Dança às escuras | Plural
24 abr 2019 - 8h20

Dança às escuras

Conheça o refugiado angolano cego que ensina dança a outros deficientes visuais

Com passos leves e um tanto gingados, Jacob Cachinga percorre o emaranhado de corredores até chegar à sala da academia de dança em que dá aulas. Lá, alguns alunos já o esperam. Após conduzir o alongamento, descrevendo minuciosamente como deve ser a execução de cada exercício, o rapaz de 29 anos conecta o celular ao cabo de uma caixa de som e seleciona uma música, anunciando o ritmo a ser explorado em aula. “Galera, hoje vamos dançar merengue!”. Tudo seria absolutamente corriqueiro, se Cachinga não fosse um refugiado angolano que perdeu a visão ainda criança e que, após se formar em educação física no Brasil, decidiu ensinar a arte da dança a outros cegos de Curitiba. Tudo de graça.

Como professor e alunos vivem às escuras, são os outros sentidos que vão guiar o processo de aprendizado. Tudo começa com uma rápida preleção, em que Cachinga discorre sobre as características essenciais do ritmo e explica os pormenores dos passos básicos. Mas é principalmente pelo tato que o dançarino vai corrigir o movimento de seus pupilos. No caso do merengue, por exemplo, ele dança diante de cada aluno, enquanto este lhe toca o quadril, como se a partir disso pudesse enxergar cada detalhe do requebrado, que contrasta com o tronco quase imóvel.

Assim que a turma dá mostras de ter pegado os passos básicos, Cachinga tira cada aprendiz para dançar – desta vez, em par –, aprofundando o grau de dificuldade, conduzindo giros e fazendo pivôs. Usa mínimos movimentos – toques discretos com o antebraço, costas das mãos ou ponta dos dedos – para sentir o corpo da dama e, por conseguinte, constatar há quantas anda a execução. A partir daí, corrige detalhes tão minúsculos que, para quem assiste, é de se perguntar: como ele pode fazer essas observações, se não enxerga?

“A gente vê de outras formas: pela audição e muito pelo toque. Um cego enxerga sentindo. A gente tem uma sensibilidade diferente” resumiu Cachinga, sorrindo por detrás de óculos escuros e debaixo de um chapéu preto que, com seu cavanhaque bem desenhado, lhe dava um estilo despojado de street dancer.

Quando nem a percepção de Cachinga é capaz de notar eventuais falhas dos alunos, entra em cena Pâmela Shiroma, que também é professora do projeto. Ela é a única integrante do grupo que enxerga e costuma intervir sempre que se faz necessário aperfeiçoar o movimento de alguns dos aprendizes. Corrige detalhes que jamais poderiam ser captados por um cego, como uma jogada de cabeça ou uma passada de mão pelos cabelos. A dançarina profissional, por sua vez, teve que passar a pensar como um deficiente visual para ensinar melhor.

“A partir daí, eu comecei a perceber não só a visão, mas todos os outros sentidos. Hoje, eu não preciso só da visão para dançar. Eu danço com os outros sentidos também”, disse. “Eventualmente, vem algum aluno que enxerga e sai daqui completamente maravilhado com a experiência”, completou, apontando que o projeto também está de portas abertas aos que veem.

O projeto

Chamado “Dançar sem ver”, o projeto está em vias de completar três anos. Foi criado por Pâmela e Cachinga em 2016, assim que ele concluiu o curso de educação física. O trabalho é totalmente voluntário. O salão das aulas é cedido gratuitamente – atualmente, pela escola Cenário Espaço Arte – e os professores nunca ganharam um real sequer para tornar a dança acessível a deficientes visuais. E a iniciativa vai além das aulas: o grupo costuma a ministrar oficinas de inclusão em escolas públicas.

No ano passado, o projeto chegou a ser aprovado em um edital do governo do Paraná, mas não foi contemplado com recursos. Para se manter, o professor atua como personal trainer e dá aulas particulares de dança. “O ruim é que, quando bate a crise, isso é a primeira coisa que as pessoas cortam. Aperta um pouco, mas está tudo certo”, apontou Cachinga, com indissociável otimismo. “Mas um patrocínio não seria nada mal”, acrescentou.

A ideia que deflagrou o “Dançar sem ver” ocorreu a partir das próprias observações do professor. Cachinga notou que, em festas e baladas, os cegos permaneciam quase à margem, apenas comendo ou bebericando. Ponderou, então, que as aulas poderiam ser uma ferramenta de inclusão. Em pouco tempo, a iniciativa ganhou adesão maciça. Ele estima que os deficientes visuais que já passaram pelo salão do projeto se contem às dezenas. No ano passado, os alunos chegaram a se apresentar em um festival, no Teatro Fernanda Montenegro, dançando um ritmo desafiador: o samba.

“Não tem um cego que esteja, hoje, dançando em Curitiba que não tenha passado pelas nossas mãos”, orgulhou-se. “Quando eu os vi no palco do festival, eu não resisti e chorei”, disse Pâmela.

Alguns alunos não sabiam sequer que seriam capazes de dançar. É o caso da massoterapeuta Luzia da Luz Silveira, de 50 anos. Viúva, mãe de quatro filhos, ela começou a frequentar as aulas no ano passado. Nos dias de aula, guiada apenas pela própria bengala, vai sozinha à escola de dança e já planeja desbravar outros ritmos. “Eu nunca tinha dançado. Agora, não posso ouvir música que já começo a balançar. Eu me redescobri”, disse. “Mais pra frente, eu quero fazer dança do ventre e pole dance”, adiantou.

Outra aluna frequente, Hellen Mieko Hamada, de 31 anos, começou a frequentar o projeto por acreditar que a dança lhe ajudaria em suas atividades principais: ela é atriz e musicista. Segundo a dançarina aprendiz, as aulas foram determinantes em seu desempenho na última peça em que atuou, “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos. “A dança deixa o corpo com mais molejo, mais solto. Ajuda na coordenação e na expressividade. Tem melhorado muito a minha atuação como atriz”, avalia.

Como é de se supor, as aulas transcorrem em uma atmosfera das mais leves, em boa medida por causa do bom humor da trupe. Quando Cachinga, por exemplo, quis contar vantagem, dizendo, em tom de galhofa, que o homem é mais importante porque é quem conduz a dança de salão, Pâmela devolveu: “Mas é a mulher quem faz o charme e quem brilha”. Quando este repórter alegou timidez ante o convite para se juntar aos alunos e tomar parte na aula, Luzia respondeu sem pestanejar: “Não faz mal! A gente é cego. Ninguém vai te ver dançando mesmo!”.

Os passos do refugiado

Jacob Cachinga perdeu a visão aos dois anos de idade, após ter contraído sarampo. Na ocasião, ele ainda morava com a família em Moxico, cidade situada à faixa leste de Angola, quando o país vivia às voltas com uma guerra civil que provocou efeitos severos à sociedade. Dos tempos que ainda enxergava, a única imagem que preservou na memória é o rosto da mãe.

“Na época, todo o poder econômico de Angola ia para financiar a guerra. Assistência em saúde não existia. Então, eu considero que a guerra me cegou. Crianças, como eu, perdiam a visão ou morriam de sarampo todos os dias”, contou.

Em 2001, Cachinga e outros nove cegos angolanos chegaram ao Brasil como refugiados, por meio de uma ONG do país africano. O rapaz tinha, então, 11 anos. Não sabia ler, nem escrever e tampouco tinha mínima autonomia. Em Curitiba, se formou em educação física e, hoje, cursa pós-graduação. Neste período, nunca abandonou a dança – que é o que o mantém conectado com as raízes angolanas.

“Na África, nós expressávamos a dor, a fome, os males da guerra através da arte. Era, também, uma forma de termos alguma alegria”, disse. “Quando cheguei, eu dançava muito kuduro [ritmo africano], mas fui me aproximando da dança de salão quando eu conheci a Pâmela. Comecei a frequentar a mesma academia que ela e virei bolsista”, relembrou.

Ao vir ao Brasil, Cachinga perdeu completamente o contato com a família. Só em 2016 – depois de 15 anos –, conseguiu notícias da mãe. Foi à Angola reencontrá-la, mas se impressionou com as condições em que ela vivia: em extrema vulnerabilidade, a mulher dormia no chão de uma igreja – sobre uma canga estendida no chão – e, em troca do teto, fazia as vezes de faxineira do templo. Com o dinheiro que havia juntado, o rapaz conseguiu realizar o sonho de comprar uma pequena casa à mãe. Agora, eles se falam a cada duas semanas, quando ela consegue emprestar o celular de um vizinho.

“Quando eu a abracei nesse reencontro, a gente começou a chorar muito. Foi muito emocionante. Agora, ela tem uma casa. É uma casca de ovo, mas é dela. Está protegida”, disse.

O refugiado não quer parar por aí. Sonha em fazer doutorado e, em um futuro ideal, planeja regressar à Angola e abrir uma universidade. Enquanto isso, pretende continuar compartilhando com o Brasil o que puder oferecer. “A educação é o maior bem que existe e ainda é muito carente no país em que nasci”, apontou. “Mas hoje eu me sinto realizado devolvendo um pouco do que o povo brasileiro sempre fez por mim. O projeto é uma forma de agradecimento”, finalizou.

Assuntos:

Últimas Notícias