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Mercado de trabalho cria quase 1 milhão de vagas em 2026, mas perde fôlego mês a mês

O emprego formal brasileiro atingiu o recorde de 60,7 milhões de vínculos ao fim de 2025 e seguiu positivo em 2026 — puxado por construção, serviços e indústria. Mas o ritmo de contratação vem caindo desde março, e alguns setores já operam no vermelho

Mercado de trabalho cria quase 1 milhão de vagas em 2026, mas perde fôlego mês a mês
Foto: Josue Isai Ramos Figueroa / Unsplash

O mercado de trabalho formal brasileiro chega ao segundo semestre de 2026 numa posição confortável, mas visivelmente mais cansada do que no início do ano. Entre janeiro e julho, o país abriu 967.783 vagas com carteira assinada, resultado de 16,4 milhões de admissões contra 15,4 milhões de desligamentos, segundo os dados mais recentes do Novo CAGED, o cadastro mensal do Ministério do Trabalho e Emprego. É um saldo robusto em termos absolutos — mas que esconde uma perda de fôlego clara ao longo dos meses.

O ponto de partida é sólido. Os microdados da RAIS, o censo anual do emprego formal, mostram que o Brasil fechou 2025 com 60,7 milhões de vínculos ativos — o maior estoque já registrado. Desde 2019, foram criados quase 14 milhões de empregos formais líquidos, uma expansão de 30% em seis anos. A trajetória impressiona sobretudo pela recuperação: depois de encolher 1% em 2020, no auge da pandemia, o emprego formal cresceu 5,4% em 2021, 8,3% em 2022 e manteve altas de 5,7%, 3,5% e 5,0% nos anos seguintes. O mercado não apenas recuperou o que havia perdido, como mudou de patamar.

Um motor que perde rotação

O que os números de 2026 acrescentam a esse quadro é o sinal de desaceleração. O saldo mensal de vagas, que vinha forte no primeiro trimestre — com picos de 260 mil em fevereiro e 245 mil em março —, murchou na sequência: caiu para 88 mil em abril e 67 mil em maio, teve um repique em junho (153 mil) e voltou a recuar em julho, quando somou apenas 51 mil vagas, o pior resultado do ano. Em outras palavras: o emprego segue crescendo, mas cada vez mais devagar.

A rotatividade também chama atenção. Foram mais de 31 milhões de movimentações — admissões e desligamentos somados — em apenas sete meses, para um saldo líquido de menos de 1 milhão. Isso significa que, para cada vaga efetivamente criada, o mercado movimentou cerca de 32 contratos: um retrato da alta rotação que caracteriza o emprego formal brasileiro, em que a diferença entre quem entra e quem sai é pequena diante do fluxo total.

Quem está contratando

A geração de empregos em 2026 tem donos claros. A construção civil lidera com folga, com saldo de 178,8 mil vagas no acumulado do ano — reflexo do aquecimento de obras e do setor imobiliário. Logo atrás vêm os serviços administrativos (148,2 mil), que incluem terceirização, limpeza e vigilância, e a indústria de transformação (138,6 mil), sinal de que o setor produtivo segue contratando apesar dos juros altos. Completam o pelotão de frente a saúde e serviço social (98,1 mil), o transporte e a logística (89,3 mil), a educação (74,1 mil) e a agropecuária (54,3 mil).

Na outra ponta, dois setores destoam do movimento geral e fecham o período no vermelho. O comércio perdeu 5,2 mil vagas líquidas no ano — um dado que preocupa por ser o setor que mais emprega no país e um termômetro do consumo das famílias. E as atividades financeiras ficaram praticamente estáveis, com saldo negativo de 115 postos, refletindo a reestruturação e a automação em bancos e seguradoras.

