Será que só eu ainda tô na quarentena? | Jornal Plural
Clube Kotter
12 set 2020 - 15h41

Será que só eu ainda tô na quarentena?

Da ansiedade à gratidão: três diferentes experiências do ‘novo normal’ em Curitiba

“Você ainda está em isolamento?”, perguntamos aos leitores do Plural no Instagram. E a resposta foi surpreendente: 90% dos quase 500 respondentes disseram que sim. Mas como bem lembrou uma seguidora, esse recorte não fala por toda a população de Curitiba. Já mostramos por aqui que o índice de isolamento na cidade caiu para 35%.

Mais de 140 seguidores dividiram conosco como estão encarando a quarentena. Entre o grupo que permanece em casa, as palavras-chave que mais apareceram foram: “frustração”, “tédio”, “desespero”, “cansaço”, “ódio”, “raiva”, “solidão”, “ansiedade” e “trouxa”. Apesar disso, também deu para identificar um sentimento comum de estar fazendo a coisa certa. Já as pessoas que não se consideram em isolamento apontaram um motivo quase unânime: “trabalho”. 

Três respostas chamaram a atenção da reportagem, enviadas por três mulheres de diferentes idades e vivências: Ana, que deixou de ser rouca durante o isolamento; Camila, que precisou adiar um grande sonho e segue na labuta; Virgínia, que faz parte do grupo de risco e está em casa – mas se sente em um “ano sabático”.

Ana

“Eu era rouca desde 2017, mas depois de ficar sem dar rolê por seis meses, voltei a ter uma voz normal”, conta Ana Carolina Magnoni, de 21 anos. Como muitos de nós, ela está isolada e passando por um turbilhão de sentimentos e novas experiências. E segue assustada com o “novo normal”. 

Ilustração: Benett

“Não vou a nenhum restaurante ou bar. Ainda não me sinto confortável. Desde que entramos na bandeira amarela, a gente vê boteco lotado. Pra mim, isso é muito chocante, tá muito longe da minha realidade. Parece que as pessoas estão vivendo em outro planeta e nós estamos sendo feitos de trouxas.”

Ana trabalha como desenvolvedora de software no Ebanx, uma dessas empresas modernas que já vinham se preparando para o trabalho remoto há alguns anos. Vez ou outra ela passava por essa experiência, mas agora é oficial: está em casa com a família desde o dia 16 de março – e sem previsão de retorno ao escritório.  “Eu rendo mais, consigo fazer as minhas coisas durante o dia… Imagina tomar um banho às três da tarde? Nossa, sério, é o sonho de todo mortal”, diz animada.

Já a situação com a faculdade não anda tão bem resolvida. Perto de concluir o curso de Ciência da Computação na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela lamenta que as aulas tenham estacionado. “Eu entendo, acho que tá certo, a universidade pública não tem que voltar mesmo. Mas é frustrante.”

Ana faz menção a uma montanha russa para definir seu universo emocional. No começo da quarentena, diz que ficou feliz porque finalmente tinha tempo para a família, para a casa, para o autocuidado. Mas de lá para cá, as coisas mudaram. “Há um mês eu comecei a me sentir muito nervosa, muito ansiosa. Parece que a vida virou uma monotonia da qual nunca vamos sair, sem querer ser pessimista aqui.”

“Essa foto é da primeira vez que saí na rua durante a quarentena. Foi gostosa demais a sensação de estar perto da natureza, mesmo que fosse pelas árvores na canaleta”, diz Ana. Foto: arquivo pessoal

Agitada como é, o jeito foi criar novos projetos, movimentar a vida. “Hoje eu me mudo, vou morar sozinha”, anuncia. “Fui fazer compras de móveis e os vendedores estavam sem máscara. Pensei: socorro, onde estou? Fiz tudo na pressa. É ruim não poder fazer do jeito gostoso de começar uma casinha, construir uma vidinha, mas, por outro lado, é legal trazer emoção à monotonia.”

Fora eventuais idas ao comércio, Ana confessa que precisou começar a fazer algumas concessões em prol da saúde mental, como ver os tios e uma amiga. “Essas pequenas coisas têm me ajudado a segurar essa barra que é estar de quarentena no governo Bolsonaro”, ri e pondera: “Acho que a gente também precisa entender algumas limitações, até que ponto cada um consegue segurar? Somos todos humanos.”

