15 jun 2021 - 8h00

Sensibilidade é um experimento

Precisamos sintonizar com o que nos preenche

Certa vez, o poeta e crítico literário Ezra Pound (1885-1972) escreveu que o artista é antena da raça. Essa metáfora entre seres humanos e sistemas de captação/recepção nos faz pensar: afinal, o que temos captado por meio de nossas antenas? Ou ainda, no que estamos nos sintonizando?

Pound escreveu isso em 1934, e o rádio ainda está por aí, o que não estava lá era o atual embotamento da sensibilidade, o axioma da rapidez que não nos deixa aproveitar a vida e a fantasia da redenção pelo sacrifício da produtividade.

Não acredito que seja o caso da existência de receptores em algumas pessoas, ou da ausência de antenas em outras. Diria que todos têm antenas, mas artistas permitem que elas permaneçam sempre ligadas.

Dessa forma, a arte pode ser vista como outra metáfora: a do sintonizar com a existência por meio da atenção com a vida. Se cientistas investigam sem cessar os mistérios do mundo, os artistas investigam com rigor científico a experiência  significativa de ser um humano nesse mundo.

Não é o caso de ter uma antena e irradiar a todos aquilo se capta, mas de profunda atenção com aquilo que arrepia a pele, o que indigna, o que dá tesão por estar vivo. Ouso dizer que, ao fazer da vida experimento, os artistas se tornam ratos de laboratório e cientistas ao mesmo tempo. 

O ex-caminhoneiro e crítico de arte da revista New York Jerry Saltz (1951) costuma dizer que arte é um tipo de atividade para nos derramarmos dentro. É um fazer ao qual preenchemos e somos preenchidos. Nos condenamos à superficialidade se abandonamos a intensidade, principalmente, se perdermos de vista o horizonte da experimentação. E perdemos.

Na busca de atalho ou de manual que leve direto para a linha de chegada perdemos o horizonte, juntamente com a bússola do coração. A vida se tornou um amontoado de respostas que traduzam produtividade, e acabamos por não sintonizar mais aquilo que o mundo é para nós. 

Estaríamos melhor se voltássemos a ter a vida para ser experimentada captando suas nuances e ruídos na pele.


Para ir além

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