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Muitas promessas e poucas metas: o que dizem (e o que não dizem) os programas de governo do Paraná

O Plural leu os oito programas de governo do Paraná: 543 páginas, poucas metas concretas e números que nem sempre resistem à checagem. Com a síntese de cada candidato

Muitas promessas e poucas metas: o que dizem (e o que não dizem) os programas de governo do Paraná

Os oito candidatos ao governo do Paraná entregaram à Justiça Eleitoral programas de governo que somam 543 páginas e mais de 152 mil palavras. Lidos de ponta a ponta, os documentos revelam um padrão comum: são generosos em diagnósticos, slogans e listas de iniciativas — e avaros em metas com número e prazo. "Fortalecer", "ampliar", "modernizar", "garantir" e "promover" se repetem centenas de vezes; quanto, até quando e com que dinheiro, quase nunca aparece.

O contraste fica claro já no tamanho. O programa de Sandro Alex (PSD), candidato da continuidade e com o ex-prefeito Rafael Greca como vice, é o mais extenso — 274 páginas e 61 mil palavras, organizadas na metáfora das "Cinco Pontes" e em 25 "pilares". Boa parte, porém, recapitula resultados já obtidos pela atual gestão (a 4ª maior economia do país, a queda de 39,5% nos homicídios desde 2018); os números olham para trás, e os compromissos futuros são descritos de forma estrutural, sem cifras ou datas para o próximo mandato.

O segundo maior, de Luiz França (Missão), com 98 páginas, faz da ausência de promessas um método declarado: o texto repete que "não vai prometer" e prefere falar em auditorias, inventários e "gestão por resultados" a fixar metas quantitativas. Já o de Sérgio Moro (PL), com 92 páginas e cerca de duzentos programas nomeados, é o mais detalhado em iniciativas — mas a maioria vem descrita de forma genérica, com metas concretas concentradas em poucos pontos, sobretudo saúde (dobrar as cirurgias eletivas, atender o paciente oncológico em até 30 dias) e habitação (subsídio de até 95% para famílias com renda de até R$ 3.200).

As exceções confirmam a regra. Requião Filho (PDT) ancora em datas apenas dois compromissos — universalizar a alfabetização até o 2º ano até 2030 e zerar o ICMS estadual das micro e pequenas empresas —, enquanto o restante do plano é qualitativo. Alexandre Salomão (Mobiliza) foi o único a anexar uma tabela de "Compromissos Mensuráveis", com prazos de 100 dias, um ou dois anos; ainda assim, muitas de suas metas são processuais ("mapear", "criar equipe", "encaminhar projeto de lei") mais do que resultados finais verificáveis.

Curiosamente, os programas mais ricos em números vêm da esquerda que disputa com menos chances. Samuel de Mattos (PSTU) e Tayná Miessa (UP) enchem seus textos de estatísticas (letalidade policial, déficit habitacional, concentração econômica) e de metas explícitas — mas amarradas a rupturas que fogem à alçada de um governo estadual, como expropriações sem indenização e o fim da Polícia Militar. No extremo, Adriano Funileiro (PCO) entrega o programa nacional do partido, idêntico em todos os estados, que abre admitindo não usar as eleições "para fazer promessas".

E quando os programas trazem números, nem todos resistem à checagem. O Plural confrontou as principais estatísticas dos oito documentos com fontes oficiais. Boa parte dos indicadores da atual gestão, usados sobretudo por Sandro Alex e Alexandre Salomão, confere: o Paraná é mesmo a 4ª maior economia do país (IBGE/Ipardes), fechou 2025 com desemprego de 3,5% (PNAD/IBGE), tem a nota máxima de capacidade de pagamento do Tesouro (Capag A+), lidera o IDEB desde 2023 (INEP) e alcançou a menor taxa de homicídios de sua história, 9,9 por 100 mil, com queda de 39,5% desde 2018 (SESP-PR e Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Outras alegações, porém, não se sustentam. Tayná Miessa (UP) afirma que o estado tem a "4ª maior população carcerária, com 40 mil presos" — na verdade, o Paraná é o com mais presos no país, cerca de 109 mil (Anuário FBSP 2026). Sérgio Moro (PL) diz que o Paraná aplicou "apenas 12,2% da receita em saúde, o pior índice entre os estados": o percentual real de 2025 foi de 12,67% (o 12,2% é de 2024) e não é o pior — Rio Grande do Norte (7%) e Rio Grande do Sul (10,5%) aplicam menos. Sandro Alex (PSD) exibe um PIB de "R$ 765 bilhões em 2025" que ainda é projeção, já que o dado oficial vai até 2024 (R$ 718,9 bilhões). E Samuel de Mattos (PSTU) atribui a 2025 as 413 mortes por intervenção policial que, segundo os órgãos de segurança, são de 2024 — em 2025 o número foi maior.

