Um sobrevivente ajuda os outros a controlar a dependência química | Jornal Plural
30 out 2019 - 22h03

Um sobrevivente ajuda os outros a controlar a dependência química

O último internamento de Zé Beto, aos 40 anos, foi por conta da cocaína

Com o celular pousado sobre o livro Memórias Inventadas, de Manoel de Barros, o jornalista Roberto José da Silva compartilha lembranças de dificuldades e conquistas na caminhada do controle da dependência de drogas. Faz isso desde 1994. Todo domingo, vai à clínica onde se internou pela última vez. Lá, ouve e fala de suas experiências. Diz que o livro é importante para manter viva a criança interior, e o voluntariado na clínica, “para lembrar”, pois uma das características do “seu time” – como se refere aos dependentes químicos – é esquecer. “O voluntário é um dependente em recuperação”, explica Zé Beto.

O jornalista também leva o tema para fora da clínica. Sempre que o convidam para dar uma palestra, curso ou entrevista, ele está lá. Brincante, diz que conversar sobre o que passou é terapia gratuita. “Terapia é botar para fora, aí sempre que me deixam falar, eu falo.” Mas não é só por esse motivo que ele fala. Zé Beto aproveita cada oportunidade para lutar contra a desinformação e o preconceito. “Muita gente não sabe que a dependência química é uma doença sem cura, mas que pode ser controlada. Falta informação à respeito da doença e do tratamento, da possibilidade que existe de se manter bem”, explica.

Dia 1 (primeiro) de novembro, Zé Beto ministra um curso “O milagre do controle da dependência das drogas”. O evento, que ele prefere chamar de conversa, é gratuito acontece no campus Mossunguê da Universidade Tuiuti do Paraná, às 19h30.

“O que eu sei mais ou menos é a minha experiência.”

O último internamento de Zé Beto, aos 40 anos, foi por conta da cocaína. Antes do internamento, usou a droga por quatro dias seguidos. Só no dia seguinte pediu ajuda, porque não via mais saída.

Quando entrou na clínica, quase morto, ficou uma semana tomando “remédio de amansar louco”. Dormia o tempo todo, só levantava para comer. “Faz parte do tratamento se acalmar para depois acontecer o grande negócio: começar a pensar na própria vida. Só ali, consegui olhar para os meus pais. É muito fácil culpar os outros pelo seu sofrimento. Difícil é se perguntar por que dor a pessoa está passando.”

Recentemente, Zé Beto perdeu um amigo da época em que usava a droga. “Ele se internou e não parou. Morreu antes. Eu digo que morreu antes, porque a gente pode morrer daqui a pouco, não é? Mas quando morreu, já estava vivendo na rua, uma situação muito complicada, muito triste.”

Muito se fala do problema das drogas ilícitas, mas o álcool foi a primeira dependência do jornalista. Começou a beber com 19 anos e parou quase 20 anos depois, em 1990. O problema, no entanto, não acabou. Depois da bebida, veio a cocaína. “Só substituí.” Segundo Zé Beto, o problema não é a droga que se usa, é o que leva a pessoa a usar a droga. “E isso você vai descobrir e tratar com terapia. Clínica não é milagre. Lá se aprende um pouco sobre a gente mesmo. Internamento é uma tentativa e é a que eu conheço e oriento. Agradeço ter sobrevivido. Sou um sobrevivente.”

Colaborou Rafaela Moura.

Serviço
Curso: Milagre do Controle da Dependência das Drogas
Onde: Universidade Tuiuti do Paraná, Campus Mossunguê
Quando: 01/11, às 19h30
Entrada franca. Inscrição aqui

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