11 jun 2021 - 7h00

Pura politicagem

Estamos diante de uma crise real com poucas saídas dado o ponto onde chegamos. As narrativas enviesadas politicamente e os interesses egoístas tornam o que já era difícil quase impossível

Eu só joguei comida fora uma única vez na minha vida. Fiquei indignado, estragou meu dia. Quase nada me irrita mais do que pedir comida e ela vir ruim, mal feita. É ainda pior quando é uma comida simples ou o preço é alto. Pois bem, neste meu fatídico lanche, eram os dois. Estava em Sydney, na Austrália, e era um club sandwich. Como alguém consegue estragar um sanduíche tão simples? Peito de frango, bacon, ovo, alface, picles e maionese! É só colocar um em cima do outro e voilá, tá pronto! Pois bem, conseguiram e eu o joguei fora, não consegui terminar de comer!

Da gastronomia Australiana, depois de alguns meses passados no país por conta de um trabalho, não trouxe nenhuma influência. Ao contrário, só me serviu para mostrar que o nosso arroz com feijão é muito subvalorizado. Apesar de experiências gastronômicas sofríveis em um país de cultura gastronômica quase inexistente, a Austrália tem um dos setores mais valorizados que eu já vi. Seja pela gastronomia importada de outros países, e essa sim de ótima qualidade, seja pelo apreço que o país tem por seus trabalhadores. O governo do país dos cangurus entende que a gastronomia é parte importante do que eles chamam de indústria da hospitalidade (Hospitality – em tradução livre) que abrange também bares, hotéis, turismo etc. Algo que vale a pena não ser só mantido como protegido, para fortalecer a sua marca turística que lhe confere muitas visitas, apesar de tão distante do resto do mundo todo.

O país está sendo destaque mundial por ter sido bem sucedido no controle da pandemia do novo coronavírus, apesar de ter vacinado muito menos que nós brasileiros. De acordo com o site Our World in Data, no dia 5 de junho, a Austrália havia vacinado, com pelo menos uma dose do imunizante, 16% da sua população e o Brasil quase 23%. Mesmo assim, a Austrália contava com 910 mortes por Covid desde o começo da pandemia. Já o Brasil, vergonhosas e sinistras, quase 500 mil. Ajustado às populações, a Austrália teria tido aproximadamente 60 mil mortes se fosse tão populosa quanto o Brasil.

A ex-colônia britânica fez um dos lockdowns mais severos de todo o mundo, não deixando que pessoas entrassem ou saíssem do país, de seus estados e, em alguns casos, até de suas cidades. Paralelo a isso, criou um aplicativo para rastrear pessoas infectadas e com quem elas haviam entrado em contato, além de disseminar informações governamentais oficiais uniformes para toda a sua população. Testou em massa e ofereceu toda a sorte de subsídio para as empresas fecharem suas portas e manterem seus funcionários por meio de programas como o Job Keeper: dinheiro entregue às empresas para subsidiar salários. Também dobrou o dinheiro dos auxílios desempregos e, como se não bastasse, de maneira a estimular a economia, autorizou a cada australiano, afetado pela pandemia ou não, sacar AUS$ 10 mil de seu Superannuation, algo nos moldes do nosso FGTS, para gastar como quisesse. O resultado é um país quase livre de casos de Covid, uma população em sua maioria já segura para fazer o que bem entender e uma economia interna quase intacta.

Carreata contra bandeira vermelha em Curitiba. Foto: ACP.

Não foi só a Austrália que agiu dessa maneira para proteger seus cidadãos. Outros países também e isso deveria servir de exemplo suficiente para que o empresariado brasileiro pudesse rever seus posicionamentos. Na contramão desses bons exemplos, o que vimos na semana que passou foi um completo contrassenso à vida, aos contribuintes e aos pilares básicos e fundantes de cidadania. A Associação Comercial do Paraná (ACP), que reiteradas vezes em seu website diz não acreditar na eficácia das medidas de restrição de circulação, por meio de seu presidente Camilo Turmina, protagonizou uma live que culminou com a convocação para uma carreata. Entre outras lideranças na reunião digital contra o lockdown estava presente Luciano Hang, dono da rede Havan, notório aliado do presidente Bolsonaro. Num clima de devemos abrir a qualquer custo, Turmina pediu a renúncia do prefeito de Curitiba e questionou em outra oportunidade o porquê de Curitiba ter restrições de circulação quando é a população da região metropolitana que ocupa os leitos da capital.