Há ainda números sem lastro público: Samuel sustenta que "2% das empresas concentram 70% da produção" do estado, e Salomão fala em um déficit de "16 mil a 21 mil" policiais — dados que a reportagem não encontrou em nenhuma fonte oficial. O padrão que emerge é revelador: os candidatos ligados ao governo acertam os bons indicadores, por vezes esticando-os para projeções ainda não medidas; a oposição de esquerda acerta o diagnóstico social, mas erra rankings e datas; e Moro tende a escolher, a cada estatística, a versão mais desfavorável à gestão que quer suceder.

Há um ingrediente novo por trás de parte dessa uniformidade genérica: a inteligência artificial. Três dos oito candidatos — Moro, Sandro Alex e Luiz França — informam, em notas nos próprios documentos, ter usado ferramentas de IA para gerar ilustrações ou consolidar e uniformizar o texto. O recurso ajuda a explicar a prosa padronizada e o vocabulário corporativo que atravessa os planos, do "ecossistema" à "governança orientada por dados".

A vagueza não é ilegal nem exclusiva do Paraná. A lei obriga o candidato a registrar uma proposta de governo, mas não exige que ela seja específica, mensurável ou cumprida — e, na prática, esses documentos raramente são cobrados depois da eleição. O resultado é que o programa, peça que deveria ser um contrato com o eleitor, funciona muitas vezes como carta de intenções e material de campanha.

Para que o leitor possa julgar por conta própria, o Plural leu e sintetizou os oito programas e disponibiliza, em cada perfil de candidato, o PDF oficial na íntegra. É possível comparar, lado a lado, quem se comprometeu com o quê — e quem preferiu ficar no "vamos fortalecer".


Os programas, um a um

Sínteses produzidas pela redação a partir dos programas oficiais registrados no TSE. O documento na íntegra (PDF) está no perfil de cada candidato.

Sandro Alex (PSD)

Eixos: Segurança (Paraná em Paz) · Saúde (Paraná Sem Fila) · Educação (Trajetória Paraná) · Economia (Motor Paraná) · Infraestrutura e meio ambiente · Gestão, governo digital e legado

O plano de governo de Sandro Alex (PSD) se apresenta explicitamente como continuidade da atual gestão estadual, sob os lemas "A mudança continua" e "Pra Frente Sempre, Paraná", e tem Rafael Greca (ex-prefeito de Curitiba) como candidato a vice. O documento é longo e fortemente estruturado em torno de uma metáfora — as "Cinco Pontes" (Cuidado, Prosperidade, Transformação, Confiança e Legado), desdobradas em 25 "pilares estratégicos" —, apoiado no que chama de "Modelo Paraná de Gestão". Boa parte do texto recapitula resultados atribuídos ao governo atual (Paraná como 4ª economia do país, PIB estimado em R$ 765 bilhões em 2025, desemprego de 3,5%, queda de 39,5% nos homicídios entre 2018 e 2025). O compromisso central é consolidar o Paraná como a 3ª maior economia do Brasil ao longo da década.

