A lista sem fim | Plural
22 mar 2019 - 9h41

A lista sem fim

Felippe Anibal fala de uma pilha que parece nunca diminuir: a dos livros a ler

A lista era tão extensa, tão extensa, que eu deixei de atualizá-la já há alguns anos. Não sou sequer capaz de apontar com exatidão onde ela se encontra. Sei que está em algum arquivo digital, perdido entre os gigabites do meu antigo notebook, em que raramente toco. Talvez eu a tenha deixado ali, inconscientemente, como quem oculta um segredo irrevelável. Muito de vez em quando e às escondidas, procuro-a sorrateiramente, clico duas vezes sobre o iconezinho, fazendo se materializar na tela diante de mim o motivo de uma das minhas vergonhas obtusas: o rol de livros obrigatórios que nunca li. Conforme faço o cursor avançar sobre as linhas que elencam os títulos – que se contam às centenas –, sou acometido de uma sensação de culpa e da certeza de que não passo de uma fraude. É em vão. Trata-se de uma batalha perdida, senhoras e senhores.

Lembrei-me da lista por causa de Truman Capote. Confesso, aqui, uma das minhas misérias pessoais: nunca li A sangue frio. Há um bom tempo, no entanto, venho disposto a corrigir essa falha de caráter e tenho procurado pelo título feito um perdigueiro. Farto de, sem o menor sucesso, zanzar por livrarias e casas do ramo, passei a procurar um exemplar pela internet. Algumas semanas atrás, um site me apontava que havia um volume dando sopa em um sebo perto da catedral. Fui direto ao balconista e, sem sequer desejar-lhe “boa tarde”, já fui perguntando pelo famigerado.

“Xi, moço! Você ‘tá sem sorte. O A sangue frio’ foi vendido hoje, no fim da manhã”.

Até tive ganas de praguejar feito um excomungado, mas me resignei, em boa medida, por causa de um porém: ainda que eu tivesse voltado triunfante, com o exemplar debaixo do braço, sabe deus quando eu conseguiria encaixar a leitura no meu cotidiano bagunçado, que transcorre aos atropelos. Assim que cheguei em casa, isso se tornou mais evidente. Em cada cômodo, tropeço neles, os livros que comecei a ler, mas que jazem pela metade, com um marca-páginas fincado em suas entranhas. É como se reivindicassem minha atenção ou se quisessem expor o meu fracasso a quem quer que apareça pra um café.

No braço do sofá, ao lado de uma resma de páginas por revisar, está O nosso reino”, de Valter Hugo Mãe. Salvo engano, interrompi a leitura no ponto em que Carlos morre. Gosto das observações do protagonista, que tem um quê de santo. No meu quarto, sobre a banqueta que faz as vezes de criado-mudo, estão duas releituras (Fernando Pessoa e Febeapá”, do Ponte Preta – que soa atual ao Brasil de agora, diga-se), um exemplar de crônicas de boteco, do Aldir Blanc, e uma coletânea de textos imbatíveis de García Márquez. No gabinete do banheiro, permanece um livreto de Manoel de Barros.

Nem só de papel vive um leitor em pecado. Desde o ano passado, aderi a mais uma “modernidade” e passei a usar um Kindle para as leituras em que sacolejo no ônibus, espremido, a caminho do trabalho. Na telinha, vinha apegado a Por quem os sinos dobram” (Hemingway), mas me vi obrigado a interromper temporariamente a leitura já no finzinho, em que Robert Jordan, enfim, está prestes a explodir a ponte. Tudo por culpa de Ana Terra” (Érico Veríssimo), que encontrei na Tuboteca, em uma edição velhinha. Tem ainda o Honra teu pai” (Gay Talese), que desponta na pilha da escrivaninha, com a trajetória da família Bonano.

Na estante da sala, ainda aguardam pacientemente a sua vez a biografia do Chaplin, os dois volumes de Os miseráveis (Victor Hugo) e A hora da estrela (Clarice Lispector). Ainda assim, no domingo retrasado fui à feirinha do Largo e, num arroubo, arrematei uma edição de capa dura e cheirando a traça de Os trabalhadores do mar (Victor Hugo), por módicos dez reais. Só não trouxe um Jorge Amado, porque me contive. (E olhe que o vendedor tem bons argumentos: “Na dúvida, leve mais de um”, diz).

Vez ou outra, dou com a máxima atribuída ao argentino Jorge Luis Borges, para quem o paraíso seria uma biblioteca cheia de livros. Em tempos de redes sociais, achei por bem checar. No fim das contas, não é que a frase é dele mesmo? Está em “Poema de los dones”: “Lento en mi sombra, la penumbra hueca/ Exploro con el báculo indeciso,/ Yo, que me figuraba el Paraíso/ Bajo la especie de una biblioteca”. Fiquei matutando. Com os volumes todos a me espreitar da estante, pensei na planilha dos “não lidos”, que só faz aumentar, ainda que mentalmente. Nunca a vencerei. Talvez o paraíso até possa ser uma biblioteca, mas desde que tenhamos, de fato, toda a eternidade para ler. Porque a lista, Borges, a lista não tem fim.

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