Quem também engrossa o coro dos insatisfeitos é a Abrasel-PR, que em suas redes sociais anda postando vídeos contra as medidas restritivas em um caso de nanomemória e adaptação tupiniquim à desastrosa campanha “Milão não para” do começo da pandemia na Itália. O presidente da associação, Nelson Goulart, em texto distribuído por meio de uma rede social, declara: “Estamos todos, agora, diante de decisão difícil: escolhemos ficar em casa e falir, levando ao desespero todos que nos cercam, filhos, funcionários etc e a nós mesmos ou escolhemos tentar sobreviver economicamente, respeitando as regras do decreto do estado e as determinações dos protocolos de segurança contra a Covid19 da prefeitura, correndo o risco de receber uma multa? Aqui não se trata de desobediência, mas de um direito que se estabelece mesmo antes de qualquer regramento jurídico existir, o direito de resistir a mandamento divorciado da JUSTIÇA, divorciado do equilíbrio. Difícil escolha que nos impõe a intransigência e a segregação interesseira da política (porque ciência e competência não é – fosse, teríamos o mesmo decreto para toda a região metropolitana, no mínimo, e já estaríamos bem adiantados na vacinação)”.

O fato é que o setor de gastronomia sofre e sofre muito. A Bandeira Vermelha recém decretada empurra mais ainda os empreendimentos ladeira abaixo e após 15 meses de sacrifícios hercúleos, muitos sequer têm forças ou condições de manterem-se abertos. Porém, me parece interessante que os empresários paranaenses estejam esquecendo das atribuições e esferas de poder da administração pública. É fato também que Rafael Greca não seja afeito ao diálogo, e, além disso, continue enfurecendo bares e restaurantes com seus fiascos, porém, a coordenação de saúde do estado cabe ao governo do estado, comandado por Ratinho Jr., e a nossa crise de imunização é de total responsabilidade do governo federal de Jair Bolsonaro. Prefiro acreditar que a turma do bonequinho patriota tenha se esquecido desses detalhes ao invés de convenientemente não confrontar os responsáveis, talvez por conta do núcleo ideológico e partidário que possa ser compartilhado entre eles.

Já o prefeito de Curitiba continua recebendo muitas críticas para justificar suas ações, ou a falta delas. Ainda que seja reconhecida a importância do isolamento e restrições de circulação, ninguém com quem eu tenha conversado concorda com a maneira que as bandeiras são definidas e suas restrições implementadas. Greca vem sendo criticado por todos os lados, principalmente no que tange a circulação de ônibus cheios na capital. E se seus ex-aliados não conseguem resposta fácil, imagine quem se opunha a sua administração desde o principio?

Rafael Greca. Foto: SMCS.

“O pior de tudo foi depois de entregar um documento impresso com 15 mil assinaturas, sair de lá só com um carimbo”. Me conta Jana Santos, uma das idealizadoras do coletivo Fechados Pela Vida e sócia-proprietária do Cosmos Gastrobar, que batalha desde o início da pandemia propondo saídas mais próximas às que se implementaram na terra dos cangurus. “A própria criação do coletivo deu-se por conta de uma noção de falta de representatividade entre as instituições de classe.” Em um desabafo em uma rede social do coletivo, lê-se: “Nós, o coletivo Fechados pela Vida, nos unimos em março do ano passado. Desde o início da pandemia, entendemos que o lockdown era uma medida que deveria ser adotada preventivamente para evitar a sobrecarga no sistema de saúde, salvando o maior número de vidas possíveis, bem como reduzindo nossas perdas econômicas. Vimos durante os últimos 12 meses medidas restritivas que não tinham embasamento científico e que não tiveram o efeito prático de controlar a pandemia. Fechamento de bares e abertura de igrejas. Restrição de horários de mercado, aglomerando pessoas nos outros dias. Ônibus lotados e sem controle… Com medidas de fechamentos parciais, o governo escolheu qual setor da economia iria se sacrificar mais para que os outros não fechassem. Enquanto isso, a pandemia continuava descontrolada e nossos sacrifícios financeiros foram imensos e em vão. Começamos este coletivo com cerca de 200 empresas, hoje muitas delas fecharam e ou se encontram à beira da falência”. O peso do apelo desses empresários foi ignorado pela prefeitura e por seu alcaide que em época de eleição chegou a declarar que não havia tomado conhecimento do calhamaço de mais de três quilos de papel que lhe chegara pelas mãos de Jana. “Sabe, Felipe, eu fico me perguntando, se não é à ciência, aos empresários ou à população, a quem a prefeitura serve?”

