A culpa é do menino | Jornal Plural
28 maio 2020 - 20h57

A culpa é do menino

Eu continuava a ler nos anos seguintes que o Brasil era um país em desenvolvimento, e ficava me perguntando quanto tempo faltava, imaginando se nós de fato nos distanciávamos dos subdesenvolvidos e nos aproximávamos do desenvolvidos

Deve ter sido lá pela quinta série: eu ouvi pela primeira vez que o Brasil era um país em desenvolvimento. Nosso país ficava no meio de uma escala em forma de pirâmide que hierarquizava os países do mundo pelos critérios de riqueza concentrada e distribuída, absoluta e relativa. O Brasil ali na meiuca, olhávamos para baixo e víamos os chamados países subdesenvolvidos, coitados, já recebiam um rótulo que, diferente do nosso, não expressava possibilidade de movimento. Carimbo: subdesenvolvido. O nosso “em desenvolvimento” dava a impressão de que bastava aos dias continuarem passando, rumávamos para ponta de cima, onde outro rótulo fechado – no entanto, bem mais chique – se escrevia: países desenvolvidos.

Ainda ouvi coisas sobre primeiro mundo e terceiro mundo. Tímido, nunca tive coragem de perguntar ao professor se havia segundo mundo, afinal entre o primeiro e o terceiro eu podia jurar que era para ter um segundo. Mas se eu estivesse errado, se eu perguntasse ao professor e ele fizesse cara de que hã, do que você está falando? E a turma toda risse de mim? O imaginário já ria de mim antes de qualquer risada da vida real, ele se agigantava em imensas gargalhadas fantasmáticas. E eu me calava. Eu era assim, e ainda carrego muito daquele menino que fui. Na verdade, o menino que fui continua sendo. O enorme e saudoso Fernando Brant, que escreveu a letra para a música e a voz divina de Milton Nascimento em “Bola de Meia, Bola de Gude”, que me perdoe, mas eu vou inverter a coisa: “Há um menino / há um moleque / morando sempre no meu coração / toda vez que o adulto balança / a culpa é tua, menino, moleque”. Isso me soou engraçado, não sei se vocês riram ou ficaram com pena do menino ou acharam uma sacanagem com a canção ou pensaram quem é esse zé ruela que vem discutir com o Fernando Brant. A culpa que eu coloquei ali é uma brincadeira, claro, mas me ajuda a tecer o raciocínio que eu pretendo fiar aqui. A estrofe original, muitos sabem, termina com “o menino vem pra me dar a mão”.

Porque o eu adulto é em grande parte o euzinho da infância, nascido como um pedacinho de carne compacta que não sobreviveria sozinho sem que tivesse as necessidades satisfeitas (alimentação, sobretudo) e as demandas atendidas (amor e atenção, principalmente). Não tendo as necessidades satisfeitas, o corpo morre. Não tendo as demandas atendidas, o corpo orgânico sobrevive, mas corre-se sério risco de não advir dali um sujeito de linguagem, que olha e se sente olhado, que tem no choro um grito transformado em invocação do outro, um chamado que precisa ser correspondido.

Em que pesem as controvérsias a respeito do termo desenvolver, que cheira a um certo positivismo que recende à necessidade de ordem para haver progresso, vou me ater à palavra em si, des-envolver, algo envolvido em si mesmo que vai se abrindo, saindo de si para encontrar o lado de fora, o mundo, o Outro, os outros. Um país em desenvolvimento seria um país não fechado em si, não acabado, em trabalho de contextura, movente e comovente, tateando objetos de desejo que nunca são o desejo em si. E por seguir sem nunca conseguir o desejo em si, permanece procurando, permanece em busca. O que para muitos é frustrante (então quer dizer que eu nunca vou sossegar?) é o que nos faz levantar de manhã sem ficarmos desapontados (o deprimido, sujeito sem desejos, abre os olhos todo o dia e se pergunta, decepcionado: de novo?).

Então, em desenvolvimento, para países ou para pessoas, significa que algo nasceu atomizado, enrolado em si mesmo, e começou a sair do casulo, a desabrochar, a esticar e espalhar o corpo, a linguagem. Subdesenvolvidos estão envolvidos e giram em falso no próprio eixo, se desenvolveram de modo insuficiente, não se des-envolveram dentro do que era esperado. Ficaram para trás, se continuarmos a usar essas metáforas de progresso, retrocesso, regresso. Já os desenvolvidos se desenvolveram, mas como não estão em desenvolvimento, parecem não desejar mais, bateram o nariz na linha de chegada e atingiram o auge.

