14 jun 2021 - 12h45

Por uma linguagem menos sexista

Uma norma gramatical parece coisa simples, mas por trás de toda norma existe um poder que se impôs até ser visto como verdade inquestionável

Quando a gente pensa em linguagem neutra, pensamos em como usar palavras que sirvam para todos os gêneros numa frase. Ou seja, é uma tentativa de amenizar o chamado “sexismo linguístico” presente na língua, que é essa percepção do ponto de vista masculino como universal e neutro. Além disso, é tema pautado por pessoas não binárias que não são representadas pela divisão binária dos pronomes de tratamento.

Algumas pesquisas apontam que falantes de línguas que atribuem gênero em termos que poderiam ser neutros (como a objetos inanimados ou em palavras direcionadas a um grupo de pessoas) tendem a ter pensamentos mais sexistas em relação a outros em que a neutralidade é possível desde a norma culta.

Em pesquisa realizada por Lera Boroditsky na University of California San Diego, os participantes, falantes de alemão e espanhol, tiveram que descrever uma chave. “Chave” é uma palavra masculina em alemão e feminina em espanhol e as respostas refletiram essa diferença. Os alemães usaram termos como “denteado”, “serrilhado”, “duro” e “metal”, remetendo a força, que é entendida como característica da masculinidade, enquanto que os falantes de espanhol usaram termos como “pequeno”, “brilhante” e “dourado”, remetendo a delicadeza, que é entendida como característica da feminilidade. O estudo fez a mesma comparação com outras palavras e percebeu a mesma tendência quando um objeto inanimado era nomeado a partir de um pronome feminino ou masculino.

O uso de pronomes pessoais neutros, como hen em sueco, élle em espanhol e they singular em inglês, ajudam a diminuir a discriminação de gênero, sendo algumas destas já reconhecidas oficialmente. A Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, por exemplo, passou a substituir o “o” e “a” por “e” em palavras que demarcavam gênero e justificou: “a linguagem com a qual nos comunicamos e nos relacionamos comporta sentidos que refletem as desigualdades de gênero, naturalizando a segregação, a discriminação ou a exclusão”.

A linguagem neutra na Língua Portuguesa

O latim que é a origem das línguas latinas, originalmente, tinha variações que permitiam o emprego do masculino, feminino ou neutro, mas com o passar do tempo, o neutro e o masculino se fundiram, de modo que atualmente quando falamos sobre um conjunto de 20 meninas e 1 menino, por exemplo, dizemos “21 meninos”. É gramaticalmente correto, mas será que é neutro mesmo?

Desde Paulo Freire sabemos que não há neutralidade na educação. Uma norma gramatical parece coisa simples, mas por trás de toda norma existe um poder que se impôs até ser visto como verdade inquestionável, como universalidade, como se por trás da norma não houvesse sujeito e esse sujeito tivesse demarcações bem nítidas de gênero, classe e raça.

Paulo Freire. Foto: reprodução.

Ainda que falar em “linguagem neutra” remeta às reivindicações de pessoas não binárias, já existem termos considerados neutros desde a norma culta na língua portuguesa, por meio do que chamamos de “gênero vacilante”, que são palavras que passam a ter o gênero determinado quando colocamos o pronome (como “o chefe” e “a chefe”, “o colega” e “a colega”, por exemplo, porque as palavras “chefe” e “colega” não apresentam gênero sem “o“ ou “a” antes) ou palavras que mudam de sentido conforme o pronome empregado (como “o capital”, que designa um montante de dinheiro, e “a capital”, que designa alguma cidade, por exemplo).

Também existem as palavras de gênero epiceno, que são aquelas em que o pronome continua não dizendo o gênero que a palavra se refere (como “a pessoa” e “a criança”, por exemplo, porque a gente não diz “o pessoa” ou “o criança”, né?). Esses são os aparatos que já existem na norma culta.

Pensando na neolinguagem, na inclusão de pronomes neutros na língua, a primeira tentativa de neutralizar a língua portuguesa – e talvez a que mais tenha se popularizado – é o uso de caracteres especiais (como @)  ou X para substituir as letras que demarcam gênero nas palavras, mas tiveram muitas críticas pelas palavras tornarem-se impronunciáveis, por não serem lidas por softwares de leitura para pessoas cegas e dificultando a leitura de pessoas com dislexia, sendo uma alternativa já superada em meios ativistas pela linguagem neutra. A alternativa encontrada foi a adaptação por meio do uso de “e” ou “u” no fim das palavras, mas é uma possibilidade que ainda encontra resistência e não é reconhecido pela norma culta, mesmo que seu uso seja mais simples.

Outra forma comum de uso da língua de forma neutra é a repetição de palavras para contemplar todas as pessoas que ouvem ou leem determinado material (como todos e todas, alunos e alunas, professores e professoras etc), sendo a principal crítica a esse modelo o fato de tornar a leitura repetitiva, e parecer pouco prática na comunicação oral, apesar de não existirem empecilhos da norma culta, por utilizar palavras em sua grafia original.

Inclusão e boa vontade nunca são demais

Aprendemos a nos comunicar por meio do hábito, da repetição. A primeira vez que vemos ou ouvimos “todes”, pode soar estranho, até engraçado – e te convido, também, a pensar o motivo que leva ao estranhamento e ao riso – mas não podemos perder de vista que se nos comunicamos dizendo “todos”, é porque assim fomos ensinados. Também aprendemos que há palavras cuja origem deve ser problematizada. Sabemos, já aprendemos que “denegrir”, por exemplo, é termo racista e deve sair do nosso vocabulário. Também acharíamos esquisito que alguém chegasse nos chamado de “vossa mercê”. A língua é viva e é no hábito, no uso que a construímos, que a tornamos melhor. E se a língua é feita por gente e a gente pode melhorar as coisas, por que recusar o novo?


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