 fev 2021 - 8h00

O diabo roga praga – inconclusões sobre leitura e literatura

Nesse mundo barulhento que nos convida para a dispersão, a leitura dá poder de concentração, é um modo de ensimesmamento nesse globo ruidoso

Para Felipe Neto

Pensei em fazer aqui a minha profissão de fé, tipo “Creio na leitura toda poderosa / recriadora de realidades / em especial na literatura / sua filha mais nobre / que foi concebida por mentes inteligentes e sensíveis / nasceu de penas, tintas, grafites e teclados / e mata-borrões, corretivos, borrachas e deletações / padeceu sob a indústria cultural e a internet / foi crucificada, morta e sepultada / desceu à mansão dos mortos, mas vive ressuscitando / Creio que a leitura amplia nossa visão de mundo / Creio que pode mudar nossa realidade individual e coletiva / Creio que é melhor ler qualquer coisa do que não ler nada / Amém”.

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Mas como toda a convicção não está imune à voz sedutora da dúvida ao pé do ouvido, reticências.

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Comparações covardes: certamente, a quantidade de livros que já li deixa Dante Alighieri comendo poeira em algum círculo do inferno (sentiram a arrogância com apenas uma sobrancelha levantada?). Você (sobrou pra você) já deve, é provável, ter lido mais do que Shakespeare leu na vida dele. As condições de produção e de acesso ao livro eram muito menos favoráveis. Somos nós, que lemos mais, mais inteligentes do que eles foram?

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Segundo o DataChute, 98,36% das coisas que li já foram esquecidas; sobrevivem aqui dentro apenas cerca de 1,64% (era Bentinho o nome do rapaz lá, né?). E sobrevivem misturadas às coisas que já moravam comigo e às que ainda vão morar. Um conjunto habitacional e tanto.

Eu não me lembro de todas as broncas que meus pais me deram, mas é certo que a educação familiar – para o bem e para o mal – está na cara. Eu não me lembro de todas as palavras de apoio e gestos de carinho, mas é certo que sobrevivem nos meus gestos e palavras. É preciso saber de todos os personagens e acontecimentos de um livro para dizer que ele me formou, transformou, deformou?

A memória é uma zona feita de muitas zonas. Resumindo: a memória é uma zona.

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Não é que a quantidade de leitura não queira dizer nada, mas é que ela também não quer dizer tudo.

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Argumento: Shakespeare leu menos e fez o que fez. Seria ele ainda melhor se lesse o que hoje temos à disposição?

Contra-argumento: papo furado. Também produzimos nossos gênios. Não mistifique o passado.

ContraContra-argumento: você não respondeu minha pergunta.

CCC-argumento: isso não é argumento.

CCCC-argumento: bobo.

CCCCC-argumento: bobo é você.

CCCCCC-argumento: não, é você.

CCCCCCC-argumento: bobo é quem me chama, abre a porta e cai na lama.

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Procurar no Google o significado de tautologia.

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Diante de alunos – e não é hiperbólico dizer que são milhares deles ao longo dos anos em que dei aula –, sempre usei um discurso muito bem ajustado, diria até meio cheio de si e de suas certezas perigosas – afinal, quem lê não deveria duvidar mais das coisas? O curioso: eu acredito no discurso edificante, não acho que gastei parte da vida – minha e deles – mistificando o poder da leitura. Mas entre acreditar e essa crença ser verdadeira, ou completamente verdadeira, ou lisamente verdadeira, há barulhos e ranhuras possíveis, prováveis. É que a história não caminha em linha reta e a leitura não bate em todo mundo do mesmo jeito. Dos milhares de alunos que saem das escolas e universidades, haverá muitos que se tornam ótimos leitores e ótimas pessoas, assim como há muitos canalhas leitores, há as gentes boas semiletradas, há os patifes que não sabem o que é um livro.

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Pegue vários adjetivos, bons e ruins, para qualificar pessoas e coloque-os em uma coluna à direita da página. À esquerda, faça outra coluna com os níveis de leitura (excelente leitor, bom leitor, leitor mediano, não leitor). Ligue todos os adjetivos da coluna da esquerda a todos os da coluna da direita. Tudo é possível, tudo é encontrável.

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Sabe aquela história de que os livros não mudam o mundo, que quem muda o mundo são as pessoas e que os livros só mudam as pessoas? É o silogismo-piscadinha: olha pro leitor e fica perguntando ‘entendeu? entendeu?’. É um silogismo digno de nota, ou conversa sofista fiada pra boi dormir?

No contexto atual, que bom se os bois dormissem.

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Até um não leitor inteligente seria mais inteligente se lesse (ninho de vespa: definir inteligência).

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Há muitos leitores que, por causa da leitura, podem imbuir-se de altivez e se empenhar em mudar o mundo, enquanto outros, também por causa da leitura, podem pensar que é impossível mudá-lo e que, vamos e venhamos, o mundo não é grande coisa além de uma arena de angústias individuais e pequenas alegrias de serezinhos minúsculos, insignificantes e pretensiosos.

