Podcast - Tia Adla | Plural
15 jun 2019 - 23h28

Podcast – Tia Adla

Daniel Medeiros conta que queria ser igual à sua primeira professora, no Ceará

Lógico que havia minha mãe. Mas eu era pequeno e não tinha ainda ideia do trabalho imenso que ela teve e teria para me criar e ao meu irmão. Assim, minha primeira referência de mulher de sucesso foi minha primeira professora, a tia Adla. Eu apenas a amava! Eu queria desde sempre ter aquela postura, aquela firmeza e, principalmente, aquela inteligência. Ah, aquela inteligência de falar sem enrugar a testa, sem balançar descontroladamente os braços, sem manchar a blusa de suor. Ela me ensinou a decifrar o sentido das palavras como quem dá um abraço na volta da viagem, e quando eu cheguei em casa, lendo o pequeno texto da última página da cartilha para minha mãe, ela não acreditou e disse, algo enciumada: “como é que essa mulher conseguiu fazer isso com você?” Sim, era isso mesmo. Ela havia conseguido. E não somente me ensinar a ler. Havia conseguido me fazer querer ser. Ser como ela.

Eu era muito pequeno e por causa da minha timidez ficava menor ainda. Lembro-me que mal olhava para os lados. Só para ela. E, de vez em quando, ela olhava para mim e dava um discreto sorriso. Ela era rigorosa, justa e terna. Nos seus gestos e na sua prática aprendi sem saber sobre Política e Sociedade, sobre Justiça e sobre Direitos e Responsabilidades. Com ela.

Mais tarde, já na quarta série, lembro-me de uma outra professora, mas agora com tristeza. Ela suportava com um sorriso magro a algazarra que imperava na escola pública em frente à favela do Lagamar, em Fortaleza,  onde morei nos anos setenta. No alto, na parede, o olhar soberano que nos observava não era o dela, mas o do general presidente. Certa vez ela mandou como tarefa que buscássemos os sinônimos de certas palavras. Pedi o dicionário para o meu pai e escrevi, no caderno, o que o livro preto, o “pai dos burros”, dizia. Na tarde seguinte, ela pediu a lição e só eu havia feito. Ela ficou radiante com o meu desempenho. Os outros meninos me bateram no corredor, depois da aula. Eu fui pra casa, com a camisa rasgada sem saber se sentia mais pena de mim, dela ou do futuro do país.

Ainda hoje as crianças, na maior parte de suas infâncias, convivem com professoras. Por que então não desenvolvem um sentimento de respeito e consideração pelas mulheres? Por que não incorporam o fundamento básico de que um trabalho deve ser remunerado e respeitado de maneira igual, independente de gênero, cor, idade? Creio que a desqualificação do trabalho da professora, o primeiro referencial adulto que temos (fora nossos pais, quando os nossos pais se comportam como adultos) está na raiz desse comportamento. É só fazer uma pesquisa: eu queria ser como a minha primeira professora. Muitas crianças, meninas principalmente, queriam ser professoras porque essa profissão era cercada de respeito e dignidade. Mas aos poucos essa ideia e esse desejo foi sendo dilapidado até chegarmos ao quadro desolador no qual nos encontramos. Qual criança quer ser como a sua professora? Quem quer receber o que ela recebe? Quem quer ter uma profissão sem valor e sem respeito como a dela?

Se ficamos quase todos os anos de nossa infância na companhia qualificada de mulheres tão maravilhosas, como não nos tornamos um pouco mais humanos, justos, dignos? Posso estar errado, eu sei, mas acredito que se víssemos as professoras de todo o Brasil como eu vejo na minha memória a professora Adla, duvido que seríamos assim. Ou seríamos menos assim. E tudo  ainda seria possível.

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