“Escravidão é o assunto mais importante de nossa história”, diz Laurentino Gomes | Plural
1 set 2019 - 18h00

“Escravidão é o assunto mais importante de nossa história”, diz Laurentino Gomes

Escritor acaba de lançar o primeiro volume de “Escravidão”, uma trilogia sobre o problema na origem da desigualdade social e do racismo

“A escolha desse tema foi uma decorrência natural da minha primeira trilogia de livros”, diz o jornalista e escritor Laurentino Gomes a respeito de sua nova trilogia, “Escravidão”.

O primeiro volume da série traz, ao longo de suas 480 páginas, 250 anos de história – do primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal, em 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

A obra é fruto de seis anos de pesquisa, e envolveu, de acordo com o autor, a leitura de quase 200 livros sobre o tema e viagens por 12 países em 3 continentes.

Segundo Gomes, estudar as datas fundamentais para a construção do Brasil independente do século 19, esmiuçadas em sua trilogia anterior (formada pelos livros “1808”, “1822” e “1889”), fala sobre a construção do país por um ponto de vista institucional, que não é suficiente. Entender a identidade nacional implica em mais: “Observar o que fizemos aos nossos índios e negros, quem teve acesso às oportunidades e privilégios ao longo da nossa história e como a sociedade e a cultura brasileiras foram se moldando desde a chegada de Pedro Álvares Cabral na Bahia até os dias de hoje”, explica.

Foi nesse processo que o paranaense de Maringá percebeu o papel-chave da escravidão no Brasil: “O assunto mais importante da nossa história não são os ciclos econômicos, as revoluções, o império ou a monarquia. É a escravidão”, diz, ressaltando que o assunto ainda não está resolvido.

Questões como desigualdade social e racismo são, na visão do jornalista, heranças atuais do período escravagista. “A escravidão é, ou deveria ser, assunto com o qual todos nós, brasileiros, deveríamos nos preocupar”, diz.

Quanto à temática da trilogia, Gomes afirma que, em um mar de olhares negros, brancos e atentos, buscou integrar este último: “Eu me esforço para ser parte deste terceiro grupo, mas caberá aos leitores julgar se fui bem-sucedido nesse desafio”, afirma. “O meu é um entre muitos outros possíveis olhares sobre o tema”, diz. Para o autor, há riqueza na múltiplas narrativas e interpretações.

Os números referentes à escravidão são grandiosos, de acordo com Laurentino: maior território escravagista ocidental, o Brasil recebeu quase cinco milhões de cativos africanos, 40% do total de embarcados para as Américas. Não à toa, o país é o segundo em população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria. “Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor para a construção da nossa identidade”, diz.

Se o momento de lançamento da nova obra pode, para alguns, parecer inoportuno, o autor vê a possibilidade de debater assuntos como este: “Precisamos urgente cicatrizar as feridas, superar as divisões e encontrar pontos de união, que nos ajudem a caminhar em direção ao futuro e enfrentar os desafios mais urgentes”, diz. Resta descobrir se o desejo do autor, de que o livro contribua para o debate racional, se concretizará.

Serviço
“Escravidão – do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares”, de Laurentino Gomes. Globo Livros, 480 páginas, R$ 49,90.

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