O imenso impacto ambiental das criptomoedas - Jornal Plural
18 jun 2021 - 9h30

O imenso impacto ambiental das criptomoedas

No universo das moedas digitais, quem resolve um enigma é comparado com um ganhador da loteria

O que você faria se ganhasse R$ 204 mil em um dia? Para algumas pessoas, ganhar uma quantia dessas pode levar anos. Para os investidores, é “apenas” uma Bitcoin – este é o valor atual de uma unidade da criptomoeda. O que pouca gente pensa que é o mercado de criptomoedas, totalmente digital, afeta diretamente ao meio ambiente.

Antes de falar de seus impactos ambientais, precisamos entender como realmente funciona este mercado. O coordenador do curso de Gestão Financeira e do curso de Blockchain, Criptomoedas e Finanças na Era Digital da Uninter, Daniel Cavagnari, explica que o assunto é recente. Segundo ele, entre as criptomoedas o Bitcoin foi a primeira a ser criada. No dia 3 de janeiro de 2009 houve a fundação do “bloco gênesis”, o primeiro bloco do Bitcoin no Blockchain de valor zero.

Vale complementar que Blockchain nada mais é que um livro caixa seguro, onde as criptomoedas (ou moedas digitais) são registradas. “A moeda é criada a partir de cada processo de compra e venda da mesma (dentro do Blockchain), em que, a cada operação chancelada pelos mineradores (empresas que garantem o processo), esses recebem um prêmio por essa validação e assim aumenta o número de Bitcoins que circulam dentro da Blockchain”, explica o docente.

De maneira simplificada, para você começar a investir em criptomoedas é preciso buscar uma corretora de moedas digitais, também conhecida como trader. Esta, por sua vez, é vinculada à plataforma Blockchain ou em qualquer outra que tenha a função de registrar as movimentações das moedas.

Para acontecer o investimento de fato, você, através de uma trader, faz um depósito em dinheiro com foco em criptomoeda. A corretora de moedas digitais faz toda a negociação dentro do Blockchain. Quando o investimento é autenticado pelos mineradores – que são responsáveis pelo registro de toda a negociação da criptomoeda –, a transação é registrada no livro caixa (Blockchain). A partir disso, você já está participando desse mercado.

Dentro das traders, você pode comprar e vender moedas digitais como se fossem um ativo comum. “Tanto que o Bitcoin e qualquer outro ativo é considerado como um bem no Brasil. E, por isso mesmo, quando você compra uma criptomoeda digital, você tem que registrar isso no Imposto de Renda”, complementa o coordenador.

Por mais que pareça uma atitude simples, Cavagnari garante que é preciso muito estudo e experiência do mercado para não cair em ciladas. A primeira dica do coordenador é tomar muito cuidado com a trader que você vai escolher, porque não são empresas controladas pelo mercado financeiro e isso muitas vezes dá margem para fraudes.

Foto: Pexels.

O coordenador cita o exemplo do Grupo Bitcoin Banco, um conglomerado que deve mais de R$ 500 milhões a quase 6.500 investidores e ainda luta por uma recuperação judicial. Por essas e outras razões, é fundamental pesquisar em qual empresa você está investindo seu dinheiro. “Então tem que tomar muito cuidado com isso, tem que buscar as corretoras que estão aí há muito tempo. Essas são as complicações, esses são os riscos”, ressalta o docente.

Outra variável é o valor da moeda, que mais parece brincar de montanha-russa. Cavagnari exemplifica falando sobre o começo da pandemia, quando uma Bitcoin estava valendo 30 mil reais. Cerca de um ano depois, estava valendo R$ 320 mil. Uma valorização de mais de 1.000%. “Isso significa que se você tivesse pegado R$ 100 mil e comprado criptomoeda em março de 2020, em março de 2021 você teria um milhão de reais certinho. Então, ela tem esses altos e baixos. A especulação é muito grande, é muita gente comprando e vendendo. E você pode se deslumbrar com o valor em um ano, mas no outro pode não acontecer a mesma coisa”, conta.

Criptomoedas e o meio ambiente

No dia 24 de maio deste ano, foram divulgadas as primeiras diretrizes para a criação de uma moeda digital brasileira. A ideia é que esta moeda seja uma extensão da moeda física, e a nova opção seria emitida pelo Banco Central. Ainda é preciso aprofundar as conversas com o setor privado, mas a estimativa é que a implementação aconteça entre dois ou três anos.