Entre os não leitores também há os transformadores e os acomodados, a leitura ajudaria muito aos transformadores, dando-lhes mais conhecimento, ideias, sensibilidade, e ajudaria os acomodados a envelhecer serenamente, conscientes de quão pequena, frágil e arrogante é a sua espécie.

Ou ajudaria a deprimir os que querem mudar o mundo mas veem a tarefa distante, e deprimir os acomodados, que receberiam via leitura o legado da nossa miséria®.

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Do idealismo coletivo à acomodação, da euforia à depressão, há leitura bipolar para todos.

Porque uma leitura não depende apenas do conteúdo e das linguagens de um livro, mas do conteúdo e das linguagens, manifestas ou não, do leitor.

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Conhece algum espécime? O leitor que lê muito e – em vez de pensar quanta identificação, quanto estranhamento, quanto desejo e quanto gozo, quanta forma de pensar diferente da minha – usa sua leitura para, com círculos de fumaça, baforar palavras do tipo “ainda não leu Kafka no original?”

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Outra tirada debaixo do tapete: ler qualquer coisa é muito melhor do que não ler nada. Afinal, a própria atividade mental de ler faz combinações de sinapses, ligações neuronais que estimulam regiões do cérebro despertadas apenas pela leitura. Tricô e vale-tudo não contam porque atingem outras regiões do cérebro (às vezes em cheio!), e não são a mesma coisa.

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Portanto, ao ler O Segredo, de Rhonda Byrne, e aprender que eu devo me concentrar e pedir para a energia do universo me conceder a graça de ganhar um milhão ou de conseguir abrir uma lata de atum sem cortar o dedo, isso é melhor do que não ler nada?

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Mas claro que é melhor. Se não ler isso, vai fazer o quê? Ligar a TV e assistir ao Big Brother? Só por ser leitura, O Segredo é melhor do que o BBB, esta grande arena de angústias prenhe de conflitos universais em que grandes exemplares da fauna humana debatem pensamentos, ações, hesitações, dúvidas que nos movem ou nos paralisam?

Ler nos faz identificar ironias. Mas nem eu sei se fui irônico. Vi-dizer que o BBB melhorou, né?

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Nesse mundo barulhento que nos convida para a dispersão, a leitura dá poder de concentração, é um modo de ensimesmamento nesse globo ruidoso. Seria uma forma de meditação? Mas a meditação acha que estamos cheios demais e quer esvaziar nossa mente, ao passo que a leitura acha que estamos muito vazios e quer nos encher de pensamentos.

Se lermos um livro sobre meditação, vamos nos encher de coisas que nos ensinam como nos esvaziar? Enfim, se esse poder meditabundo da leitura estiver ensinando a pessoa a se concentrar nas energias cósmicas para que elas materializem uma Ferrari na sua garagem, isso é melhor do que não ler nada?

Sem falar no preço da gasolina!

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Ah, deixa a pessoa lá, para de ser chato. Pelo menos ela não atrapalha. Está aí uma função da leitura: fazer a pessoa pelo menos não atrapalhar?

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Um leitor lê um livro. Ambos estão parados. Mas, entre as linhas estampadas nas páginas e o olho do leitor, parece haver um fio invisível que os liga. Abdução mútua. Seja O Segredo, seja Hamlet, o que exatamente está se passando é algo muito privado, “incrível”, “que coisa mais chata”, “nossa, eu sou bem assim”, “nunca pensei isso”, “sempre penso isso”. É que o livro terá mais ou menos a dizer conforme o que o leitor já carrega dentro. Se ninguém sabe direito se a existência precede a essência ou vice-versa, ou ainda se a galinha nasceu antes do ovo ou o contrário, eis um novo enigma para a filosofia Tostines: a pessoa vai pensar melhor se ler ou ler melhor se pensar?

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Eu havia falado de sofisma em algum lugar lá em cima.

Porque o do Tostines é fácil de responder, dir-me-ás tu. Basta discordar da Cecília Meireles dizendo que não é “ou isto ou aquilo”.

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Tenho 80 pares de sapato e 3 livros porque, todo mundo sabe, o livro é caro.

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“A literatura é a chave para um mundo mágico, encantado!”

“Zeus me livre. Tranque bem essa porta, então.”

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Ars longa, vita breve: a arte é longa, a vida é breve. Puxa, ninguém mais compra meus livros e eu ainda estou vivo. Há algo de podre no reino dos provérbios. Ou no dos meus livros.

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“Mas o que eu faço para o meu filho ler?”

Ora, é muito simples: tranque o menino no quarto com um cânone daqueles. Um pãozinho e um copo d’água são permitidos. Não se esqueça de, ao ir para a sala ligar a TV, colocar fones de ouvido, para não atrapalhar a leitura do garoto e nem deixar a novela ser perturbada pelos chutes na porta e pelos gritos do menino que, me desculpe, anda muito mimado. Não seria o caso de considerar um acompanhamento psiquiátrico?

Do italiano, canone = cânone | cannone = canhão

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Esse desejo pelo absoluto ainda vai nos levar aquém.

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Consideradas as convicções e seus demônios – seus dia-bolos –, acho que ler é bom.

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Mas livrai-nos do Mal.


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