Evidentemente, eu estou pensando ainda como o menino da quinta série, talvez com umas palavras a mais no vocabulário, mas dentro da mesma lógica. Claro que a coisa não funciona assim, mas era o que intuitivamente se pensava em mim – sem muitas palavras que vestissem essas ideias. Era uma intuição seminua de palavras.

Eu continuava a ler nos anos seguintes que o Brasil era um país em desenvolvimento, e ficava me perguntando quanto tempo faltava, imaginando se nós de fato nos distanciávamos dos subdesenvolvidos e nos aproximávamos do desenvolvidos, se já estávamos com a metade superior do corpo no sótão, onde ficava a elite, ou se tínhamos a metade inferior no porão, onde ficavam os pobres coitados.

Só bem mais tarde fui perceber – depois de descobrir a expressão Belíndia – que o Brasil é um desconjunto esquartejado que tem as partes do corpo espalhadas por todos os cômodos da casa, bem como fui perceber que, no nível individual e subjetivo, também não somos um organismo inteiriço e completo, muito menos intransitivo (intransigente já é outra história). Guardamos nossos inimigos dentro de nós também, aspectos infamiliares ou, como prefiro, aspectos de um estranho familiar que fala em nós e que mal sabemos de onde vem. De onde brotam alguns acessos de raiva? De onde umas invejas que nos envergonham? De onde uns medos por coisas que sabemos ser tolas? De onde umas angústias esparsas, sem objeto? É quase possessão demoníaca, diferente apenas porque não se trata de uma entidade exterior e independente do que somos. É parte de nós, um diabo, o diábolos grego, que divide, desune, desarmoniza o que consideramos ser um todo harmônico.

Quando vejo a situação em que o Brasil se meteu, com pacóvios sem precedentes ocupando os cargos mais altos do poder, acabo tendendo a culpar a minha geração, a olhar para as crianças de hoje e ter vontade de pedir desculpas, desculpem, crianças, a minha geração só construiu ruínas, só montou andaimes para arquitetar a destruição, queríamos testar os limites, forçar as fronteiras, rir como bobos alegres por saber que podíamos sempre mais e estamos destruindo tudo. Agora temos chimpanzés virando cambalhotas no meio da sala, celebrando a violência mais primordial enquanto alguns tentamos cultivar poesia, veja aqui a sutileza do poeta que faz a flor brotar do asfalto, numa clara alusão à esperança e à resistência da vida, e que traço fino que o artista imprime na tela, dividindo-a em partes simétricas enquanto caotiza as cores e texturas. E nisso a macropolítica e a micropolítica limpam a bunda com um naco do último livro, comem e bebem babando em cima da tela que lhes serve de mesa, rindo e dizendo que também sabem fazer arte, meu café caiu aqui, o sangue das minhas mãos pingou ali, vejam as manchas abstratas, num banquete bem macabro, mistura de maldade com burrice cujo resultado é o idiota com iniciativa. E nada pior do que idiotas com iniciativa.

Quando brinquei lá em cima, sugerindo que a culpa era do menino, o que estava em jogo? Estava em jogo o que, desde a vinda ao mundo, se inscreve em nós e nos provoca uma experiência, que pode ser enriquecedora ou empobrecedora, que pode ampliar nossos horizontes ou apequená-los. Experiência como aquilo que nos acontece e nos transforma. Se o adulto balança menos ou mais é porque as coisas que se inscreveram desde que nasceu forjaram nele uma fantasia, espécie de lente com a qual vê o mundo, vê o outro, e que pode ser acolhedora ou aterradora. As sensações estranhas e familiares que sentimos são rastilhos de uma pólvora há muito estocada em nós. Produzem suas fagulhas e explosões no presente, mas vêm de longe perseguindo as migalhas deixadas ao longo da vida do João e da Maria que um dia fomos e ainda carregamos em grande medida. Faz sentido eu colocar a culpa de tudo na geração a que pertenço? Não.

Lidamos, todos, com uma palavra fundamental: a herança.

O menino que fui existe ainda em mim e deixou sua herança naquilo que sou hoje, para o bem ou para o mal. Os meus pais, mais do que me proverem de um corpo biológico, deixam de herança, marcada em mim, a linguagem e, com ela, toda uma conformação do mundo. Meus pais tampouco foram pioneiros, são herdeiros também, de seus ancestrais e dos moleques dentro deles.