Em segurança pública (eixo "Paraná em Paz"), propõe ampliar a presença preventiva com bases de fronteira, batalhões regionalizados e polícia rural; usar inteligência artificial, perícia e bancos de dados no combate a facções; integrar os serviços de emergência num número único (190/193) com apoio de drones; modernizar o sistema prisional com foco em trabalho e ressocialização; e criar um Protocolo Estadual de Risco contra o feminicídio. Na saúde ("Paraná Longevo"), o carro-chefe é o Paraná Sem Fila, com ampliação do Opera Paraná para cirurgias eletivas, regulação transparente com metas regionais, rotas de diagnóstico ágil começando pelo câncer, atenção domiciliar e saúde digital.

Na educação ("Trajetória Paraná"), as propostas incluem alfabetização na idade certa, recomposição de aprendizagens com apoio de IA, valorização de professores, criação de escolas bilíngues (português-inglês) e expansão da educação profissional. No eixo econômico ("Motor Paraná"), prevê organizar o financiamento ao desenvolvimento (Fomento Paraná, BRDE, crédito verde), conectar grandes investimentos a fornecedores locais, apoiar indústria avançada, cooperativismo, agro, turismo e economia criativa. Infraestrutura e meio ambiente aparecem na "Ponte da Transformação": Energia 2055 e Logística 2055 (renováveis, biogás, hidrogênio, hidrovias), habitação, mobilidade, universalização do saneamento pela Sanepar, restauração florestal e bioeconomia.

Completam o desenho a transformação digital ("Paraná Soberano": conectividade universal, governo inteligente, IA pública, cibersegurança), a gestão ("Ponte da Confiança": responsabilidade fiscal, com a nota Capag A+, simplificação de serviços, integridade e dados abertos) e o planejamento de longo prazo ("Ponte do Legado": Plano Paraná 2055, revisto a cada cinco anos, e um "Conselho de Próximas Gerações").

O tom geral é otimista, tecnocrático e de continuidade, com forte apoio em dados retrospectivos do atual governo e vocabulário de gestão por resultados. Cada programa segue um padrão repetitivo ("Como vamos fazer?" e "O que vamos alcançar?"). Predominam propostas estruturantes e qualitativas; metas numéricas e prazos concretos para o próximo mandato são escassos — a maioria dos números citados refere-se a resultados já obtidos. Uma nota metodológica final informa que ferramentas de IA generativa foram usadas como apoio de redação e diagramação.

Programa extenso e estruturado nas 'Cinco Pontes', de continuidade ao atual governo, rico em resultados passados, mas com poucas metas numéricas e prazos concretos para o próximo mandato. Usou IA como apoio de redação/diagramação.

Sergio Moro (PL)

Eixos: Segurança e combate ao crime organizado · Combate à corrupção e integridade · Saúde · Educação · Economia e investimentos · Infraestrutura e logística

O plano de governo de Sergio Moro (PL) e do vice Edson Vasconcelos, intitulado "Fortaleza Paraná" e voltado ao período 2027-2030, é um documento extenso (88 páginas) que organiza as propostas em cinco pilares: Desenvolvimento Social (educação, cultura, esporte, saúde e assistência social); Desenvolvimento Econômico Sustentável (agricultura, indústria, comércio, turismo, inovação, investimentos, trabalho e meio ambiente); Desenvolvimento das Cidades e Infraestrutura (habitação, mobilidade, saneamento, logística, energia e conectividade); Gestão Pública Íntegra e Eficiente; e Segurança, Justiça e Combate à Corrupção. Como eixo transversal, propõe um modelo de "Governança Regionalizada", com Fóruns Regionais permanentes, gestão municipalista e diagnósticos territoriais para descentralizar decisões.

Segurança e combate à corrupção — marca da trajetória do candidato — recebem destaque com propostas concretas: criação de forças-tarefa de investigação "aos moldes da Operação Lava Jato", uma Agência Anticorrupção com diretor de mandato fixo, uma carreira de auditor público concursado, um presídio estadual de segurança máxima para isolar lideranças de facções, o programa Fronteira Segura (com base aérea permanente em Foz do Iguaçu) e um sistema de videomonitoramento com inteligência artificial. O texto também cita o objetivo de acabar com as "cracolândias" "como fez São Paulo" e criar um código de ética para a alta administração.

Na saúde, o programa parte de um diagnóstico crítico (afirma que o Estado investiu apenas 12,2% da receita em 2025, o pior índice entre os estados) e propõe a criação de uma "Tabela SUS Paranaense", espelhada na experiência paulista, com a meta declarada de dobrar o número de cirurgias eletivas; prevê ainda atendimento ao paciente oncológico em até 30 dias após o diagnóstico, a digitalização de filas e prontuários e a construção de um Hospital do Trabalhador na região norte de Curitiba. Na educação, cita indicadores desfavoráveis (20% das crianças não alfabetizadas até o 2º ano, 52% dos alunos do Médio abaixo do nível adequado) e propõe restabelecer disciplina em sala, ampliar escolas cívico-militares e valorizar professores.

Na economia e infraestrutura, o plano enfatiza atração de investimentos, desburocratização, apoio ao agronegócio e às cooperativas, e a intenção de reduzir gradualmente a alíquota de tributos sobre o consumo (ICMS/IBS) diante da reforma tributária. Lista dezenas de obras rodoviárias específicas (contornos de Curitiba, Londrina, Cascavel e outras cidades, duplicações e a nova "Estrada da Limeira" de acesso ao litoral), além de ferrovias, ampliação do Porto de Paranaguá e a terceira pista do Aeroporto Afonso Pena. Em habitação, detalha o programa "Casa Própria Paraná", com subsídio de até 95% para famílias com renda de até R$ 3.200.

O tom geral é o de um programa liberal-conservador na economia e na gestão, com forte apelo a segurança pública, integridade e combate à corrupção, permeado por linguagem de marketing e slogans ("Fortaleza", "o Paraná em primeiro lugar"). É um documento muito detalhado no número de iniciativas — cerca de duzentos programas nomeados —, mas a maioria descrita de forma genérica ("fortalecer", "ampliar", "modernizar"), com metas quantificadas concentradas em poucos pontos (sobretudo saúde e educação). Uma nota final informa que as ilustrações do documento foram geradas por inteligência artificial.

Programa longo e abrangente (88 páginas, cinco pilares, ~200 programas nomeados), com destaque para segurança e anticorrupção; rico em iniciativas, mas a maioria descrita de forma genérica, com metas quantificadas só em pontos de saúde e educação. As ilustrações foram feitas por IA.

Requião Filho (PDT)

Eixos: Estado presente e proteção do patrimônio público · Saúde regionalizada e educação (alfabetização) · Segurança, desenvolvimento dos municípios e proteção social

O plano de governo de Requião Filho (PDT), intitulado "O Paraná que cuida", organiza-se em torno da ideia de um Estado presente que transforma orçamento e patrimônio público em serviços contínuos. O documento defende a proteção do patrimônio público, condicionando privatizações a avaliação independente e transparência, e propõe manter sob controle público a Celepar, a Sanepar, a Ferroeste e os portos, além de auditar a privatização da Copel e manter aberta a possibilidade de recuperar seu controle quando houver viabilidade jurídica e econômica.

Na área econômica e tributária, o programa promete zerar a carga estadual de ICMS de micro e pequenas empresas durante a transição para o IBS, revisar incentivos fiscais para encerrar privilégios sem retorno, e fortalecer o crédito público via Fomento Paraná, BRDE e microcrédito. Vincula incentivos industriais a contrapartidas de emprego, salário e permanência no estado. Para os 399 municípios, propõe assistência técnica, um Banco Estadual de Projetos e critérios públicos de distribuição de recursos.

Em saúde, prevê elevar gradualmente a aplicação estadual, criar uma fila única e transparente para exames, consultas e cirurgias, retomar princípios do HOSPSUS, ampliar CAPS e saúde mental, e criar Hospitais Regionais da Mulher e da Infância. Na educação, compromete-se a universalizar a alfabetização até o 2º ano até 2030, encerrar o programa Parceiro da Escola devolvendo a gestão ao poder público, revisar o modelo cívico-militar mediante avaliação independente, e valorizar professores com concursos e eleição de diretores.

