A campanha de Sergio Moro (PL) ao governo do Paraná é bancada, em 91%, por dinheiro público — o Fundo Especial de Financiamento de Campanha repassado pelo PL. Mas o dinheiro privado que sobra, R$ 1,14 milhão, desenha um retrato da elite empresarial paranaense. Um único doador, o advogado Luis Felipe Cunha, colocou R$ 500 mil — quase metade de tudo. O restante vem de madeireiros de Palmas, do setor de energia, de hoteleiros de Foz do Iguaçu e de uma família da confecção de Cianorte. Moro é, de longe, o candidato a governador que mais atraiu doações de pessoas físicas: seus dois principais adversários dependem quase inteiramente do fundo público. Os dados são da prestação de contas do TSE, cruzada pela Plural com o cadastro de empresas da Receita Federal.
> Atualização dos dados: os valores refletem a prestação de contas divulgada pelo TSE em 22 de setembro de 2026. A prestação segue em aberto e pode mudar nas próximas atualizações.
Quase metade veio de um só advogado
Das 31 doações de pessoas físicas que Moro recebeu, uma se destaca de todas: Luis Felipe Cunha doou R$ 500 mil, ou 44% de todo o dinheiro privado da campanha. No cadastro da Receita, ele aparece como sócio de bancas de advocacia em Curitiba e Florianópolis. Nenhum outro doador chega perto: o segundo e o terceiro maiores deram R$ 100 mil cada.
Desde 2015, empresas estão proibidas de doar para campanhas eleitorais. Por isso, todo o dinheiro privado que entra vem de pessoas físicas — na prática, em boa parte, empresários que doam com o próprio CPF. Cruzando o CPF de cada doador com o quadro societário da Receita, é possível ver quem são: um recorte do empresariado do Paraná.
Os maiores doadores de Sergio Moro
Doações de pessoas físicas à campanha ao governo do Paraná. As cores indicam o setor do doador, segundo o cadastro da Receita. Dado do TSE (22/09/2026).
As 31 doações de pessoas físicas somam R$ 1,14 milhão — 9% da campanha; o restante (91%) é dinheiro público do Fundo Especial. Empresas não podem doar desde 2015.
Energia, madeira e a família da confecção
Logo abaixo do maior doador, aparece o setor de energia. Os irmãos Maurício e Jefferson Melhim Abou Rejaile, do grupo RDP de Curitiba — que atua em energia, etanol e logística —, doaram R$ 100 mil cada, somando R$ 200 mil.
O bloco seguinte é o da madeira do interior. João Carlos Ribeiro Pedroso, sócio de gigantes do pinus e dos compensados sediados em Palmas, no sudoeste do estado, doou R$ 30 mil; Roni Junior Marini, de outro grupo madeireiro da mesma cidade, deu igual valor. São grupos com centenas de milhões de reais em capital declarado, segundo a Receita.
De Londrina vieram as doações do casal de advogados e empresários João Alberto Graça e Denize Aparecida Cabulon Graça — R$ 50 mil cada, R$ 100 mil no total. E de Cianorte, polo têxtil do noroeste, doou um grupo de cinco pessoas com o sobrenome Nabhan, todas ligadas a empresas de confecção da região: juntas, somaram cerca de R$ 62 mil.
De Foz do Iguaçu ao mercado financeiro
Foz do Iguaçu forma outro bloco. Camilo Perpétuo Rorato, ligado ao grupo hoteleiro Carima, e os sócios da construtora Cataratas José Elias Castro Gomes e Ana Carolina Pereira doaram R$ 10 mil cada — nomes do turismo e da construção da fronteira.
Há ainda um doador do mercado financeiro: Daniel Krepel Goldberg, que doou R$ 80 mil e aparece no quadro societário do banco Agibank e da empresa de fidelização Dotz, entre outras, segundo o cadastro da Receita.
O perfil dos doadores — advogados, madeireiros, energia, hotéis, confecção, finanças — mostra uma campanha que capta em vários setores da economia paranaense, mas de forma concentrada: só os quatro maiores doadores respondem por mais de R$ 800 mil dos R$ 1,14 milhão arrecadados junto a pessoas físicas.
Moro é a exceção entre os candidatos a governador
O que torna esse retrato relevante é a comparação. Os outros dois candidatos com dinheiro na disputa pelo Palácio Iguaçu quase não têm doações privadas: Requião Filho (PDT) arrecadou R$ 22,8 mil de pessoas físicas e Sandro Alex (PSD), R$ 145,8 mil — contra R$ 1,14 milhão de Moro. As campanhas dos dois adversários são financiadas em mais de 97% pelo fundo partidário.
Ou seja: embora o volume da campanha de Moro também seja majoritariamente público (R$ 11,3 milhões de fundo eleitoral, 91% do total), ele é o único que consegue mobilizar um grupo relevante de doadores privados — e é por isso que a pergunta "quem banca Moro" tem, no caso dele, uma resposta que vai além do dinheiro público.
Como apuramos esta reportagem
Partimos da prestação de contas eleitorais do TSE (dado de 22 de setembro de 2026), que traz o nome, o CPF e o valor doado por cada pessoa a cada candidato. O TSE divulga o CPF completo; a base de empresas da Receita Federal traz o CPF dos sócios de forma parcial (mascarada). Reconstruímos a máscara a partir do CPF informado ao TSE e cruzamos exigindo nome idêntico ao do sócio, para identificar em quais empresas cada doador aparece no quadro societário. Capitais sociais e vínculos societários são os do cadastro da Receita e podem estar desatualizados. Os valores da campanha são preliminares: a prestação segue em aberto até o fim da eleição.
Perguntas rápidas
Quem mais doou para a campanha de Sergio Moro no Paraná? O advogado Luis Felipe Cunha, com R$ 500 mil — quase metade de todas as doações de pessoas físicas.
As empresas podem financiar a campanha de Moro? Não. Doações de empresas são proibidas desde 2015. Todo o dinheiro privado vem de pessoas físicas, muitas delas empresários que doam com o próprio CPF.
A maior parte do dinheiro de Moro é público ou privado? Público: 91% (R$ 11,3 milhões) vêm do Fundo Especial repassado pelo PL. As doações privadas somam R$ 1,14 milhão, 9% do total.
Os outros candidatos a governador têm muitos doadores? Não. Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD) são financiados em mais de 97% pelo fundo partidário; Moro é o que mais atrai doações privadas.