"Somos vítimas do racismo e da misoginia", dizem conselheiras tutelares cassadas | Jornal Plural
11 dez 2019 - 23h11

“Somos vítimas do racismo e da misoginia”, dizem conselheiras tutelares cassadas

Conselheiras cassadas por vídeo em que comemoram a eleição com “Lula Livre” falam do processo que as levou à perda do mandato

No dia da libertação de Lula. Foto: arquivo pessoal

No dia 6 de outubro as conselheiras eleitas do Conselho Tutelar do Boa Vista, Aline Castro e Rosana Kloester estavam num bar da região com amigos acompanhando os resultados da votação. Em campanha durante 15 dias, as duas estavam cansadas e ansiosas pelos números das urnas. “Foi uma alegria intensa, nunca vou esquecer”, conta Rosana.

As duas foram eleitas. Aline com recorde de votos, em segundo lugar e Rosana em quinto.

Dois meses depois a comemoração entre amigos iria ser a justificativa para a cassação do mandato de ambas. “A gente havia tirado tudo que pudesse ferir as regras da eleição das nossas páginas. O grito de Lula Livre estava entalado na garganta, sabe?”, continua Rosana.

Nesse espírito, as duas foram gravadas comemorando a eleição aos gritos de Lula Livre e, com impropérios, prometendo “ir pra cima”. Para Rosana, mais tímida, foi poder usar o grito que havia guardado por todo aquele período.

Para Aline, ela mesma vítima de abuso sexual na infância, a hora de se colocar, com respaldo do povo, no papel de defensora de outras crianças à mercê de estupradores, agressores e pedófilos.

O vídeo original é longo, mostra mais pessoas além das duas e contém referências a tudo isso. Mas o que ficou conhecido na cidade e fez parte do processo contra ambas são apenas os 26 segundos iniciais. Foi com base nesse trecho que o Ministério Público e a Rede de Instituições de Acolhimento de Curitiba e Região Metropolitana (RIA) consideraram ambas sem “idoneidade moral”, portanto ineptas a serem conselheiras tutelares.

Demorou poucas horas entre a comemoração na noite do dia 6 e a reação, já na manhã do dia 7. “Já me avisaram do vídeo e disseram para apagar de onde eu tinha postado. Mas a gente não postou em lugar nenhum”, lembra Aline. Foi ela que entrou em contato com Rosana e pediu para que apagasse as imagens, eventuais mensagens.

“Apaguei tudo. Mas tinha mandado para amigos. De repente estava no Face, no Youtube, em todo lugar”, relata Rosana. Ela se refere as postagens feitas por desconhecidos, a primeira das quais por uma tal Elizabete Antunes, que já classificava os 26 segundos como um ataque aos cristãos e as famílias.

Pouco depois, a postagem foi parar em diversas páginas que se identificam como de “Direita”, e recebeu dezenas de comentários, vários inclusive documentados por Aline e denunciadas à polícia por racismo. O tom dos comentários também, apontam, é misógino. “Chamavam de puta, vagabunda, como se mulher não pudesse falar palavrão, sair com os amigos, tomar uma cervejinha”, denuncia.

As acusações de comportamento inadequado vieram, inclusive, do parente de um conhecido apresentador da tevê local, famoso justamente pelos impropérios que proferia na tv aberta. O familiar gravou até vídeo para denunciar o comportamento delas, o que ambas consideram “uma ironia”.

Fala ameaçadora

Mas o pior, contam as duas, ainda iria acontecer. Ao invés da solidariedade que esperavam por terem tido um vídeo vazado e, no caso de Aline, terem sofrido racismo, as duas foram denunciadas por falta de idoneidade. “Não tivemos nenhuma denúncia contra nós por conduta ilegal na condução da campanha, caso de muitas outras candidatas, nada que nos desabonasse. Mas meia dúzia de palavrões foram capazes de apagar uma vida de militância e trabalho social”, desabafa Aline.

Um dos piores momentos, relata, foi ouvir que sua postura é “agressiva”. A “acusação” veio da promotora de Justiça Fernanda Nagl Garcez e está na denúncia assinada por ela contra Aline. Para Aline, a interpretação é exagerada e racista. “Estou acostumada, como negra que fala com sotaque, usa cabelão e tem que lutar para ocupar espaços nessa cidade”, desabafa.

Mas Aline não é de ficar calada. “Quando minha filha chegou em casa a primeira vez vítima de racismo, vi que ia ter que ir atrás de me informar, de lutar”, recorda. A menina hoje já é adolescente e ajudou a mãe na campanha. “Essas coisas de rede social, postagem, foi tudo ela que fez”, diz com orgulho.

Tanto Rosana quanto Aline estão convictas de que o que moveu a ação contra elas foi o preconceito. “A Rosana mal fala no vídeo, mas [o acusador] disse que se ela tá junto é porque concorda e pronto. Foi o suficiente [pra ela ser cassada também]”.