Em segurança pública, propõe concursos periódicos para repor e ampliar as polícias, presença policial permanente nos 399 municípios como horizonte, central integrada de emergência, ampliação de câmeras corporais e presídios industriais públicos. O programa também detalha eixos de infraestrutura e mobilidade (pedágio sob controle público), agricultura familiar (Trator e Insumo Solidário), habitação com Banco Estadual de Terras, meio ambiente e proteção social — incluindo secretaria própria para pessoas com deficiência e a retomada do Leite das Crianças.

O tom geral é de contraste explícito com a gestão anterior (reversão de privatizações, fim de programas de terceirização escolar) e de ênfase em compromissos apresentados como "verificáveis", embora muitas metas sejam qualitativas e sem prazos ou valores numéricos definidos, com exceções pontuais como a alfabetização até 2030 e a redução gradual do ICMS.

Plano abrangente com forte ênfase em controle público de estatais e reversão de medidas da gestão atual, mas com metas majoritariamente qualitativas e poucos números ou prazos concretos.

Luiz França (MISSÃO)

Eixos: Reforma e enxugamento do Estado · Transparência e gestão por resultados · Desenvolvimento produtivo, IA e infraestrutura · Educação, saúde e segurança · Municípios e política social pela autonomia

O plano de governo de Luiz França (Missão) para o Paraná abre com um extenso manifesto, o "Espírito Pioneiro", que define uma moldura ideológica: o governo se apresenta como adversário do que chama de "conchavo" (troca de favores) e do "assistencialismo", que descreve como geradores de dependência, em oposição a mérito, trabalho e autonomia. Uma nota metodológica informa que o texto partiu do "Livro Amarelo" do partido, foi desenvolvido por grupos de trabalho temáticos e consolidado com apoio de ferramentas de inteligência artificial para uniformização editorial.

O documento se organiza em 16 "compromissos". O primeiro bloco trata de reforma e enxugamento do Estado: reorganização administrativa nos primeiros cem dias, "Auditoria Gerencial da Máquina Estadual", revisão de contratos, inventário de imóveis e frota, avaliação de fundos, estatais e benefícios fiscais, e aplicação integral do teto remuneratório. A regra declarada é que o governo "corta primeiro dentro de casa" antes de pedir sacrifício ao cidadão. Outros compromissos propõem o "Paraná Resolve" (integração dos canais de atendimento), um "Censo de Capacidade Estatal" e a "Lei Paranaense de Responsabilidade Gerencial", que somaria à responsabilidade fiscal a cobrança por resultados verificáveis.

No eixo econômico, prevê uma Política Estadual de Desenvolvimento Produtivo com o "Paraná Grandes Projetos", integração industrial das cadeias para agregar valor no estado, e um capítulo dedicado à inteligência artificial como "infraestrutura", com defesa de capacidade computacional e centros de dados próprios. Há ainda a reorientação do Fundo Paraná para ciência e inovação, uma "Carteira Paranaense de Recursos Estratégicos" para minerais críticos e terras raras, e a abertura pública da carteira de obras. O fortalecimento dos municípios aparece via consórcios, centrais regionais de compras e núcleos de engenharia compartilhados.

Nos serviços essenciais, a educação tem como meta "fazer o básico bem-feito", com prioridade a Língua Portuguesa e Matemática e avaliação pela aprendizagem. A saúde propõe uma "fila viva" ordenada por risco clínico, jornada contínua de cuidado e equipe de referência para pacientes crônicos. A segurança pública promete institucionalizar resultados com o governador conduzindo pessoalmente a política, citando a experiência de Goiás. A política social e habitacional é orientada à "autonomia", acompanhando a trajetória dos beneficiários.

O tom geral é técnico, cauteloso e centrado em método e governança, mais do que em promessas numéricas: o texto repetidamente afirma o que "não prometerá" e evita metas quantitativas, ancorando-se em prazos processuais ("primeiros cem dias", balanços ao fim do "primeiro ano"). Predominam mecanismos de auditoria, transparência e indicadores; propostas concretas com cifras ou percentuais são raras. A ênfase em "não prometer", "medir resultado" e "cortar privilégio" confere unidade ao documento, que se apresenta menos como lista de obras e mais como um "método" de gestão, sob o lema "Muitas origens. Um só Paraná".

Plano ideológico e centrado em método e governança, com abundância de mecanismos de auditoria e transparência, mas escassez de metas numéricas. Uso de IA declarado na consolidação editorial do texto.

Alexandre Salomão (MOBILIZA)

Eixos: Educação e formação de talentos · Prosperidade, logística e responsabilidade fiscal · Saúde e segurança com valorização policial

O plano de governo de Alexandre Salomão (Mobiliza), com a vice Daiana Criminacio, se apresenta como uma proposta de centro-direita, de valores liberais, que busca "furar a bolha do extremismo" e governar com base em dados e evidências. O documento parte de um diagnóstico que reconhece conquistas atuais do Paraná — 4ª maior economia do país, liderança nacional no IDEB desde 2023, menor proporção de cargos comissionados do Brasil (1,35%) e nota máxima de capacidade de pagamento (Capag A+) — e afirma querer aprimorá-las, ao mesmo tempo em que enfrenta déficits que as médias escondem. Está organizado em seis eixos, cada um com propostas que citam experiências de outros estados (Ceará na alfabetização, Espírito Santo na segurança, São Paulo na saúde).

Em Educação, propõe ampliar creches, aprofundar o programa Educa Juntos incorporando o modelo de alfabetização do Ceará, concluir a eliminação de salas de madeira e a climatização, calendário regular de concursos docentes e revisão transparente das parcerias privadas na gestão escolar (como o Parceiro da Escola). Os eixos de Neurodiversidade, Cultura e Paraná dos Talentos, associados à vice, preveem levantar dados hoje inexistentes, criar orçamento próprio e recorrente para a cultura e transformar em trilhas formais no contraturno atividades como esporte, arte e empreendedorismo.

No eixo Prosperidade, o foco é logística e desenvolvimento: priorizar a Nova Ferroeste e o Moegão do Porto de Paranaguá (elevar de 550 para 900 vagões/dia), avaliar a Hidrovia Paraná-Paraguai e manter a atração de investimentos. Na gestão fiscal, trata a transição da Reforma Tributária (troca do ICMS pelo IBS) como o maior risco para um estado produtor e exportador, e propõe equipe técnica dedicada e defesa de compensações.

No eixo Saúde e Segurança, propõe criar uma "Tabela SUS Paranaense" para socorrer Santas Casas e filantrópicos, além de dar continuidade às cirurgias eletivas do Opera Paraná. Em segurança, admite déficit crônico de efetivo policial (16 mil a 21 mil ante 27 mil previstos) e recorde de suicídios na corporação (44 casos); propõe fechar o déficit com concursos, um plano de saúde mental da tropa, monitoramento territorializado (modelo Estado Presente/ES) e uma emenda constitucional instituindo mandato fixo de dois anos para os comandos das polícias.

O tom geral é técnico, comparativo e autodeclaradamente transparente, com ênfase em institucionalizar políticas via projetos de lei e emendas para que sobrevivam a trocas de gestão. O documento encerra com uma tabela de "Compromissos Mensuráveis" que fixa prazos de referência (100 dias, 1º ano, 2 anos ou ciclo de governo), embora várias metas sejam de caráter processual (mapear, criar equipe, encaminhar projeto) mais do que resultados numéricos finais.

Plano detalhado e ancorado em dados oficiais, com propostas concretas por eixo, mas cujas metas quantificadas se concentram em segurança, enquanto vários compromissos são processuais e de médio a longo prazo.

