Curitiba tem hoje mais gente trabalhando com carteira assinada do que em qualquer outro momento desde 2019. Ao fim de 2025, a capital paranaense reunia 1.026.150 vínculos formais, segundo a RAIS — o recorde da série. E os dados mais recentes do Novo CAGED confirmam que o emprego seguiu crescendo em 2026: de janeiro a julho, a cidade abriu 17.032 vagas líquidas, o maior saldo absoluto entre os 399 municípios do Paraná.
À primeira vista, é um retrato de pujança. Um olhar mais atento nos números, porém, revela três sinais que merecem atenção: Curitiba cresce mais devagar que o país, perde ritmo dentro de 2026 e vem gerando, sobretudo, empregos de baixa remuneração.
A série histórica da RAIS mostra que, entre 2019 e 2025, Curitiba ganhou 126.969 empregos formais — uma alta de 14,1%. É um avanço consistente, mas modesto quando comparado ao do restante do país: no mesmo período, o emprego formal brasileiro cresceu 30%, mais que o dobro do ritmo curitibano. A capital paranaense, em outras palavras, perdeu participação relativa no mercado de trabalho nacional ao longo da retomada.
A trajetória também foi acidentada. Curitiba perdeu 35 mil vínculos em 2020, no auge da pandemia, e levou dois anos para recompor o estoque. A recuperação veio forte em 2021 (+42 mil) e 2022 (+30 mil), desacelerou bruscamente em 2024, quando abriu apenas 11,6 mil vagas no ano inteiro, e voltou a ganhar tração em 2025 (+43,4 mil, o melhor resultado do período). Esse vaivém sugere um mercado sensível ao ciclo econômico e sem uma tendência de aceleração sustentada.
O fôlego que diminui em 2026
O Novo CAGED, que mede o fluxo mensal de admissões e desligamentos, capta o momento mais recente — e ele é de perda de ritmo. Depois de começar bem, com saldos de 6,6 mil vagas em janeiro e 7 mil em fevereiro, Curitiba viu o emprego formal encolher em abril (−3,2 mil) e maio (−541), recuperando apenas parte do terreno em junho e julho. A rotatividade é altíssima: foram 349 mil admissões e 332 mil desligamentos em sete meses para um saldo líquido de 17 mil — cerca de 40 movimentações (contratações e demissões somadas) para cada vaga que efetivamente sobrou, ou 20 contratações para cada posto líquido criado.
O dado mais revelador, porém, está na composição desse saldo. Praticamente todo o crescimento do emprego formal em Curitiba em 2026 veio de um único setor: os serviços administrativos, que reúnem terceirização, limpeza, vigilância e telemarketing. Sozinho, esse segmento respondeu por 10.425 das 17 mil vagas líquidas — 61% do total. São, em geral, ocupações de baixa remuneração e alta rotatividade. Atrás dele aparecem, a distância, educação (+2,1 mil), saúde (+1,3 mil) e construção (+1,2 mil).
Na contramão, os setores de maior valor agregado — justamente aqueles que sustentam a imagem de Curitiba como polo de inovação — vêm perdendo postos. O setor de informação e comunicação, que abriga boa parte das empresas de tecnologia, teve saldo negativo de 662 vagas em 2026. E a economia criativa como um todo — medida pelas ocupações de designers, arquitetos, jornalistas, publicitários, artistas e profissionais de TI — perdeu 807 vínculos no período, fazendo de Curitiba a cidade que mais puxou para baixo o saldo criativo do Paraná. A "cidade inteligente", que se vende como capital da tecnologia, gera vagas sobretudo em serviços terceirizados de baixa remuneração, enquanto os setores de tecnologia e da economia criativa fecham postos.
Essa distinção importa porque se traduz em renda. Pela RAIS, o trabalhador da economia criativa em Curitiba ganha, em média, R$ 8.754 por mês — 64% acima da média geral da cidade, de R$ 5.354. Quando o emprego que cresce é o de menor qualificação e o que encolhe é o mais bem pago, o efeito sobre a massa salarial e sobre a qualidade do mercado de trabalho é mais negativo do que o saldo total, positivo, deixa transparecer.
Curitiba no Paraná
Isso não faz de Curitiba um caso de fracasso — a capital ainda é, disparado, a maior geradora de empregos do estado, respondendo por cerca de um quarto de todo o saldo formal paranaense de 2026. Mas cidades médias do interior mostram dinamismo proporcionalmente maior: Toledo (+4,1 mil), Maringá (+3,2 mil), Londrina (+2,9 mil) e Cascavel (+2,2 mil) aparecem logo atrás da capital em números absolutos, apesar de terem uma fração da sua população. É mais um sinal de que o eixo do crescimento no Paraná vem se descentralizando.
O mercado de trabalho de Curitiba não está em crise — está em marcha lenta e desequilibrada. O estoque de empregos é recorde, o saldo de 2026 é positivo e a cidade lidera o Paraná. Mas a expansão de longo prazo ficou abaixo da média nacional, o ritmo perde força ao longo do ano e a criação de vagas se apoia em serviços de baixa remuneração, enquanto a tecnologia e a economia criativa — os setores que a cidade elegeu como sua vocação — recuam. Para uma capital que aposta suas fichas na inovação, o desafio não é gerar emprego, e sim gerar o emprego certo.
Como este levantamento foi feito
A reportagem combina as duas fontes oficiais do emprego formal, que se complementam. A RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Emprego, é o censo anual do emprego com carteira: registra o estoque de vínculos ativos em 31 de dezembro, com detalhe de município, setor, ocupação e salário. Foi usada para a série histórica de Curitiba, de 2019 a 2025 — o ano mais recente publicado.
O Novo CAGED é o cadastro mensal que registra cada admissão e cada desligamento, permitindo acompanhar o fluxo quase em tempo real. Foram processadas as movimentações de janeiro a julho de 2026, calculando o saldo oficial (movimentações regulares mais as declaradas fora do prazo, menos as exclusões) e isolando o município de Curitiba. Os setores seguem a classificação de atividades da CNAE; a economia criativa foi recortada pelas ocupações (CBO), reunindo o núcleo criativo. Os salários citados vêm da RAIS, e não do CAGED, porque o campo de remuneração do cadastro mensal mistura unidades (mensal, por hora, por dia) e distorce médias. As duas bases têm universos um pouco distintos — o CAGED capta menos o funcionalismo estatutário —, por isso a RAIS é usada para medir níveis e a estrutura, e o CAGED, para medir a tendência mais recente.