Além disso, diz Aline, toda argumentação do Ministério Público (que sustenta a tese de que o vídeo e algumas postagens de Aline são agressivas e prova da falta de idoneidade) é de que o conselheiro tutelar precisa ser exemplo para as crianças que atendem.

“Partem do princípio que não sabemos como agir em diferentes ambientes, a despeito da nossa história. Sou professora, lido diretamente com adolescentes. A divulgação desse vídeo privado e a cassação me prejudicam não só na minha vida pessoal, mas no trabalho também. Prejudicam anos de trabalho e dedicação”, lamenta Rosana.

Vida de militância

A sala de aula foi onde aprendeu a entender os adolescentes, diz Rosana. Foto: arquivo pessoal.

Rosana e Aline se conheceram no curso de formação de duas semanas realizado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Curitiba (Comtiba) e que é parte do processo eleitoral. Rosana é formanda de licenciatura em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

“Eu estava num período ruim da vida, num relacionamento difícil, sem perspectiva, quando fiz o Enem e, com a nota, consegui uma bolsa de 100%. Isso salvou a minha vida”. Ela só não se formou em 2019 porque, como candidata e trabalhando por hora no comércio não conseguiu concluir o trabalho de conclusão de curso.

Rosana nasceu e mora a vida toda no Abranches. A militância veio com a vida universitária. “Fui trabalhar com adolescentes em conflito com a lei. Foi então que passei a estudar o Sistema Nacional De Atendimento Socioeducativo (SINASE), porque eu era contra. Era contra toda política de proteção social. Mas o que vi de dentro e aprendi me jogou na militância”, relata.

Mãe de uma menina de onze anos, Rosana trabalha como vendedora numa loja de produtos alimentícios, atua em escolas e estuda, além de cuidar sozinha da filha. A ideia de se candidatar, conta, foi natural. Mas também uma batalha. “Se eu não tivesse direito a gratuidade [na emissão dos documentos necessários], não tinha como. Já precisei fazer empréstimo para fazer campanha”.

Na vida docente, Rosana aprendeu que ouvir vale muito. “Só de perguntar se está tudo bem a gente já dá um passo gigantesco com os adolescentes. Já passei horas ouvindo meus alunos. Faz muita diferença”, conta. Já se surpreendeu com agradecimentos feitos por quem ela “só tratou com dignidade”. “Para você ver como o que falta é muito pouco. É atenção, é respeito”.

“Negra não tem opção”

Aline Castro no Dia de Rainha, com uma das atendidas. Foto: divulgação.

Já Aline nasceu em Brasília, é de uma família nordestina, mas veio para Curitiba aos 16 anos acompanhando a mãe, uma funcionária dos Correios que foi transferida para o Paraná. Não foi fácil se adaptar por aqui. “Diziam que estávamos roubando o emprego dos outros. Se reclamava do frio ouvia que devia é voltar para o Nordeste”. “Digo que não tive opção, a militância é imposta”.

A mãe de Aline criou duas meninas sozinha. Uma é cientista social formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), concluiu o mestrado na França e atualmente está no doutorado em Amsterdã, na Holanda. “Tenho muito orgulho dela”, diz Aline da irmã. Se orgulha também da mãe, que “nos criou com muita dignidade”.

Formada em biologia, Aline decidiu trabalhar por conta por causa da filha. “Quis muito ser mãe, então não ia querer sair de casa antes dela acordar e voltar quando ela já está indo dormir”, conta. Foi quando começou a atender clientes em casa, fazendo unha. E criou a marca Fuá, de acessórios.

Marca de acessórios Fuá tem braço social. Foto: divulgação.

A militância também é parte disso tudo. Há seis anos ela organiza o Dia de Rainha, que atende mulheres em situação de risco. A iniciativa dá tratamentos estéticos e roupas para as atendidas, que no final ainda são fotografadas e recebem a foto de lembrança. O projeto recebeu doações tanto de pessoas quanto de grandes empresas como a KF Carnes, Timbu e Farmácias Nissei.

Mesmo a empresa de Aline, Fuá, tem um braço social. “Ensino mulheres e adolescentes a fazer acessórios com material reciclado, usando técnicas de cartonagem”, explica. A ideia é ajudar elas a ter autonomia, fonte de renda, ou mesmo produzir seus próprios acessórios.

Alta, negra, com um orgulhoso cabelo cacheado mantido com cuidado, Aline chama a atenção. E não se esconde. Seus acessórios são coloridos, chamativos, orgulhosos. É a isso que ela credita o fato do processo ser basicamente contra ela. “A Rosana entrou de gaiato”, brinca.