O mapa regional

Do ponto de vista territorial, a criação de empregos se concentra onde a economia já é mais densa. São Paulo respondeu sozinho por 262,1 mil das vagas abertas em 2026, mais que o dobro do segundo colocado, Minas Gerais (114,4 mil). Na sequência aparecem Paraná (67,9 mil), Santa Catarina (62,3 mil), Bahia (60,6 mil) e Rio de Janeiro (57,7 mil). No extremo oposto, Alagoas foi o único estado com saldo negativo no período (−6,1 mil), enquanto Rio Grande do Norte e Roraima tiveram os menores avanços.

Há, porém, um setor que corre na contramão da tendência positiva: a economia criativa. As ocupações de designers, arquitetos, jornalistas, publicitários, artistas e, sobretudo, profissionais de tecnologia da informação — que juntas somam 971 mil empregos formais no país, segundo a RAIS 2025 — praticamente estagnaram em 2026, com saldo de apenas 727 vagas no acumulado do ano. Enquanto o mercado como um todo abria quase 1 milhão de postos, o setor criativo respondeu por 0,1% desse total, sinal de uma freada que acompanha a onda global de demissões em tecnologia.

O caso mais agudo está no Paraná. Embora seja o terceiro estado que mais gerou empregos em 2026, o Paraná foi o que mais perdeu vagas criativas no período: saldo de −1.090 — e a maior parte dessa queda, −807 vínculos, veio de Curitiba. A capital, que se apresenta como polo de inovação e "cidade inteligente", viu seu setor criativo recuar justamente no ano em que o emprego formal paranaense crescia forte. As cidades médias do interior, como Campo Mourão, Francisco Beltrão e Dois Vizinhos, seguiram no positivo, ainda que em ritmo modesto.

Salários: o prêmio da qualificação

Se o CAGED mostra o movimento, é a RAIS que revela a estrutura de remuneração. Em 2025, o trabalhador formal brasileiro ganhava, em média, R$ 4.249 por mês. Mas a distância entre setores é grande, e a qualificação faz diferença: os profissionais da economia criativa, por exemplo, recebiam R$ 8.046 — um prêmio de 89% sobre a média geral —, puxados pela tecnologia da informação. É essa diferença que explica por que a estagnação do emprego criativo, ainda que numericamente pequena, importa: são vagas de alto valor agregado, mais difíceis de repor.

O retrato que emerge dos dados mais recentes é o de um mercado de trabalho ainda em expansão, mas em desaceleração ordenada. O emprego formal continua batendo recordes de estoque, a indústria e a construção seguem contratando, e o saldo permanece positivo mês após mês. Ao mesmo tempo, a perda de ritmo a partir de março, o recuo do comércio e a estagnação de setores de ponta como a tecnologia sugerem que o ciclo de forte geração de vagas do pós-pandemia pode estar entrando em uma fase mais madura e seletiva. Para o segundo semestre, a pergunta não é se o mercado vai crescer, mas em que velocidade — e para quem.

Como este levantamento foi feito

Esta reportagem cruza as duas principais fontes oficiais sobre o emprego formal brasileiro, que se complementam. A RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) é um registro anual e obrigatório, entregue por todos os empregadores do país, que funciona como um censo do emprego com carteira assinada: mostra o estoque de vínculos ativos em 31 de dezembro de cada ano, com detalhe de ocupação, salário e município. O dado mais recente disponível é o de 2025.

O Novo CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) é mensal e registra o fluxo — cada admissão e cada desligamento formal ao longo do mês. Ele permite acompanhar o mercado quase em tempo real: os dados vão até julho de 2026. O saldo de cada mês foi calculado somando as movimentações regulares às declaradas fora do prazo e subtraindo as exclusões, conforme a metodologia oficial. As duas bases têm universos ligeiramente distintos — o CAGED capta sobretudo os vínculos celetistas e alcança menos o funcionalismo estatutário —, por isso são usadas aqui de forma combinada: a RAIS para medir níveis e estrutura, e o CAGED para medir tendência e momento.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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Assuntos: emprego Brasil

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