Trabalho infantil e mendicância dão salto na pandemia | Jornal Plural
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30 set 2020 - 22h26

Trabalho infantil e mendicância dão salto na pandemia

Curitiba tem mais crianças nas ruas; atendimentos subiram de 4 para 90 em seis meses

Em fevereiro de 2020, quatro crianças foram atendidas pelo Serviço de Abordagem Social de Curitiba em situação de trabalho infantil e mendicância pelas ruas da Capital. Em julho do mesmo ano, foram 67, e em agosto 90. Os dados levaram a Fundação de Ação Social (FAS) a organizar novas equipes de abordagem para a região Central, que – ao lado do Portão – registra o maior número de denúncias deste tipo de crime durante a pandemia.

“Daniel é só um garoto. Com olhar muito triste e cabisbaixo. Ele não falava, apenas respondia minhas perguntas, com poucas palavras. Ficou reticente ao falar dos pais e de quem o havia trazido para cá, mas contou que estava desde cedo vendendo frutas, que hoje tinha acabado mais cedo e esperava que o viessem buscar. Por isso o vi em frente da minha casa. Naquele sol forte, e ele sem comer. Já eram 14h.”

O relato é da professora Adriana Tremarin, que mora entre os bairros Boa Vista e Barreirinha, em Curitiba. Ela ligou várias vezes para o número que o garoto forneceu e pediu para virem buscá-lo, mas só chegaram a noite.  

Daniel, que tem 12 anos, contou a Adriana que faz as vendas diariamente, ao lado do irmão mais velho, de 16 anos – naquele dia ausente. “Ele disse que usa o dinheiro para si mesmo, mas não senti verdade nisso. Perguntei se não queria que avisasse a família e ele disse que não ia adiantar, pois ninguém sentiria a falta dele ou se incomodaria; que estava tudo bem ele chegar tarde.”

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A professora ligou para a FAS e fez a denúncia, mas quando a equipe chegou, Daniel há havia sido levado por seus exploradores, numa kombi, com outros garotos. “Quando fui questionar, o motorista e dois rapazes, ainda me ameaçaram. Não é possível este discurso do ‘antes trabalhando do que roubando’. Precisamos descontruir isso, tão contrário a tudo o que as crianças precisam: amparo, proteção, acolhimento, meios para se desenvolver plenamente como pessoas”, avalia Adriana.

O caso de Daniel está entre os 42 registrados de 1 a 18 de setembro, em Curitiba, pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) da FAS.

Rede de Proteção

“Houve um acréscimo nos dados de trabalho infantil e de mendicância. Como não estão tendo aula, a tendência é irem para a rua. A maioria na região Central e muitos vindos da Região Metropolitana”, observa a diretora de Proteção Social Especial da FAS, Tatiana Possa. “Algumas estão sozinhas mas muitas acompanhadas de adultos, que nem sempre são os responsáveis.”

Ela conta que, a partir das denúncias, ou das equipes de plantão, é feita a abordagem destas crianças e adolescentes, que são encaminhados para a Rede de Proteção Municipal. Esta envolve notificação obrigatória da família, acionamento do Conselho Tutelar, Secretaria da Saúde e Centro de Referência de Assistência Social (CREAS).

“Temos uma Rede de garantia de direitos. O foco é identificar a criança, de qual regional, seu endereço e família, para atuar na prevenção. Não adianta abordar e mandar sair do local.  Nosso foco não é a vitimização da criança”, explica a diretora da FAS.

Os pais podem ser responsabilizados judicialmente e podem responder pelos crimes de trabalho infantil, abandono, negligencia, aliciamento e exposição de menor a risco. “Muitos nem sabem que o filho está sendo explorado ou sofre violência. Nós vamos além do trabalho social.”

Foto: Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS)

Menos denúncias

As novas equipes da FAS em ronda pela região Central estarão voltadas unicamente ao atendimento de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, mendicância e outras violações de direitos. A diretora da Fundação reforça a importância das denúncias de casos de crimes envolvendo menores. Apesar do aumento, o trabalho infantil representa apenas 1% das denúncias realizadas no primeiro semestre de 2020.

“Diminuíram as denúncias durante a pandemia, talvez pelas pessoas estarem saindo menos de casa. No entanto, aumentaram as crianças nas ruas. Nossas equipes organizam os roteiros considerando os pontos de denúncia, por isso é importante que casos de violação de direitos sejam registrados pelo telefone 156”, destaca Tatiana.

Outros números para denunciar são 100 e 181, que permitem denúncias anônimas de exploração e trabalho infantil.

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