Também escapando das medidas arriscadas, e de senso comum propostas pelas entidades que representam a gastronomia em Curitiba, está o vereador Dalton Borba, do PDT, que integra a bancada de oposição a Rafael Greca na Câmara e é autor do projeto Juros Zero. O projeto visa creditar empréstimos a empresas afetadas pela pandemia, com uma grande carência e a juros zero, sendo o governo municipal o angariador de recursos e patrocinador do pagamento do ágio. “Quando eu percebi que a pandemia era um fato gravíssimo e que por seu absoluto ineditismo ninguém sabia o que era esse vírus, lá em fevereiro e março de 2020, propus algumas medidas de enfrentamento não só na área da saúde, mas também na área da economia e um dos projetos que eu apresentei foi o Projeto do Juros Zero.”

Apesar do absoluto paradoxo representado por um projeto desse não tomar corpo e força dentro da Câmara Municipal de Curitiba e fora dela, Dalton não foi muito longe com ele. “O projeto foi apresentado na Câmara e quem o assinou foi o também vereador professor Euler. Foi tratado com absoluto desdém, esmagado pela base do prefeito que não vislumbra arcar com esse tipo de despesa para o município. Embora naquela época o prefeito tenha declarado publicamente que detinha 500 milhões de reais de reserva para o enfrentamento da pandemia… Os juros de uma operação destas seriam de 2% a 3% ao ano. Isso seria muito barato para a prefeitura. Sendo que não haveria qualquer favor aos empresários aqui, eles sim teriam um apoio do poder público para se manter de portas abertas, gerando tributos, divisas e empregos. Devolvendo para o governo todos esses benefícios. O prefeito decidiu fechar as portas, a base de apoio simplesmente passou um trator em cima do projeto e hoje estamos vendo o que está acontecendo.”

O vereador se queixou também da falta de apoio do meio empresarial e pontua que a ajuda do governo do Paraná e da prefeitura são insuficientes: “No ano passado, ele (Rafael Greca) anunciou uma parceria com o Sebrae para criar um fundo de aval para ajudar os empresários que precisem de crédito no valor de dez milhões de reais. Isso é uma piada, né? Dez milhões de reais para ajudar empresários em uma cidade com 2 milhões de habitantes como Curitiba é ridículo. O Ratinho Jr. criou o auxílio emergencial de R$ 1.000,00 em quatro parcelas de R$ 250,00. Pelo amor de Deus! Esse dinheiro sequer dá para encher o tanque do veículo da sua empresa. São medidas para tentar enganar o empresariado de que algo está sendo feito, quando não está. O próprio fundo de aval não é a melhor das alternativas. Os requisitos pedem para que você esteja adimplente em todas as esferas. O que não faz nenhum sentido. O empresário que precisa de dinheiro agora é justamente aquele que está quebrado por conta da pandemia. A base de apoio do governo Greca não só barra qualquer projeto legislativo que possa dar apoio ao empresariado como também não apresenta solução. Para ele fica fácil mandar fechar. Se quer fechar, em primeiro lugar feche de verdade. Em segundo lugar, faça como outros modelos, feche e coloque paralelamente ao lockdown medidas de auxílio emergência que sejam reais.”

Dalton Borba. Foto: CMC.

Estamos diante de uma crise real com poucas saídas dado o ponto onde chegamos. As narrativas enviesadas politicamente e os interesses egoístas tornam o que já era difícil quase impossível. Não estamos longe da Austrália só de forma literal, somos um país onde governos esquecem que são públicos e empresários esquecem que são cidadãos. Enquanto as representatividades de classe preferem colocar seus funcionários e clientes em risco ao invés de demandar suas reparações aos poderes responsáveis, o governo dá as costas para demandas públicas reais, preferindo atender seus interesses particulares. Por outro lado, há de se entender que aqui no Brasil as pessoas não estão pedindo para trabalhar, estão pedindo para viver e isso é muito triste. É a certeza cabal de que o auxílio não virá. Pois, um que prefere colocar sua vida – ou de outros – em risco, para garantir o pão, ao invés de cobrar seus direitos é alguém que há muito não se vê mais como cidadão atendido por quem lhe governa. 

Muitíssimo diferente da terra dos Cangurus, que apesar de produzir um sanduíche sofrível, está em lugar privilegiado para escolher a melhor forma de agir. O Brasil está situado em um limite onde só vacina, isolamento social e reparação financeira têm alguma utilidade. O resto segue sendo pura politicagem! 


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias