O falecido - Jornal Plural
14 jun 2021 - 7h00

O falecido

Era como se as lágrimas dela não tivessem fim. Ainda tentei acalmá-la, dizendo sabe-se lá o quê. Qual nada! Não houve o que a consolasse

Foi uma jogada razoável. A bola ímpar não caiu na caçapa do canto esquerdo, mas ficou em boas condições para a próxima tacada. Nada mal para quem, como eu, não é nenhum Rui Chapéu. “Presta atenção, cara!”, sussurrou meu parceiro, que tinha chegado pertinho, dando uma piscadela marota. Só quando ele fez um movimento de sobrancelhas, é que eu entendi que a advertência em questão não se referia à partida de sinuca. “A bonitona não para de te olhar. ‘Tá na sua”, arrematou. A moça que ele indicava tinha chegado ao hostel havia pouco, acompanhando o casal contra o qual jogávamos aquela partida. E, de fato, fazia jus ao adjetivo que meu companheiro de taco usou para descrevê-la: bonitona.

Era a primeira vez que eu ia à Bahia e, como sempre, seguia à risca a minha estratégia de quando viajo sozinho: não planejar nada. Nessas, no Elevador Lacerda, em Salvador, conheci Sérgio, um biólogo nascido e criado em Niterói, que me falou sobre o Morro de São Paulo, uma ilha paradisíaca que fica a 65 quilômetros da capital. “Que seja”, pensei comigo. Embarquei no catamarã e, horas depois, aportei no arquipélago, acompanhando o jovem fluminense. Andava absorto em mim mesmo, alheio a quaisquer pretensões – muito menos que envolvessem uma bela mulher. Deste modo, mal tinha reparado em ninguém – nem na bonitona. Se não fosse o Sérgio falar, eu jamais teria percebido: “Olha lá! ‘Tô falando. ‘Tá te olhando!”.

Botei reparo e tudo indicava que meu camarada estava certo. Quando eu tomava a palavra para contar algum causo, a bela se punha a desfiar a ponta dos longos cabelos loiros, de uma forma charmosa, mas que tinha, também, um quê de sexy. Assim que eu lhe dirigia a palavra, a moça baixava os olhos e corava. “Às favas”, pensei. Fui à cozinha e me vali de um dos meus dotes: preparei duas caipirinhas – uma pra mim, outra pra ela. Quando lhe estendi o copo (“É pra você”), ela se alumiou toda num sorriso superlativo. A partir de então, engatamos numa prosa e poucos minutos depois a definição que meu amigo usara para defini-la me parecia, agora, imprecisa: ela era muito mais que uma mulher bonita.

Não me contive. Tomei-a pela mão e a conduzi a um passeio pela orla da Segunda Praia, uma das mais nobres da ilha, em que se perfilavam resorts, desses que parecem saídos de filmes. Andamos descalços na areia, dançamos colados uma música imaginária que só nós ouvíamos e, entre as confidências, soubemos que tínhamos predileção pelo mesmo livro. Só então me dei conta que no dia seguinte eu já teria que voltar a Salvador e, num arroubo, quase lhe propus que embarcasse comigo. A um passo de deitar fora a razão, ponderei que poderia ser boa ideia.

Um pouco adiante, sem me fitar, ela disse, se esforçando por ser casual: “Esta é a primeira vez que viajo sozinha. Nos últimos seis anos, eu viajava com meu marido”. Ato contínuo, ela arqueou os ombros, como se um incômodo silêncio pesasse sobre nós. Eu precisava fazer algo para devolver leveza à atmosfera e, em uma fração de segundos, ponderei que fazer pilhéria poderia ser uma boa saída. “E o que houve com o falecido?”, perguntei, fazendo ar de troça, usando a gíria até usual para se referir aos ex. Em um átimo, vi os lábios delas trêmulos, como se perdessem o controle, e os olhos marejarem. “Pois ele faleceu mesmo!”, respondeu, me atando em um abraço, no mesmo instante que se irrompia em um pranto solto.

Era como se as lágrimas dela não tivessem fim. Ainda tentei acalmá-la, dizendo sabe-se lá o quê. Qual nada! Não houve o que a consolasse. Não tive outro remédio, senão ampará-la até o hotelzinho em que ela estava hospedada. Antes que ela entrasse, apertou-me contra o peito, em um último abraço apertado e soluçou: “Desculpa!”. Pelo caminho, tomei uma última caipirinha, preparada e vendida por um ambulante, e a cada gole pensava na estupidez e na infelicidade da piada colocada fora de lugar. “Que cagada!”, repetia para mim mesmo.

Quando cheguei ao hostel, Sérgio me esperava junto à mesa de sinuca, menos por companheirismo, mais por curiosidade: “E a bonitona?”, quis saber, de bate-pronto. Contei-lhe detalhadamente a história, ao fim da qual ele não pode evitar acesso de riso sonoro e sincero. Percebendo minha cara de bobo, o amigo se esforçou por conter as gargalhadas. “Pronto! Morreu o assunto… ‘Tá falecido!”, disse, provocando novo surto de riso – do qual, também fui acometido. Na manhã seguinte, com a cabeça estourando de ressaca, tomamos o catamarã de volta a Salvador. Não se falou mais na bonitona… nem no falecido.


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