Lula livre

Fã de Eduardo Suplicy, Rosana registrou o encontro com o atual vereador em São Paulo. Foto: arquivo pessoal

Tanto Aline quanto Rosana têm na militância também um espaço de atuação política. São admiradoras de figuras proeminentes do petismo, como o ex-senador Eduardo Suplicy e o ex-presidente Lula. “A legislação não proíbe isso, mas sim o envolvimento de partidos na campanha. Tanto que muitos candidatos são filiados a partidos. O que não podia era o partido fazer campanha, patrocinar a campanha”, explica Rosana.

Mas ambas dizem ter tido bastante cuidado para evitar qualquer vinculação. “Apaguei tudo da minha página pessoal, orientei meus amigos. Tanto que não há denúncia quanto a isso”, aponta Rosana. Por falta de recursos, ela diz ter feito campanha no boca a boca e pelas redes sociais. “Gastei só com a impressão do santinho”, diz.

“R$ 39,90 o milheiro”, completa Aline, que fez o mesmo. O gasto mesmo, contam, foi de tempo. “Eu fui em igreja, no acampamento Lula Livre, nas escolas, na casa das pessoas”, diz. “Eu tinha tudo organizadinho, numa planilha. O nome das pessoas, os contatos de quem conversei. A gente andou muito pelo bairro, nas igrejas, nas casas. Fiz tudo com a ajuda do meu companheiro e da minha filha”, relata Aline.

Quando o pleito acabou, “o grito de Lula Livre estava preso na garganta”, admite Rosana. Para ambas, mais do que a liberdade do ex-presidente, o grito representa um protesto contra “muita coisa que está errada”.

Esperam que o ex-presidente se manifeste sobre a cassação? “Não, deixa ele aproveitar”, rebate Rosana. “Quero uma cartinha”, brinca Aline.

“Sem moral”

“O que espero só é justiça. Porque o que aconteceu com a gente foi injusto. Só isso. Como se esse processo todo não tivesse sido uma vergonha”, desabafa Aline. Ela se refere às inúmeras irregularidades que culminaram, inclusive, com a anulação da eleição.

O próprio processo de julgamento de ambas é questionado. Numa primeira audiência, ambas foram condenadas a pagar uma multa de um salário mínimo. “Tive que arrecadar o dinheiro, porque não tinha”, conta Rosana.

As audiências, que resultaram na cassação de quatro candidatas por transporte ilegal de eleitores e propaganda eleitoral irregular, foram anuladas após irregularidades nas atas serem denunciadas pela Federação Democrática de Clubes de Mães e Associações de Moradores (Femotiba).

A acusação: falsidade ideológica. Membros do Comtiba assinaram as atas das audiências, mas não participaram efetivamente delas. Outra irregularidades foram a ausência de ato de nomeação da comissão de julgamento ou mesmo de alguns membros da Comissão eleitoral.

A cassação veio na segunda audiência, no dia 3 de dezembro. As provas: o vídeo e um “like” dado por Aline numa postagem. “A promotora disse que assumimos o risco ao nos deixar filmar”, diz Aline. “Nos igualou a um motorista que bebe, dirige e assume o risco de ser pego pela polícia ou causar um acidente”, completa Rosana.

“O vídeo não foi periciado, não foi levado em consideração que era privado, que foi vazado por alguém para nos prejudicar”, continua. “Denunciamos tudo isso. Temos boletim de ocorrência contra todos que compartilharam”, conta Aline. Os boletins, inclusive foram mostrados à reportagem pelas duas.

Nada disso foi levado em consideração na manifestação do Ministério Público, durante a audiência. Mas o MP acatou uma “prova” apresentada pelo denunciante: um post do vídeo em que uma amiga de Aline que falava da hiprocrisia de se condenar duas mulheres por falar palavrão.

“Dei like porque é o que acho. É hipocrisia. Sou mulher, sou negra, bebo minha cervejinha com os amigos, falo palavrão, faço sexo com meu companheiro. Nada disso me desabona”. E questiona: “são todos santos [na comissão]?”

Mas no caso delas, apontam, mesmo uma piada privada virou “prova” de falta de idoneidade. “Fiz um comentário na minha página sobre o Dallagnol e o Moro. Ficou duas horas no ar, no modo privado. Mas está na denúncia do MP. Eles moram aqui. Que há de errado em perguntar se votaram em mim?”

Para Rosana, essas condutas usadas para condená-las, na realidade, as humanizam. “Não estamos acima de ninguém. E como conselheiras nosso papel vai ser esse, de se colocar em pé de igualdade, de estar do lado, não de ser polícia de pobre, que é a imagem que o conselho tutelar tem hoje entre os mais necessitados”.

“O Conselho Tutelar não é um órgão superior, uma entidade acima da população. É um dispositivo justamente para garantir que o Poder Público seja questionado e que os direitos sejam respeitados”, completa.

Confira a ata de julgamento de Aline e Rosana:

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