21 jan 2022 - 10h00

Elena Ferrante – Dias de abandono

Você se apaixonou por outra mulher?

Por conta do lançamento de A filha perdida, o filme,  talvez fosse interessante voltar os olhos novamente para Elena Ferrante. Eu começaria a leitura dela não pela tetralogia famosa, que engloba A amiga genial, História do novo nome, História de quem vai e quem fica e História da menina perdida. Eu começaria por Dias de abandono. Depois iria para A vida mentirosa dos adultos. O motivo nem é a qualidade dessas obras e sim algo mais terra: o fato de que Ferrante não é exatamente uma unanimidade. Caso você decida começar por uma tetralogia, pode cansar-se antes de descobrir coisas incríveis sobre a autora, que vão bem além do mistério que cerca sua pessoa.

Já me perguntaram várias vezes se acredito numa voz feminina na literatura. Eu acredito em tanta coisa e não acredito em tanta coisa.

Mas a pergunta que me fazem/fizeram é difícil de responder. Não é como “você acredita em deus?” tampouco “você gosta de pizza?”.

O que seria uma voz feminina? Se a pergunta investe na ideia de que existe uma voz feminina e a tem por certeza, minha resposta seria irrelevante. Se a pergunta investiga lá no interior do meu eu se acredito na existência de uma voz feminina, talvez eu possa vasculhar os baixos fundos, mergulhar nos meus baús de memória e tentar uma resposta, que certamente não seria nem “sim” nem “não”. Não sei se aprecio o peremptório.

Elena Ferrante me trouxe essas indagações todas e sou muito grato à escrita dela por isso. Ela está lado a lado com outras escritoras que discutem a situação da mulher e que são admiráveis.

Uma voz feminina seria a voz de uma mulher? (Safo?) Seria a voz de uma mulher na literatura, feita por um homem ou por uma mulher? (Bovary? Ou aquela amante do chinês de Duras?) A voz de uma escritora mulher? (Clarice? Yourcenar? Hilst?) Seria um modo de escrever a literatura, que englobasse as mulheres, e isso seria por gênero, por orientação sexual, por identidade? Seria uma voz de algum tempo em específico? (Murasaki? Hildegarda? Brontë?)

Elena Ferrante me trouxe essas indagações todas e sou muito grato à escrita dela por isso. Ela está lado a lado com outras escritoras que discutem a situação da mulher e que são admiráveis, como Ludmila Ulitskaya, Paulina Chiziane e Tatiana Tjbuleac, entre tantas outras.

Há vários modos de entendermos a “voz” feminina um texto, mas desde que tal voz não seja uma reprimenda, uma diminuição, uma forma perniciosa de apontar. A voz pode ser, sim, cultural. Muito provavelmente na corte de Sei Shonagon não havia homens que escreviam como ela, do mesmo modo que na corte de Augusto talvez nenhuma mulher escrevesse como Ovídio. (Mas será? O que nos garante?)

Várias situações me ocorrem, antes de discutir o indiscutível: a) que as mulheres invariavelmente foram segregadas na História da Literatura e ainda o são; b) que muitas usaram pseudônimo; c) que há maravilhosas personagens mulheres feitas por homens; d) e fantásticos personagens homens imaginados por mulheres; e) que muitas vezes tentamos o impossível e a classificação não fica apenas tonta — fica perigosa; f) Que o meio ainda segrega as mulheres até mesmo quando lança “uma mulher” escritora ou quando um prêmio qualquer premia “uma mulher desta vez”. Mas pensar na possibilidade de questões culturais atravessarem a voz feminina não é de todo mal. Mas a discussão vai acabar quando acabar a humanidade, creio, infelizmente.

Paulina Chiziane.

Há uma calmaria perigosa na escrita dessa pessoa chamada Elena Ferrante. Como em certos mitos orientais em que a mulher é “aquela que leva pela mão”, aqui temos isso; alguém nos leva pela mão para ver as coisas — e os objetos, as ruas, as pessoas, as ações, todas têm vida. Numa primeira leitura, a escrita dessa Ferrante é simples e entendo por simples uma escrita que não busca na língua suas possibilidades infinitas de conjugação e encontros sonoro-semântico-discursivos (penso aqui cá com meus botões em duas paixões minhas: Danilo Kis e Sebald), mas não. Eu me enganei. A gente se engana. Erra a rua, erra o sal, erra até as amizades — e talvez a vida seja ela mesma uma errança contínua. Ferrante é perigosa no seu canto. Intercepta nossos interesses, enumera-os, mostra a montanha mas quer que olhemos para a franja da nossa testa e o modo como ela cai sobre os olhos. Para ver a montanha, afastemos a franja, portanto. Ela dá à palavra o movimento que a palavra precisa ter e isso é muito preciso na escrita dessa pessoa. Nada é casual ou apenas constrói um cenário. Então, o vaso não é vaso. Assim, sua escrita corre ao sabor de uma pena esperta, às vezes terna, às vezes cruel, às vezes cômica, às vezes tudo isso junto porque basta pensar numa crise de fúria para ver que tudo isso caminha junto, como numa fotografia da qual queremos recortar a pessoa que está justamente no meio. Sua escrita, se não busca o exótico, busca o fragmento, quando quer, pequeno, e os grandes rios, quando deseja, caudalosos. Assim, fica ao sabor das situações e quando vemos já fomos fisgados pelo pequeno e pelo grande.

E por isso eu começaria por Dias de abandono. Quanto ao filme que está provocando as maiores discussões nessa temporada, a diretora Meggie Gyllenhaal fez uma adaptação incrível, em que calmaria e violência dividem o espaço e enganam, como a escrita (supostamente) simples de Ferrante.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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