Podemos levar essa lógica a um corpo social, a um país? Não sei, mas especular é de graça: que outros brasis ficaram de herança para esse Brasil contemporâneo? Se, como sujeito, carrego a herança de meus antepassados e do menino que fui e que me habita, o Brasil atual tem inumeráveis camadas de herança, simultâneas, paradoxais, diacrônicas, sincrônicas (e anacrônicas) que desembocam no que somos hoje, uma mistura desenvolvida, subdesenvolvida, em desenvolvimento e – talvez seja o caso de criar nova categoria – em subdesenvolvimento. Demos alguma ré, descemos alguma ladeira – pra baixo todo santo ajuda? – no processo civilizatório e podemos dizer que somos também um país em subdesenvolvimento enquanto animais humanos se penduram nos lustres, peidam na mesa, gozam no Armani, mijam nos tapetes, cagam na rua, grunhem nas redes, rezam a um deus prêt-à-porter que autoriza a destruição das diferenças e a lógica do acúmulo. Como falar isso sem parecer elitista? Estou defendendo os ternos da Armani, os tapetes suntuosos, os ambientes assépticos? Não! Mas não façamos da barbárie o método civilizatório coletivo. Nossa herança como país tem fedor de escravidão com notas de extração de matéria-prima para grandes mercados, tem gosto de abolição com a criação instantânea de moradores de rua e favelas, junto com o sabor da música boa, dos (poucos) escritores fundamentais e realmente lidos, com uma natureza que pede o adjetivo exuberante, com o desmatamento que se aproveita dos mortos por uma pandemia e corre livre, sem controle e sem lei. Tem a textura dos abraços dos amigos e das chicotadas no lombo e tiros na cabeça, de execuções a queima-roupa, de provas plantadas, de hospício dirigido por perversos e psicopatas em surto, país feito ainda de educadores brilhantes e de tortura, de desigualdade, memes e hashtags, de escolas com mensalidade de 10 mil e de crianças sentadas na terra escrevendo com pontas de pedra lascada.

Pelo lado do sujeito, dá-se processo semelhante? Dentro da barriga, afeto, amor, drogas, comida orgânica? Quando bebê, mamãe estabeleceu contato terno e materno, olhou nos olhos, amamentou olhando o celular, atendeu necessidades e demandas, tinha pouco leite, abandonou, quem abandonou? O pai abandonou? Mãe não desgrudava do bebê? Mãe sem tempo para o bebê? Terceirizou? Terceirizou para quem, para a creche do centro comunitária, para a babá de uniforme? Bebê fez manha, apanhava de cinta? Uma bituca de cigarro apagada no braço pra ver se parava de chorar? Sofreu abuso? Ouviu risada gostosa depois de fazer birra exigindo chocolate antes do almoço? E ganhou o chocolate? Ganhou chantageando? Ainda fez os pais se sentirem culpados? Ganhou noção de limite ou limitou-se a ser um sem-noção?

É com as variantes herdadas – de que elenquei pouquíssimos exemplos – que nós temos de lidar. Moleza, né?

Já conhecemos a pergunta manjada: que mundo você vai deixar para o seu filho? Ela ganhou reação retórica: que filho você vai deixar para o mundo? O que está lá fora incide na subjetividade, no que está dentro do sujeito; o que está dentro incide na objetividade, no que está lá fora, no mundo dos objetos. Nesse trajeto de tráfego intenso e cambiante, com seguidas mudanças de papéis, estamos presos?

***

Esse texto já avança pela madrugada e muitos leitores foram embora. Restam alguns poucos nesse bar em fim de festa, algumas cadeiras estão sendo colocadas sobre as mesas. No entanto, ainda posso ouvir um bêbado sonolento gritando para a banda: toca Raul!

Em “Judas”, Raul Seixas cria a figura de um Judas indignado, pois se a traição dele já estava profetizada e escrita, que culpa tinha ele?

Podemos aplicar esse raciocínio à herança? Podemos – agora dando uma de Pilatos – lavar as mãos? Juntando Judas e Pilatos, é lícito formar o seguinte raciocínio: “lavo minhas mãos, pois, com essa herança, tudo já está escrito, nós nunca teremos solução, nem como sujeitos, nem como país”.

E eu poderia terminar aqui.

