A poucos quilômetros de Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, moradores argentinos relatam dificuldades para comprar alimentos, encontrar trabalho e manter a renda. Com o aumento do custo de vida, cada vez mais pessoas têm buscado produtos no lado brasileiro da fronteira.
Para conhecer essa realidade, a reportagem do Plural foi até Puerto Iguazú, onde ouviu trabalhadores e comerciantes sobre os efeitos da crise econômica durante o governo de Javier Milei.
Os relatos contrastam com os elogios da equipe de Flávio Bolsonaro (PL) às reformas do presidente argentino, cujo programa de cortes de gastos públicos, conhecido como “tesouraço”, é apontado como inspiração pela coordenação econômica do candidato brasileiro.
Há 14 anos trabalhando como taxista, Carlos Benítez relata que o aumento dos preços e a queda no movimento de passageiros têm comprometido sua renda. “A economia não está fácil. As mercadorias aumentam todos os meses, a gasolina também, e tem poucas viagens. O que a gente ganha não alcança. Não estamos trabalhando como no ano passado. Cada vez está mais difícil”, desabafa.
Para economizar na compra de alimentos, Carlos costuma atravessar a fronteira e ir ao supermercado Amigão, no bairro Porto Meira, em Foz do Iguaçu. Ao Plural, o taxista contou que as compras no Brasil passaram a fazer parte de sua rotina diante das dificuldades financeiras que enfrenta em Puerto Iguazú.
Mãe solo, Rosa Fernández mora em uma comunidade afastada de Puerto Iguazú e percorre diariamente o trajeto até a região de fronteira, acompanhada dos filhos, para vender artesanato feito com pedras preciosas.
O dinheiro das vendas complementa a pequena pensão que recebe, insuficiente para cobrir despesas básicas, como alimentação, roupas e calçados. “A gente não consegue comprar nem o básico para comer, muito menos roupas e calçados para as crianças”, relata. Além das dificuldades financeiras, ela enfrenta problemas com a fiscalização municipal que a impede de comercializar seus produtos em uma das feiras mais tradicionais da cidade.
Pobreza e consumo
Apesar da desaceleração da inflação, a pobreza voltou a crescer na Argentina. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), 32,3% da população pesquisada em 31 aglomerados urbanos vivia abaixo da linha da pobreza no primeiro semestre de 2026, ante 28,2% no semestre anterior. O índice ainda é inferior aos 41,7% registrados antes da posse de Javier Milei, mas interrompe a trajetória de queda observada desde 2024.
A retração do consumo também atinge Misiones, província onde fica Puerto Iguazú. Em julho, as vendas dos supermercados locais, descontada a inflação, caíram 7% em relação ao mesmo mês de 2025, contra uma redução de 2,1% no conjunto da Argentina.
A inspiração brasileira
Em outubro, Flávio Bolsonaro (PL) agradeceu uma mensagem de Javier Milei e afirmou que Brasil e Argentina estariam mais próximos. Um mês antes, sua coordenadora econômica, Daniella Marques, havia classificado o presidente argentino como um “ótimo exemplo” e anunciado o mapeamento de mais de mil normas para possível revogação.
A equipe de Flávio também propõe um ajuste fiscal de aproximadamente 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), superior a R$ 200 bilhões. O candidato promete preservar aposentadorias e programas sociais, mas ainda não detalhou como pretende alcançar a meta. No estilo “Tesouraço de Milei”, sua equipe fala em reduzir cargos, privilégios e despesas administrativas, sem apresentar quanto seria economizado em cada área, tão pouco a origem dos cortes.