26 jan 2022 - 8h00

Antonio Risério, a distopia brasileira e os movimentos negros

A convicção de Risério da existência do “racismo reverso” e da ameaça de uma “supremacia negra” justifica que ele distorça ou simplesmente contorne a necessária explicação de seus conceitos. Essa mesma convicção serve de pretexto para sugerir, como novidade, uma representação de nossa temporalidade passada, presente e futura, que pouco tem de nova, mas que requenta um projeto de nação já antigo

Há uma questão de fundo no artigo de Antonio Risério, “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”, publicado na Folha de S. Paulo no dia 16 de janeiro. Promulgada em 2012, a Lei de Cotas, como prevê a Lei 12.711, que a institui, passa esse ano por uma primeira revisão.

O antropólogo baiano foi dos intelectuais que esteve, desde o começo, na linha de frente dos que se opunham à política de cotas, que institui 50% das vagas nas universidades federais, para estudantes de escolas públicas, negros, pardos, indígenas e pessoas com deficiência, e com argumentos muito parecidos com os que vêm brandindo em seus artigos recentes.

Apesar da amplitude da lei, nada estranhamente foi sempre a presença dos negros o que mais celeuma provocou. Um incômodo, registre-se, que não é exclusivo a intelectuais e docentes de direita. Não é casual, portanto, que gente de matizes políticos diversos, como Leandro Narloch, Demétrio Magnoli e o próprio Risério, voltem sua munição retórica para o movimento negro, principal beneficiado com a política.

E para tanto, vale desqualificar ou simplesmente se negar a discutir com intelectuais negros e sua produção, já bastante volumosa, e recorrer a distorções revisionistas grosseiras, para depreciar o movimento negro, suas pautas e tendências. E nesse quesito, Risério ganha de goleada de seus pares mais próximos, ao nivelar o movimento ao fascismo e, nesse último texto, denunciando a ameaça de um “supremacismo negro”, algo como uma “Klu Klux Klan reversa”.

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Foto: Agência Brasil.

Também não por acaso, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, compartilhou o texto de Risério, tomando-o como evidência de que ele, Camargo, tem razão em seus ataques ao que esse povo chama de “identitarismo”, um espantalho conceitual que, na boca e na pena dos Risérios da vida, se transformou em mais um cacoete cujo objetivo não é o debate, mas a desqualificação.

Essa faceta “polemista” de Risério não se limita aos seus artigos na imprensa periódica. Suas intervenções públicas repercutem, em um vocabulário menos refinado e mais agressivo, o que o autor vem defendendo desde, pelo menos, “A utopia brasileira e os movimentos negros”, de 2007, e retomado em “Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária”, de 2019. Um livro, como se vê já pelo título, mais próximo à virulência verbal e a pobreza conceitual de seus artigos mais recentes.

A “razão imperialista”

A tese de Risério se sustenta, muito sucintamente falando, em quatro argumentos principais. Primeiro, a história da presença e do movimento negro no Brasil e nos Estados Unidos, porque diferentes, produziram efeitos igualmente distintos.

Por conta disso, o problema racial ganhou lá e aqui, contornos conflitantes. Enquanto nos EUA vigora o one drop rule (a “regra de uma gota de sangue”), que institucionalizou, desde o Estado, as relações em termos de raça, no sentido biológico do termo, no Brasil constituiu-se, historicamente, uma sociedade miscigenada, fruto da interação entre diferentes culturas e etnias.

Essa faceta “polemista” de Risério não se limita aos seus artigos na imprensa periódica. Suas intervenções públicas repercutem, em um vocabulário menos refinado e mais agressivo, o que o autor vem defendendo desde, pelo menos, “A utopia brasileira e os movimentos negros”, de 2007, e retomado em “Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária”, de 2019.

Se, nas suas primeiras manifestações, o movimento negro brasileiro assumiu esse caráter miscigenado, principalmente desde os anos de 1960-70 ele passou a pautar seus discursos e práticas pelo padrão norte-americano.

A importação de um modelo exógeno, além de descortinar a subalternidade intelectual de nossos negros, alimentou entre nós, como seu efeito perverso e nocivo, uma espécie de “arrivismo racial”, em que negros, sob o pretexto de combaterem o racismo e reivindicarem direitos, negam nosso passado de sociedade miscigenada em nome de uma “nação bipartida” em negros e brancos, nas palavras de outro ativista “anti-identitário”, Demétrio Magnoli.

Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

No caso de Risério, particularmente, o ponto de partida de sua militância, e que lhe empresta a necessária legitimidade acadêmica, é o artigo de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant – o primeiro já falecido –, “Sobre as artimanhas da razão imperialista”.

Embora nada falem de seu próprio país e suas “artimanhas imperialistas”, os sociólogos franceses denunciam os riscos políticos do que chamam de “imperialismo cultural” – o “poder de universalizar os particularismos associados a uma tradição singular, tornando-os irreconhecíveis como tais” – estadunidense, em especial sua influência nos movimentos negros da América Latina e, mais particularmente, no Brasil.

Embora sólida, a argumentação de Bourdieu e Wacquant se vê enredada em uma armadilha comum às artimanhas imperialistas. Como não manejam o português, os autores nada dizem sobre a recepção e os usos da alegada influência de intelectuais e ativistas norte-americanos pelo movimento negro brasileiro, que surge subalternizado, incapaz de produzir uma reflexão original e uma pauta política específica.

Como escrever a história do Brasil

Diferente de Bourdieu e Wacquant, Risério maneja, e bem, o português. O que tampouco significa alguma disposição a ler e discutir, com seriedade, com seus apenas supostos interlocutores. Sua convicção da existência do “racismo reverso” e da ameaça de uma “supremacia negra” justifica que ele distorça ou simplesmente contorne a necessária explicação de seus conceitos (tais como o de “relativismo” e “pós-modernidade”, além da própria noção de “identitarismo”).

Ele requenta, com ares de um humanismo iluminista, um projeto de nação – a sua “utopia brasileira” – já presente nos dois séculos passados, quando o Brasil e seu “povo” foram esquadrinhados, e a construção da ideia de nação, desenhada pela pena de um punhado de homens brancos.

Mas, e não menos importante, é essa mesma convicção que lhe serve de pretexto para sugerir, como novidade, uma representação de nossa temporalidade passada, presente e futura, que pouco tem de nova.

Ele requenta, com ares de um humanismo iluminista, um projeto de nação – a sua “utopia brasileira” – já presente nos dois séculos passados, quando o Brasil e seu “povo” foram esquadrinhados, e a construção da ideia de nação, desenhada pela pena de um punhado de homens brancos.

Desde Von Martius, a história do Brasil deveria ser escrita atentando-se para a “mescla de raças” e suas relações mútuas, que contribuiu para “um movimento histórico característico e particular”. É a nossa miscigenação, tão cara a Risério e objeto de seguidas reinterpretações na produção historiográfica e sociológica brasileira, que estaria sendo negada pelo “identitarismo”, em detrimento de um ativismo racialista e da divisão racial de matriz norte-americana.

“Pele alva e pele alvo”

A imagem distorcida e idealizada desse projeto de nação, atualizada na pena de Antonio Risério, pouco espaço concede à necessidade que tem um estudioso das Humanidades, em atentar para a historicidade dos conceitos e suas interfaces com a realidade. Ele ignora, ou finge ignorar, que se o negro não existe como raça, no seu sentido biológico, a ideia de raça existe na “ordem dos efeitos práticos”, como afirma um dos principais pensadores negros da atualidade, o camaronês Achille Mbembe.

E embora não negue a existência do racismo no Brasil, afirma que ele é, não apenas distinto, mas menos danoso que o norte-americano, porque não se trata de  um “racismo de Estado”, como se o Estado pudesse ser resumido ao seu aparato jurídico e, pior, como se as políticas de segurança e prisional, que afetam e matam muito mais negros que brancos, não fossem, também elas, políticas de Estado.

Emicida. Foto: Agência Brasil.

Nesse sentido, talvez mais que simples modismo ou subalternidade intelectual, o que ajude a entender o incômodo do movimento negro brasileiro pela miscigenação seja, antes, o fato de que a “utopia brasileira” acalentada por Risério produziu seus próprios e muitos monstros. Um desfile de atrocidades e violências, físicas e simbólicas que, historicamente, miraram principalmente a população negra, condenando-a a uma incômoda e ultrajante posição de subalternidade e sujeição.

Em uma das canções de seu último álbum, “AmarElo”, Emicida escreve: “80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo”. Não deveria ser estranho, portanto, que o movimento negro procure construir outros caminhos, que não a da sua assimilação e inclusão em uma entidade já construída, esse universal que Risério chama de miscigenação. O que, para ele, é uma utopia de Brasil, para negras e negros talvez seja, principalmente, expressão de uma distopia.

Não fosse deliberadamente cego à realidade e surdo ao diálogo, talvez Risério também soubesse disso.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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