22 jan 2022 - 8h00

A presença da arte

“Ouvir música em um teatro muda o silêncio ao nosso redor”

Ensaiei começar este texto por todo um dia. É difícil perceber que o sentimento de renovação que os começos de ano costumam me trazer, neste ano durou muito pouco. 2021 começou com a vacinação, isso reacendeu a possibilidade de uma existência artística que foi nula em 2020. O que não contávamos é que em 2022 teríamos um novo aumento nos casos de Covid e, no caso de Curitiba, isso veio somado a um estado epidêmico de gripe.

Agora que as pessoas voltaram a se permitir pequenas vivências, como idas ao teatro, ao cinema, a museus, a concertos e shows, parece que estamos ameaçados, novamente, a perder, não só um valioso entretenimento, mas um respiro em meio ao caos. O setor artístico é o primeiro a parar e o último a voltar. Com isso, nós, artistas e apreciadores de arte, sentimos um desamparo. Mas fazemos o que está ao nosso alcance.

Durante a pandemia assisti uma infinidade de transmissões, shows e concertos. Lives foram muito importantes para nos sentirmos acalentados de alguma forma. Houve até uma aproximação digital dos artistas com seus públicos. Vivenciamos coletivamente uma presença ausente. Mas, por melhor que seja a intenção de se transmitir um espetáculo, presenciar a arte como um evento é completamente diferente.

O setor artístico é o primeiro a parar e o último a voltar. Com isso, nós, artistas e apreciadores de arte, sentimos um desamparo. Mas fazemos o que está ao nosso alcance.

Eu me lembro, com uma riqueza de detalhes considerável, da primeira vez que assisti a um concerto. Na verdade, era um balé com orquestra acompanhando ao vivo. Talvez por isso, me lembre ainda mais. Eu tinha 8 anos e, num domingo pela manhã, minha mãe me levou ao teatro para assistir o balé do Guaíra e a Sinfônica do Paraná. Lembro de acordar cedo, de pôr uma roupa de passeio, de achar longe o caminho e enorme o teatro. Lembro também do cheiro do estofamento bordô e dos degraus compridos. E eu ainda nem falei de nada do que assisti.

Teatro Guaíra.

Prestigiar arte ao vivo é um evento marcante da vida. O meu encantamento de criança, por ter assistido um balé com uma orquestra, está comigo até hoje. Isso é tão marcante em minha vida que o repertório sinfônico que mais tenho desejo de trabalhar é o de balé. E não sei se isso é coincidência ou construção, mas é o que é.

Ir ao encontro da arte é muito diferente de vê-la por uma tela, ou ouvi-la por um fone de ouvido. A potência de fruição é muito distinta quando estamos em situação artística. Nossa sociedade transformou a arte em algo distinto de nossas vidas, algo admirável e arrebatador. Estar em si disposto a apreciar arte já é muito, mas se colocar em um ambiente onde todos os outros que estão contigo também estão, torna essa vivência encantadora.

O meu encantamento de criança, por ter assistido um balé com uma orquestra, está comigo até hoje. Isso é tão marcante em minha vida que o repertório sinfônico que mais tenho desejo de trabalhar é o de balé.

Ouvir música em um teatro muda o silêncio ao nosso redor. Assistir uma peça ao vivo muda como vemos o mundo. Ir ao cinema e ser arrebatado por uma imagem e som maiores que nós, nos redimensiona. Fazer arte é um jeito de permanecer vivo na memória de outrem.

Que 2022 nos devolva logo esses respiros artísticos. Que tenhamos consciência de que vacinados podemos nos abrir, mas ainda estamos em risco. E que a arte siga viva em nós e nas arquiteturas que dedicamos a sua moradia.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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