Tayná Miessa (UP)

Eixos: Tributação progressiva e orçamento participativo · Segurança: fim da letalidade policial e desmilitarização · Educação sem cívico-militares e passe livre · Saúde na atenção primária, sem PPPs · Moradia, cultura, mulheres e transporte estatizado

O programa de Tayná Miessa, da Unidade Popular pelo Socialismo (UP), parte de um diagnóstico explicitamente anticapitalista: sustenta que administrar melhor o capitalismo não basta e defende "construir o socialismo no Paraná", colocando os movimentos sociais e a classe trabalhadora no centro das decisões. O texto invoca tradições de luta popular (Contestado, Porecatu, quilombos, sem-terra) e critica governos anteriores, em especial a gestão Ratinho, pelas privatizações da Copel e Sanepar e pela tentativa de privatizar a Celepar.

Na economia e finanças, defende reverter incentivos fiscais sem contrapartida e adotar tributação progressiva sobre grandes rendas, patrimônios e propriedades ("quem ganha mais, paga mais"). Propõe orçamento participativo com aprovação por referendo, fim das terceirizações no setor público, um Instituto Estadual de Fomento à Inovação, frentes de trabalho em infraestrutura e incentivo a indústrias de tecnologia limpa e cooperativas.

Em segurança pública, critica o encarceramento em massa e o aumento de 38% da letalidade policial na gestão Ratinho, e propõe câmeras corporais com auditoria independente, redução do uso da força letal, registro obrigatório de raça/cor nas ocorrências, um Conselho Estadual de Segurança Cidadã com 50% de sociedade civil e apoio à desmilitarização das polícias. Na educação, defende o fim dos colégios cívico-militares e do Parceiro da Escola, passe livre estudantil, ampliação de cotas e concursos.

Nas demais áreas prevalece a lógica de desmercantilização e ampliação de serviços públicos. Em saúde, propõe fim das PPPs e foco na atenção primária (metas de destinar 40-50% dos recursos à atenção básica). Em moradia, cita déficit de meio milhão de famílias e 102 mil imóveis vazios em Curitiba, propondo moradias 100% subsidiadas, IPTU progressivo, aluguel social e desapropriação de imóveis sem função social. Há ainda eixos de cultura, étnico-racial, mulheres (delegacias 24h, casas-abrigo) e transporte público estatizado.

O tom geral é combativo, ideológico e de esquerda socialista, com farta base de dados (IBGE, Ipardes, UFPR) para embasar críticas ao modelo vigente. As propostas mesclam metas concretas e quantificadas com formulações mais programáticas, e várias dependem de articulação federal ou de mudanças legais e constitucionais que extrapolam a alçada de um governo estadual.

Programa socialista e anticapitalista que propõe forte ampliação do papel do Estado e desprivatização dos serviços, com muitas metas concretas, mas várias medidas dependem de mudanças federais ou constitucionais fora da competência estadual.

Samuel de Mattos (PSTU)

Eixos: Socialismo, expropriação e conselhos populares · Saúde 100% pública e estatal · Segurança: fim da PM e descriminalização das drogas · Reforma agrária e transição agroecológica · Combate às opressões e direitos trabalhistas

O programa de governo de Samuel de Mattos (PSTU) se apresenta explicitamente como um projeto socialista e revolucionário, orientado pela "independência de classe" e pela superação do capitalismo. O texto abre delimitando o socialismo que defende (rejeitando os modelos de Cuba, China e Venezuela) e afirma que o Estado é um instrumento de dominação. Defende a expropriação, sem indenização, dos grandes meios de produção e a gestão da economia por conselhos populares. Como retrato socioeconômico, sustenta que 2% das empresas concentram 70% da produção estadual e cita cinco companhias (Copel, Klabin, Coamo, Sanepar e Rumo) com lucro somado de R$ 12,78 bilhões em 2025.

Na saúde, o eixo mais detalhado, propõe um SUS "100% público, gratuito e estatal": extinção da FUNEAS, das OSs, PPPs e consórcios, reestatização dos 24 hospitais estaduais, concurso público para suprir déficit de mais de 3.500 profissionais, garantia de aborto legal pelo SUS e atendimento especializado a pessoas LGBTI+. Na segurança pública, defende o fim da Polícia Militar, unificação das polícias em instituição civil sob controle popular, descriminalização total das drogas e revogação da Lei de Drogas, apontando 413 mortes por intervenção policial em 2025 no estado.

