Cartão vermelho (longe do campo) | Jornal Plural
27 jun 2019 - 6h00

Cartão vermelho (longe do campo)

Francisco Camargo fala sobre o preconceito contra o futebol feminino

– Não foi fácil…

O breve comentário de um cidadão, ao deixar o bar onde acompanhou o jogo Brasil x França, domingo, pela Copa do Mundo de futebol feminino, não se referia ao comportamento da seleção, mas ao de alguns outros espectadores que lotaram o boteco.

De fato, o que não foi fácil foi ouvir os comentários machistas. Um inclusive não é de hoje. E pipoca sempre que as jogadoras e a arbitragem adentram ao gramado:

– Xi! Futebol feminino. Vamos ter de aguentar 22 mulheres feias correndo em campo…

E não faltou nem o canalha, canalha, canalha: “Viu? lugar de mulher é na cozinha”.

Como lembrou uma ex-jogadora, Marisa, capitã da primeira seleção brasileira, em 1988, o preconceito vinha até dos pais, “que não queriam que mulheres jogassem futebol”. O simples fato de jogar futebol já era malvisto. As coisas foram mudando, mas o preconceito ainda existe. E, aí, deu uma de bico na canela dos canalhas, canalhas, canalhas:

– Há homens que não conseguem aceitar que há mulheres que jogam melhor do que eles…

“Incompatível com a natureza feminina”?

Em 1941, o futebol feminino chegou a ser proibido no Brasil por força de um decreto do então presidente Getúlio Vargas, que vetava às mulheres “a prática de desportos incompatíveis com a natureza feminina”. E demorou 38 anos para ser revogado, ou seja, perdurou até 1979. Logo depois, alguns clubes do Rio e de São Paulo começaram a formar equipes femininas para torneios amadores. Ou seja, de 1941 a 1979, a mulher que fosse vista jogando futebol poderia ir parar na cadeia.

“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o CND baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”, determinava o Decreto-Lei 3.199 do Conselho Nacional de Desportos (CND) que proibiu, entre outras modalidades, a prática do futebol pelas mulheres.

“Passatempo perigoso nocivo”

E um jornal carioca, o Diário de Notícias Esportivo, chegou a comemorar, em fevereiro de 1941: “Afirma-se que a 2ª delegacia auxiliar está decidida a acabar de vez com o futebol feminino… Para isso, serão fechados todos os clubes dessa especialidade. Está aí uma notícia magnífica. O futebol feminino, como esporte, é desaconselhável e, como passatempo, perigoso e nocivo”.

A justificativa para a proibição teve até embasamento científico, segundo Silvana Goellner, pesquisadora de gênero e educação física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Teve um parecer médico na época que colocava as mulheres no espaço da fragilidade e sobre tudo da maternidade – a missão de toda a mulher na época era ser a mãe do futuro da pátria”, conforme declarou em entrevista a Renata Mendonça, da BBC Brasil, em matéria publicada no dia 23 de outubro de 2017.

PS – sobre texto anterior, a respeito dos gentílicos, um leitor matou a charada: quem nasce em Jijoca de Jericoacoara, Ceará, é jijoquense. E, em Nova Iorque, Maranhão, nova-iorquense ou nova-iorquino.

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