No entanto, algum dever estranho familiar me faz querer acenar para uma trilha possível dentre tantas fechadas. Mesmo que eu não seja um otimista.

Não é uma trilha já aberta, está cheia de mato e nada garante que chegará a algum lugar.

Todo esse monte de palavra aí em cima serviu para desembocar na pergunta:

O que fazer com nossa herança?

É possível fazer algo diferente do que recebemos? É possível parar de culpar a mãe pelas desventuras da vida? Dá para tirar das costas do pai o fato de eu sentir e pensar isso ou aquilo? De agir assim ou assado? Das heranças malditas que vêm na bagagem de quem nasce no Brasil hoje, é possível fazer algo? Algo diferente?

Goethe, no seu Fausto, traz a seguinte máxima: “aquilo que herdaste dos teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”. Freud usou isso em seu Compêndio de psicanálise. Também o psicanalista italiano Massimo Recalcati, em seu Complexo de Telêmaco – a ser lançado em breve no Brasil –, dedica boa parte do livro a falar de herança e de duas posturas que considera problemáticas: a primeira é atribuir à herança um caráter de imutabilidade, algo presente nas posturas mais conservadoras, apegadas a um passado e que se veem com a missão de reproduzir o que foi recebido. Algo como: o mundo é assim, então é assim que tem de ser. Do polo oposto, há quem renegue a herança, numa iconoclastia que não leva em conta o processo histórico, que briga com o recebido querendo inutilmente extirpá-lo de si. Só que ninguém se faz sozinho. O self-made man é mentira das mais grossas.

Somos herdeiros, sim. Não precisamos reproduzir a herança, não. Temos uma dívida simbólica com o que herdamos, a herança é sempre um movimento de travessia, que sai de um porto para chegar a outros provisórios, que sabe de onde veio, mas que não fica lá parada. Diz Recalcati:

Não é suficiente receber passivamente uma herança já constituída, mas é necessário um movimento subjetivo de retomada, de subjetivação do débito (…). Este movimento é o contrário de uma regressão nostálgica. A “reconquista” do herdar significa a subversão da replicação passiva do que já foi. Herança não é clonagem, não é nunca reprodução passiva de um modelo ideal decalcado do passado.

No início da barbárie que tomou conta do país, costumávamos transformar em linguagem a irrupção dos absurdos, primeiro com um discreto “nossa”. Depois com “mas o que é isso?”, depois com um “não é possível”, aumentando o tom para um “puta que pariu”, depois partindo para os adjetivos, que visitaram toda a escala diatônica com direito a tons, semitons e quarto de tons, do “torpe” ao “vil” ao “palhaço” ao “fascista”, ao “debiloide” ao “genocida” ao “louco” até chegarmos ao estágio de hoje, em que nos vemos sem palavras. Não há mais palavras capazes de nos socorrer e fazer escoar parte do gozo indignado. A psicanálise de Jacques Lacan vai chamar de real a irrupção de um evento cuja simbolização é impossível, um furo onde a linguagem não consegue habitar. Estamos diante da irrupção do real? Contornamos esse furo com palavras até as palavras se esgotarem, caírem no furo-abismo, buraco negro do real?

Talvez também por isso não devamos desconhecer o passado e negar a herança. Nomear, tentar simbolizar os traumas de eventos e processos que nos formaram como sujeitos e como nação me parece fundamental para, a partir daí, não repetir burrices e desumanidades. Nem conservar estruturas perversas, nem as negar. Dar nomes às arbitrariedades, identificá-las, conhecê-las. Para depois separar-se delas, abrir distância e atribuir sentidos novos aos significantes que nos escravizam com seu sentido único e fechado.

Difícil ficar vasculhando a merda toda atrás de um cheiro fresco. Não gostamos de ver desastres na estrada mas diminuímos a velocidade para dar uma olhadinha, somos a criança que tapa os olhos para não ver a cena forte no filme de terror, mas deixa os dedinhos abertos para olhar.

Encarar absurdos, encher-se deles no dia a dia pode ter algum sentido masoquista, mas também pode ser um modo de se alimentar deles para nunca mais esquecer a herança em construção, deixada para que nós e as gerações futuras não esqueçamos, saibamos nomear, falar sobre ela a fim de fazer dessa aridez toda brotar alguma vida diferente de urros e zurros.

Pensando bem, a flor que fura o asfalto faz tanto sentido.

Últimas Notícias