Na questão agrária, prega reforma agrária ampla com expropriação do agronegócio sem indenização, demarcação de terras indígenas e quilombolas, rejeição do Marco Temporal e transição agroecológica com banimento de agrotóxicos. O combate às opressões (racismo, machismo, LGBTfobia) é tratado como parte estrutural da luta de classes, com propostas como fim da escala 6x1, redução da jornada para 30h sem redução salarial, delegacias da mulher 24h e cotas raciais e trans nas universidades estaduais.

Os demais eixos seguem a mesma lógica de estatização e controle popular: reforma urbana com expropriação de imóveis vazios (o texto afirma haver mais de 540 mil imóveis vagos), fim dos despejos e IPTU progressivo; "tarifa zero real" via confisco das empresas de ônibus e criação de empresa pública de transporte; reconhecimento do vínculo empregatício dos trabalhadores de aplicativos; e soberania digital com fortalecimento da Celepar.

O tom geral é fortemente ideológico, doutrinário e crítico — dirige ataques nominais ao governo Ratinho Jr. e também aos governos Lula/PT e ao PSOL. Embora o documento combine muitas propostas concretas e metas numéricas com farta base estatística, a maioria das medidas estruturais depende de rupturas radicais (expropriações sem indenização, dissolução de instituições) que o próprio texto assume como horizonte estratégico, e não como gestão administrativa do estado.

Programa de matriz socialista revolucionária, rico em dados e propostas concretas, mas ancorado em medidas de ruptura (expropriações sem indenização, estatizações) e com forte carga doutrinária.

Adriano Funileiro (PCO)

Eixos: Salário, emprego e revogação das reformas · Estatização e fim das privatizações · Serviços públicos universais e gratuitos · Reforma agrária e fim do latifúndio · Ruptura institucional revolucionária

O documento não é um programa de governo estadual convencional, mas o programa de campanha nacional do Partido da Causa Operária (PCO), idêntico em todos os estados. Já na abertura, o texto afirma que o partido "não participa das eleições para fazer promessas" e trata o pleito como "uma tribuna (e apenas mais uma) de propaganda" e um "terreno secundário" da luta de classes, sustentando que as conquistas dos trabalhadores não virão pelo voto, mas pela mobilização revolucionária. O lema central é a defesa da "Revolução, do Governo Operário e do Comunismo".

O núcleo econômico e trabalhista concentra as propostas mais concretas: reposição integral de 100% das perdas salariais e aumento emergencial de 50% dos salários, escala móvel de reajuste automático, e um salário mínimo que "hoje não poderia ser menor que R$ 7.500". Defende ainda redução da jornada para 35 horas semanais, proibição de demissões e despejos, revogação das reformas trabalhista e da Previdência, e anulação das dívidas dos trabalhadores com o sistema financeiro.

Em serviços públicos e recursos naturais, propõe fim do teto de gastos e da Lei de Responsabilidade Fiscal, ensino público gratuito com livre ingresso nas universidades, piso de R$ 8,5 mil para professores e R$ 8 mil para profissionais de saúde. Prega o cancelamento de todas as privatizações e a reestatização de empresas como Eletrobras e Vale, Petrobras 100% estatal, nacionalização sem indenização das reservas minerais e criação de estatal para as terras raras.

O programa também avança sobre segurança, Justiça, terra e comunicação, com teses de forte carga ideológica: reforma agrária com expropriação do latifúndio, dissolução da Polícia Militar e formação de "comitês de autodefesa", cancelamento da concessão da Rede Globo e estatização dos grandes meios de comunicação, além do fim do STF, com eleição de juízes por voto popular.

O tom geral é abertamente doutrinário e programático-revolucionário, não gerencial: as medidas são apresentadas como bandeiras de luta a serem conquistadas pela mobilização das massas, e não como plano de gestão executável a partir do governo estadual do Paraná.

É o programa nacional único do PCO para as Eleições 2026, idêntico em todos os estados, sem propostas específicas para o Paraná.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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