O mito do gigante adormecido - Jornal Plural
28 dez 2020 - 17h11

O mito do gigante adormecido

Desconfio que esses antivac não se ligaram que o “gigante” do hino é uma metáfora

Era para o gigante ter acordado na semana passada, mas ele preferiu ficar jogando Among us a madrugada toda e não despertou para as manifestações antivacina, que os habitantes do condomínio “Vivendas do Último Refúgio” organizaram para tirar o foco dos escândalos da coleção de unidades (01, 02 e 03) do presidente.

A ideia de que o gigante adormecido despertará em breve e botará para correr o inimigo – qualquer um que não simpatize com a imagem de um tanque da Segunda Guerra cheio de barro subindo a rampa do Planalto – é tão infantil quanto constrangedora para quem perde um átimo de tempo pensando sobre o assunto. Por que um gigante é um guardião eficiente para o patriota (sempre penso nessa palavra como a junção de três outras: pateta + ridículo + idiota)? Por exemplo, o que um gigante pode contra um vírus? Esmagar com uma clava?

De qualquer forma, desconfio que esses antivac não se ligaram que o “gigante” do hino de nossa Lilliput é uma metáfora. Não, não mesmo. Eles interpretam metáforas ao pé da letra, como todo olavete. Eles não sacaram que Duque Estrada estava só tentando achar um jeito de rimar natureza com grandeza sem forçar muito a barra.

Os antivac creem em um gigante de carne e osso que usa camiseta da seleção brasileira escrita Robinho nas costas. E pior ainda, acham que o “impávido colosso” terá a indignidade de pegar o ônibus de madruga e vir aqui lutar de graça, sem direito a vale-refeição, vale-transporte, hora-extra, férias e décimo terceiro salário. Como se fosse um empregado em condição análoga à escravidão a disposição deles.

Será que eles acham que o gigante é um cara branco, hétero e de classe-média? E se o gigante for negro, favelado e homossexual? Eles o aceitariam do mesmo jeito que aceitam o Jesus de Max Von Sydow ou até mesmo de Gregório Duvivier?

Quando lembro que aquele influencer que filosofou brilhantemente (sim, estou sendo brilhante) “se o distanciamento é eficaz, por que a máscara? Se a máscara é eficaz, por que o distanciamento? Se a máscara e o distanciamento são eficazes, por que tá tendo uma nova onda de covid?” é um dos líderes desses lunáticos sinto que não há nada a se fazer a não ser observar sem interagir, ficar apenas registrando imagens para um futuro documentário sobre pessoas que acreditam no E.T. Bilú, alienígenas infiltrados e gigantes adormecidos – tipo uma Branca de Neve à espera de um príncipe com a cara do general Heleno.

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