A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 25 de outubro foi seguida por uma onda de denúncias de violência contra povos indígenas em Mato Grosso do Sul. Assassinatos, atropelamentos, ameaças de morte, manifestações racistas e até a possibilidade de envenenamento da água de comunidades Guarani Kaiowá estão entre os episódios relatados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
As denúncias começaram a ganhar repercussão nacional na segunda-feira (26) e levaram a entidade a acionar órgãos federais. Na terça-feira (27), a deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG) informou ter solicitado a investigação sobre ameaça de envenenamento da água utilizada por indígenas. Os ministérios dos Povos Indígenas (MPI), dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da Igualdade Racial (MIR) também anunciaram uma atuação conjunta para apurar os relatos.
Um dos registros mais graves é um áudio compartilhado pelo WhatsApp em que um servidor da prefeitura de Tacuru defende matar indígenas por meio da água. Na gravação, ele diz "essas pragas do caralho, do demônio... Tem que colocar veneno é na água deles, tem que matar essas pragas na água". A denúncia também inclui ameaças de impedir a circulação de indígenas até a cidade, cortar o fornecimento de água e energia elétrica e questionar o direito dessas populações de votar. A violência teria relação com o fato das comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul terem declarado voto no presidente Lula.
Os relatos encaminhados à Apib, no entanto, não se limitam à ameaça de envenenamento. Segundo informações divulgadas pela entidade, as denúncias incluem assassinatos em Naviraí, atropelamentos em Coronel Sapucaia e ameaças de morte em outras comunidades indígenas do estado.
Indígenas do povo Terena também denunciaram episódios de violência dentro das próprias aldeias. Há relatos de ataques racistas e de pessoas chamadas de “bugres”, além de manifestações que questionariam o direito dos povos originários de participar das eleições.
A Apib informou ainda que houve denúncias de impedimento do exercício do voto em escolas indígenas. Os relatos apontam para uma tentativa de intimidar eleitores indígenas e restringir o exercício de direitos políticos.
A entidade repudiou os episódios e exigiu investigação imediata, proteção às comunidades ameaçadas, responsabilização dos envolvidos e apuração de possíveis omissões policiais. Em ofício e representação criminal encaminhados a órgãos federais, a assessoria jurídica da organização pediu providências ao MPF, à Polícia Federal (PF), ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao Ministério dos Povos Indígenas e ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) afirma que os homicídios contra indígenas ocorridos logo após as eleições do segundo turno não teriam relação com o resultado das eleições e estariam sendo investigadas como crimes passionais.
O coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) de Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, destaca que historicamente os Guarani Kaiowá são vítimas de violência e que a autoria apenas muda com o passar do tempo. “A violência contra eles é ininterrupta, ou seja, infelizmente é parte do cotidiano dos Kaiowá. Neste momento, entretanto, conseguimos identificar alguns episódios que têm relação direta com o resultado das eleições”, explica.
Matias destaca o caso do servidor da prefeitura de Tacuru, no sul do estado, que disse que era preciso envenenar a água dos indígenas. “É o motorista do caminhão pipa que leva água até aldeias. Isso é muito grave e gerou um pânico entre os indígenas”.
Ele destaca outro caso que tem relação direta com o resultado das eleições do último domingo. “No município de Tacuru um filho, que era bolsonarista, matou o pai lulista logo após o resultado dar a vitória ao petista”, conta.
Governo federal anuncia força-tarefa
Em nota publicada na terça-feira (27), os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Igualdade Racial informaram que atuam conjuntamente para qualificar as denúncias e solicitar a investigação dos episódios envolvendo indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro após o segundo turno.
As pastas afirmaram manter diálogo permanente por meio de uma força-tarefa destinada a acelerar as investigações e identificar os responsáveis por possíveis crimes. O comunicado condenou o uso da violência para intimidar pessoas em razão de suas posições políticas.
“É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência para reprimir e intimidar opiniões diferentes, colocando em risco a vida das pessoas”, afirmaram os ministérios.
O anúncio representa uma resposta institucional às denúncias, mas não significa que os episódios já tenham sido esclarecidos ou que os responsáveis tenham sido identificados. A apuração das ameaças, a verificação de eventuais crimes e a adoção de medidas de proteção às comunidades permanecem entre as principais demandas das organizações indígenas.
A atuação federal também ocorre em um cenário no qual o próprio governo já havia reconhecido a gravidade da violência contra os Guarani Kaiowá. Em 2023, o Ministério dos Povos Indígenas criou um gabinete de crise para acompanhar violações de direitos humanos no sul do estado. O trabalho foi prorrogado em 2025 e envolveu órgãos federais, representantes do governo estadual, o MPF, a Funai, a Apib e a Aty Guasu, assembleia que representa os Guarani Kaiowá.