O coordenador do trabalho do BC, Fabio Araujo, declarou que essa moeda digital será diferente das criptomoedas. “Os criptoativos, como o Bitcoin, não detém as características de uma moeda mas sim de um ativo”, declarou Fabio.

Além do cenário nacional, grandes empresas mundo afora tentaram apostar nas moedas digitais como método de pagamento. A montadora de veículos elétricos Tesla foi uma delas. Em março, a ideia do CEO da empresa, Elon Musk, era vender seus carros com uso de criptomoedas Bitcoin, mas a tentativa não foi muito longe. Isso aconteceu, justamente, por preocupações ambientais.

E aqui retomamos o ponto inicial deste texto: no que, realmente, as criptomoedas interferem no meio ambiente? Tudo começa com a mineração. Este é o nome dado ao processo pelo qual a criptomoeda é gerada a partir de milhões de cálculos feitos por computadores, que verificam as transações realizadas por pessoas que estão ativas no mercado de moedas digitais.

Neste processo acontece a solução dos enigmas, que, mesmo que não integralmente, validam o ir e vir das criptomoedas. Trata-se de mais uma medida protetiva contra fraudes nos registros das transações. Para quem consegue resolver o enigma, há uma recompensa que, normalmente, é uma pequena quantia paga em Bitcoins. No universo das moedas digitais, quem resolve um enigma é comparado com um ganhador da loteria.

Elon Musk. Foto: reprodução.

Nos primórdios das criptomoedas, as recompensas giravam em torno de 50 BTC (Bitcoins). Hoje, ressalta Cavagnari, são entregues três ou cinco moedas para quem resolve um enigma, mas quando este montante é convertido para Real, um novo milionário anda pelas ruas brasileiras.

O problema ambiental está na alta capacidade dos supercomputadores que desenvolvem esses enigmas. “Como que pode acontecer com o mercado digital? Pode acontecer com as próprias nuvens. Para você fazer a nuvem funcionar, você tem que ter datacenters com centenas de milhares de HD’s. E o que eles fazem? Eles aquecem. Você usa energia para mantê-los funcionando”, exemplifica o coordenador.

E quando falamos em energia, não é apenas a conta de luz elevada. De acordo com os pesquisadores da Universidade de Cambridge, esses processos computacionais consomem cerca de 121,36 terawatt-horas (TWh) por ano. Em vias de comparação, um terawatt equivale a 1 bilhão de quilowatts, este é o consumo inteiro da Argentina, país com mais de 40 milhões de habitantes.

“A gente está falando aqui de um consumo de um quilowatt por minuto. Imagina assim: sua conta de luz é R$ 200, se você colocar uma mineradora (um computador minerador de criptomoeda), você vai subir esse valor para uns R$ 20 mil por mês. É isso que eu estou falando. Por quê? Porque o consumo é absurdo de energia. Para quê? Só para decifrar um enigma”, complementa Cavagnari.

Como os computadores trabalham constantemente e o nível de eletricidade só aumenta, casos como o da China tendem a ser mais comuns. O país é responsável por cerca de 75% da mineração dos Bitcoins em todo o mundo e as pegadas de carbono da criptomoeda aproximam-se das 10 maiores cidades chinesas. Isso só acontece porque o processo das criptomoedas ainda utiliza eletricidade produzida por combustíveis fósseis, como o carvão.

O professor Daniel Cavagnari ressalta que os datacenters hoje estão em constante evolução para tentar diminuir esse consumo elevado de energia. “Para se ter uma ideia, digamos que antigamente um HD físico gastava em torno de um Quilowatt-Hora (KWh) por mês. Hoje, com tanta tecnologia, nem é mais um disco físico, não aquece mais tanto, ele gasta 10% disso só”.

Além dessa preocupação, há ainda o fator de descarte dos materiais eletrônicos. “Os componentes eletrônicos vão ficando obsoletos e desgastados com o passar do tempo, e isso vai atingir, justamente, o meio ambiente”, finaliza Cavagnari. Para quem achava que operações digitais não tinham impacto significativo no meio ambiente, percebe-se que a realidade é muito diferente.

Orientação: professor Mauri König, jornalista.


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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