Camila

Ano passado, Camila de Oliveira Sanches, de 29 anos, começou a planejar o tão sonhado intercâmbio para a Austrália. Ela juntou dinheiro rápido e programou a mudança para agosto deste ano. Então, em março, fez uma última viagem no Brasil para se despedir e comemorar. Mas, na volta, foi surpreendida: quando chegou ao Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, soube que já tinham decretado quarentena.

“Eu nem cheguei a voltar das minhas férias. Como passei por São Paulo, onde tinha uma alta movimentação de pessoas, fiquei isolada”, relembra, dizendo que foi um período de muita ansiedade para ela, porque foi quando caiu a ficha: a fronteira da Austrália foi fechada e os planos precisaram ser adiados.

Depois de 15 dias, ela voltou ao trabalho com redução de carga horária. “Surtei um pouquinho mais. Tinha que dar conta do que fazia em 44 horas semanais, mas com redução de 25% do tempo. E parece que o trabalho só aumentou”. Agora, passados seis meses, ela voltou à carga horária normal.

Camila trabalha na área financeira. Nas palavras dela, aconteceu como canta o Zeca Pagodinho: a vida foi levando e ela foi fazendo o curso de Administração, mas nunca teve o perfil exigido pelo segmento. “A única parte boa da quarentena é que aproveitei esse tempo para investir numa mudança de área. Estou me profissionalizando para a área de estética, que é com o que eu quero trabalhar na Austrália.”

“O curso, pra mim, é um suspiro, um acalento no coração. Talvez seja a minha válvula de escape ou a única felicidade da pandemia”, diz Camila. Foto: arquivo pessoal

Quanto ao isolamento, ela é direta: não acredita que ele ainda exista. Ela mora com os pais, ambos do grupo de risco, mas eles não deixaram de receber visitas de outros familiares. Ela tinha o costume de sair todo fim de semana e agora vê pouco os amigos, mas no dia a dia está inserida no “novo normal”, trabalhando e fazendo cursos fora de casa.

“Eu uso transporte público, os ônibus estão cheios. No meu trabalho também não há um distanciamento muito grande. Então, não vejo uma mudança na vida cotidiana… O ‘novo normal’ é as pessoas usarem máscara e álcool gel”, descreve. “Às vezes eu fico preocupada de pegar o vírus, mas meio que já me acostumei.”

Virgínia

Virgínia Moreira Sansana, de 62 anos, é aposentada e trabalhava numa loja de presentes antes de tudo isso começar. Ela nunca quis sair do mercado de trabalho, mas foi obrigada pela pandemia: perdeu o emprego e segue isolada em casa desde março, tempo suficiente para aprender a encarar a nova realidade com leveza e otimismo. Ela diz que se sente tirando um ano sabático.

Ilustração: Benett

“É claro que no desenrolar da história a gente passa por inúmeros sentimentos. No começo, eu me sentia como se estivesse num filme, não parecia que era a vida da gente mesmo. E aí foram passando os dias, as semanas, os meses…”, recorda-se. “Aprendi a reconhecer os sinais. Quando vou me abatendo, já procuro algo para fazer e afastar a nuvem cinzenta. Sou apenas eu comigo mesma – e estou me conhecendo melhor.”

O “novo normal” de Virgínia inclui cuidar da casa e de si – e para se conectar com o mundo, ela faz da tecnologia aliada. “Televisão, séries, streamings, lives, comecei a degustar de tudo um pouco. Conteúdos variados que vão da gastronomia à religião. Esses dias eu até vi um vídeo no YouTube para cortar o meu cabelo.”

“Pratiquei o do it yourself e cortei o cabelo – e sabe que ficou legal? Gostei, me senti bem”, diz Virgínia. Foto: arquivo pessoal

Há seis meses, todas as compras de mercado e farmácia são feitas pelos filhos. “Não preciso de coisas supérfluas e gastos desnecessários. Na verdade, acho que nunca fiz tanta economia na minha vida”, conta, satisfeita com o estilo de vida mais simples e consciente.

“Aprendi com a minha mãezinha a praticar a gratidão. Quantas pessoas são do grupo de risco e não podem se isolar porque precisam sustentar a família?”, ela questiona. “Eu me dou esse luxo de poder ficar em casa e estar bem com tudo. A gratidão que eu tenho é muito profunda.”

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias