Fagner Zadra: Uma discordância entre bandidos | Jornal Plural
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26 jun 2019 - 1h00

Fagner Zadra: Uma discordância entre bandidos

Fagner Zadra descreve uma marcante característica do ser humano: discordar do outro pelo simples fato da discordância

Sabemos que o ser humano tem características específicas que o difere dos outros animais, mas uma delas sempre me chamou a atenção, e ao pesquisar não encontrei nenhuma referencia científica sobre outros animais fazendo isso, que é discordar um do outro pelo simples fato da discordância, ou seja, mesmo sabendo que não tem razão, insiste no conflito pelo puro prazer de ganhar uma discussão. Mas Fagner, você nunca fez isso? É lógico que sim! Não me eximo disso, até porque me considero um ser humano e já fui quase casado. Mesmo já tendo sido chamado de muita coisa, acredito que as outras pessoas também me consideram um ser humano, pelo menos aqui no Brasil e é por isso que não vou para a China, pois lá talvez me vejam diferente. Na China eles comem qualquer animal que se rasteje para se locomover, tipo eu sem cadeira de rodas. E eu não quero ser comido por chinês nenhum e de nenhuma forma. Discordo disso, mesmo se me derem um pastel.

Três bandidos roubaram um banco, mas um deles sumiu com o dinheiro e foi caçado pelos outros dois ladrões, que o encontraram, o levaram para um galpão abandonado, o amarraram e estavam o torturando para que este entregasse o esconderijo dos milhões saqueados.

– Onde está o dinheiro? (Pow! Plaft!)

O mais fortão deu um soco e um tapa na cara do amarrado. O outro era careca e tinha esse apelido.

– Pode me bater, jamais vou entregar o local do esconderijo.

– Você não tem alternativa, fala ou vamos te torturar até você falar.

– Pode bater, não vou falar!

– Foi você que pediu! (Plaft! Pow! Pow! Plaft!)

– Bata mais, isso é pouco!!!

– Careca, o ferro já está quente?

– Sim, olha aqui, tá até vermelho, quase derretendo. Vai falar ou quer ser queimado?

– Pode queimar, eu sempre quis ser marcado com ferro quente, igual a vaca que é a tua mãe! Hahahaha

Queimaram ele com o ferro quente, e quanto mais o fortão e o Careca batiam e queimavam, o bandido amarrado gargalhava, pedia mais e dizia que não iria falar nada. E foi assim por horas até eles resolverem mudar de estratégia.

– Cara, acho que vamos ter que piorar as coisas para você. Careca, pega a minha maleta de tortura.

– Como assim, não sabia que você tinha uma maleta de tortura.

– Sim, comprei na darkweb pra usar numa atendente de telemarketing da operadora que não para de me ligar. É aquela ali de couro, a marrom.

O ladrão amarrado, todo ensanguentado ria de gargalhar.

– Hahahaha isso aí, me torturem! Me torturem, porque não vou falar nada!!!

– Tá aqui. O que vamos usar?

– Pega as agulhas

– Agulha? O que você vai costurar? Cara, agora não é hora de…

– Mew, vou costurar é a tua boca! Imbecil, a agulha é pra enfiar embaixo das unhas dele.

– Ah tá, mas isso não é demais?

– Pode enfiar, não vou falar absolutamente nada.

– Fica quieto aí! E o que você sugere então, Careca?

– E se a gente pendurar ele lá em cima na beirada do telhado? Sempre funciona.

– Não dá, tenho labirintite. Já sei, a gente pode quebrar as pernas dele com um taco de bets.

– Mas a gente não tem um taco de bets. O que tem aí nessa tua maleta?

– Ah, só o básico para tortura. Tem agulha para enfiar embaixo das unhas, alicate para arrancar os dentes, martelo para quebrar os dedos, bisturi, adaga, chicote, ácido para queimar os olhos, aparelho de choque, um leptop com músicas da Banda Calypso, também com uma pornochanchada da Regina Casé e uma palestra de 5 horas com o Olavo de Carvalho.

– Cara, você é um lunático desumano, Olavo de Carvalho?

– Sim, completinho, explicando terraplanismo e tudo o mais, mas só uso quando as outras coisas não funcionam. Geralmente o pessoal desiste e se entrega antes.

– Que atrocidade! Não, não, vamos só queimar os olhos dele com ácido!

– Pode queimar, não vou falar!!! Queima! Queima!

– Tá duvidando? A gente te queima mesmo hein! Careca, vamos usar o martelo, disse o fortão.

– Ah cara, não gosto disso, vamos arrancar os dentes dele com o alicate.

– Porra Careca, porque você nunca concorda comigo?

– É você que não concorda, que criancice, vamos usar as agulhas então.

– Não, que tal cortar e decepar os dedos com a adaga?

– Viu só? Até agora há pouco você queria a agulha, agora só porque eu quero, você não quer mais!

– Pessoal, porque vocês não me furam com a agulha e também não me arrancam os dentes com o alicate? Depois podem até me queimar os olhos com ácido, já que não vou falar mesmo! E podem começar com choque nos mamilos e nos testículos! Hahahaha

– Cara, você está duvidando que a gente vai fazer isso com você?

– Não, não, tenho certeza.

– Então você é o que, louco?

– Não, sou masoquista! Agora por favor, parem de discutir igual crianças e peguem logo aquele alicate que eu já tô ficando excitado!

 

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