7 jan 2021 - 19h00

Sobre dias de Infâmia

Ato ecumênico em homenagem a Herzog foi desafio à ditadura

31 de outubro de 1975. Ocorre uma missa ecumênica em memória do jornalista Vladimir Herzog, morto no dia 25, nas dependências do II Exército. Lideraram o culto o cardeal Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo evangélico Jayme Wright.

Um homem havia morrido. Ou melhor: sido morto. Um jornalista, conhecido e querido por muitos. Contra ele não havia nenhuma acusação formal, juridicamente falando, e a alegação para sua detenção era uma suspeita de ligações com o proscrito Partido Comunista, o que era verdade. Daí  ele ter sido intimado a ir prestar depoimento na sede do Doi-Codi. E ele foi. Lá, foi torturado e morto. 12 outros jornalistas estavam presos nas mesmas dependências, pelas mesmas razões. Muitos, como o jornalista Paulo Markun – com quem tive a oportunidade de conversar pessoalmente e ouvir dele relatos dramáticos dessa sua experiência – também foram torturados.  Depois de sair de casa, naquele dia,  o corpo de Vlado só  foi visto pela família na foto na qual ele aparece amarrado no pescoço a um gradil da janela, em uma simulação infantil de suicídio, com laudo assinado por médico e tudo. (Prova de que o juramento de Hipócrates sozinho não é capaz de transformar canalhas em pessoas honestas.) Herzog fora assassinado.

D. Paulo, na missa em sua homenagem, não deu margem para a falácia do suicídio. Disse:  “o matarás. Quem matar, se entrega a si próprio nas mãos do Senhor da História e não será apenas maldito na memória dos homens, mas também no julgamento de Deus!”

Seus algozes, porém, não estavam satisfeitos. Queriam mais. Precisavam de mais, na sua sanha de negação e destruição. Não queriam homenagens, lembranças, referência. Herzog fora morto e agora precisava desaparecer por completo. Era um inimigo do regime, não importava que não existissem provas de qualquer ação concreta de Herzog contra o governo ou os militares. Mas essa era uma época na qual bastavam as convicções para que a realidade se materializasse. Para essas pessoas, o certo é o que eles pensam sobre o que é certo. Tudo e todos que problematizam e criticam são uma ameaça às suas “verdades inventadas”.

Por isso era preciso impedir qualquer homenagem a Herzog. Algumas dessas tentativas quase chegam a ser engraçadas, se existisse algum espaço de graça em meio a tanta feiura e desumanidade: os militares determinaram a inversão do sentido das ruas que davam na Catedral da Sé, para evitar o fluxo de carros e do transporte público. Imagino essa ideia se formando na cabeça da pessoa, a sua transformação em palavras, o tom dessas palavras, a aceitação entusiasmada da claque, a ordem e o sabor da antecipação das consequências: “eles não esperavam essa nossa argúcia!”

Não adiantou: cerca de oito mil pessoas, na sua grande maioria, foram a pé, em pequenos grupos, encontrando-se longe da catedral e caminhando, silenciosos e tensos para acompanhar a missa. Era tanta gente que não cabia na grande catedral. Ficaram nas escadarias, sem ouvir e ver praticamente nada. Mas sabiam que estar lá era necessário.

D. Paulo foi informado de que cerca de quinhentos agentes armados estariam presentes e se houvesse qualquer manifestação “de protesto” eles estavam autorizados a atirar. Para o governo, o protesto era inadmissível. Como poderiam as pessoas fazerem oposição ao governo? Um pouco antes, a propaganda oficial já tinha avisado: “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Por que não entenderam? E agora desafiavam as ações do governo, que eliminara um perigoso agente do comunismo internacional, conspirador contras as tradições cristãs e pacíficas do povo brasileiro? Ah, se esse cardeal abusar, vai ter!.

Mas não houve nada. A missa acabou, todos foram embora. No dia seguinte, o jornal Estado de São Paulo, em coluna no meio da primeira página, afirmou: “segundo observadores, o ato revelou  grande maturidade política dos organizadores e participantes.”

Na mesma página, o jornal destacou também a visita de Ernesto Geisel a São Paulo. O general presidente visitou a Faculdade de Medicina, a Faculdade de Saúde Pública e a Bienal, onde demorou-se na sala sobre arte indígena brasileira. Voltou para Brasília às 17 horas. A missa havia começado por volta das 16 horas, e a ação da polícia para tentar impedir o acesso à catedral  causou um grande congestionamento no centro da cidade. Em Brasília, o secretário da imprensa de Geisel declarou: “o presidente ficou muito sensibilizado com as manifestações de respeito e carinho que recebeu do povo paulista”. O secretário disse também que a situação do país estava tranquila, “apesar dos boatos”.

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Um comentário sobre “Sobre dias de Infâmia

  1. Por essa e outras quando ouço o presidente q ocupa mas não exerce a função falar da ditadura e suas homenagens me dá repulsa.

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