O espaço minguado das mulheres | Jornal Plural
8 mar 2021 - 14h32

O espaço minguado das mulheres

Há ainda hoje um mito nos programas de pós-graduação, pelo menos no Brasil, o de que quando se tem filhos não se termina mais a pesquisa, ou o trabalho atrasa

Poucos sabem, mas a poeta norte-americana Emily Dickinson foi premiada em 1856: seu pão de centeio e milho (Rye and Indian bread) ficou em segundo lugar em um concurso realizado na sua cidade natal, Amherst, e, em razão desse sucesso, ela foi convidada para integrar a comissão do concurso no ano seguinte; ao que tudo indica, não compareceu. Quanto aos seus dons artísticos, eles só foram descobertos depois da sua morte.

Dickinson passou uma boa parte da vida reclusa, escrevendo poesia. Vivia, como muitas mulheres dos séculos passados, dentro de casa, mas, diferentemente das mulheres de sua época, ela se reinventou em seu quarto, onde permaneceu até a sua morte. Vale lembrar que Amherst fica no estado de Massachusetts, onde, no final dos anos 1600, mulheres que pensavam ou agiam de forma dissonante eram queimadas vivas. As bruxas de Salém ficaram particularmente conhecidas, mas elas não estavam sós: havia “bruxas” em outras cidades vizinhas.

Dentro do quarto, Dickinson foi aos poucos desaparecendo para amigos, parentes e vizinhos, mas reapareceu para si mesma como poeta, uma das maiores que o mundo já conheceu.

No recém-lançado Recordações da Minha Inexistência, a feminista norte-americana contemporânea Rebecca Solnit afirma que a mulher ainda hoje não deve ocupar espaço, talvez por isso exige-se que ela seja magra, é quase uma forma de desaparecer. Passar fome seria, diz Solnit, “a maneira como você se desculpa por existir, ou vai escorregando para a inexistência […] essa diminuição física tem seus equivalentes na maneira como vivemos, nos movimentamos, falamos ou nos abstemos de fazer tudo isso”.

Simone de Beauvoir: símbolo da resistência feminina à tradição de exclusão. Crédito da foto: reprodução.

Em As Inseparáveis, romance de cunho biográfico de Simone de Beauvoir, ela discorre sobre a vida de sua grande amiga Élisabeth Lacoin, ou Zaza, como ela a chamava. Zaza era uma moça talentosa e espirituosa que, como costumava afirmar Beauvoir, segundo sua sobrinha Sylvie Le Bon Beauvoir, “morreu porque tentou ser ela mesma e foi convencida de que essa pretensão era um mal”. Zaza não tinha um quarto só dela (para parafrasear Virginia Woolf), a fim de, como o fez Emily Dickinson, se reinventar e ressurgir para si mesma. Ao contrário, “Zaza não tem um só momento para si mesma, não lhe é concedido nenhum tempo privado, nem para o violino, nem para os estudos, o privilégio da solidão lhe é recusado”, denunciava sua amiga.  Além disso, a mãe a sobrecarregava de tarefas. Parece que as mulheres vivem sobrecarregadas, afinal, lembra Virginia Woolf, elas, “desde os primeiros tempos até o presente, têm dado à luz a população do universo. Essa atividade toma tempo e energia”. Talvez, por isso, Woolf não tenha tido filhos.

Há ainda hoje um mito nos programas de pós-graduação, pelo menos no Brasil, o de que quando se tem filhos não se termina mais a pesquisa, ou o trabalho atrasa. Interessante pensar que essa narrativa só se aplica à mulher, como se ela fosse a única responsável pela prole. Não se ouve, por exemplo, “fulano será pai: agora não terminará a tese/dissertação”. E falo de um ambiente esclarecido, em que homens e mulheres deveriam ser vistos como iguais.

O fato é que, um século depois da premiação de Dickinson, alguns anos após a desaparição de Zaza e a constatação de Virginia Woolf de que a mulher tem muitos afazeres com o cuidado da prole, Clarice Lispector teria aconselhado Lygia Fagundes Telles a não sorrir muito. Diz a autora de As Meninas: “Ela não gostava de me ver sorrindo para fotos e dizia: ‘Liginha, não sorria, escritoras que sorriem não são levadas a sério’”.  O sorriso esboça algo de nossa personalidade, é uma forma de mostrar que não somos neutras e, talvez, uma escritora, uma intelectual etc. devesse ser neutra: nem homem nem mulher, nem feliz nem triste. Talvez devesse desaparecer como pessoa e deixar apenas que a escrita a represente. Aliás, os animais não sorriem.

Lygia Fagundes Telles. Crédito da foto: divulgação.

Mereceria um sorriso o recente voto de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) para abolir a tese jurídica da chamada “legítima defesa da honra”, aquela que livrou Doca Street da cadeia no primeiro julgamento em 1979, em que foi acusado pela morte da socialite Ângela Diniz. Seu “erro” foi tentar existir, mas não dentro de um quarto como fez Dickinson e sim no espaço público. Em um outro livro intitulado Wandelust: A History of Walking (Desejo de Viajar: Uma História da Caminhada), Solnit afirma que “a sexualidade das mulheres é controlada através da regulamentação do espaço público e privado. Com o objetivo de manter as mulheres ‘privadas’ ou sexualmente acessíveis para um homem e inacessíveis a todos os outros”.

Na segunda década do século XXI estaria mais do que na hora de a mulher dar uma boa gargalhada em público.

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