Quando as livrarias de rua perdem as ruas | Jornal Plural
8 abr 2020 - 22h54

Quando as livrarias de rua perdem as ruas

Com lojas físicas fechadas, estabelecimentos usam a lógica de viver um dia de cada vez e buscam minimizar perdas

“Acho que a coisa mais otimista a dizer [na situação atual] é que estamos vivos pra poder reabrir a loja. Não tem outro jeito”, diz Mitie Taketani, proprietária da Itiban Comic Shop há 30 anos. Não é para menos. A Itiban fechou a loja física no dia 21 de março por causa do coronavírus, e segue fechada há 18 dias. Para compensar, a livraria cuida da loja virtual e tem feito vendas também pelo WhatsApp. 

À medida que a pandemia foi se agravando, fechar as portas virou uma questão de consciência. “Percebemos que continuar [com a loja aberta] era uma provocação, para fazer as pessoas saírem de casa. Então, para nossa segurança, e também dos clientes, para contribuir de alguma forma, a gente resolveu fechar”, diz Taketani.

Em janeiro de 2019, o Plural publicou uma reportagem sobre livrarias de Curitiba que incluía uma descrição bem parecida com o que tem acontecido nas últimas semanas, em várias partes do mundo.

“Uma sociedade sem pessoas circulando teria sido um bom argumento para um conto de Jorge Luis Borges ou um romance de José Saramago, sugere Bernardo Gurbanov. Presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), ele encontra nessa imagem uma forma de traduzir a crença de que livrarias só deixariam de existir num mundo povoado por seres confinados em suas próprias casas, algo improvável fora das páginas da ficção fantástica.”

“Livrarias de menos”, publicado em janeiro de 2019

Pois o improvável aconteceu. E trouxe com ele um cenário nunca visto. Se, em 2018, duas grandes redes de livrarias pediram recuperação judicial, e se a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro” já apontava que o mercado editorial no Brasil tem encolhido há pelo menos cinco anos, o momento atual é diferente e mais incerto. “Não tem como ter um plano a longo prazo, porque a gente depende muito de como as coisas vão ficar. Ninguém sabe o que vai acontecer até o fim desta semana”, diz Thiago Tizzot, sócio-proprietário da livraria e editora Arte & Letra. Desde 20 de março, o café está fechado, e a livraria e a editora fazem vendas apenas pela internet.

A necessidade de mudança, no entanto, não é uma novidade para quem está no setor há anos. “As livrarias, ao longo dos anos, precisam sempre achar novas formas de vender e de sobreviver”, diz Tizzot. Em meio à incerteza da pandemia, uma questão fica evidente: a necessidade de reinvenção: “O mercado é muito frágil”, avalia. Uma percepção compartilhada por outros três livreiros locais consultados pela reportagem.

Café e livraria estão com loja física fechada desde 20 de março. Foto: Divulgação

O mercado editorial está em uma espécie de limbo. Antes da pandemia, os problemas financeiros que pesavam sobre o setor – incluindo o calote da Cultura e da Saraiva – já demandavam soluções. Hoje, com medidas de isolamento físico em vigor por tempo indeterminado, o futuro das livrarias é incerto. 

Há 15 dias a Joaquim Livros & Discos também tem trabalhado no esquema de entregas. O atendimento acontece pelas redes sociais, e os livros chegam na casa dos compradores. A livraria já fazia parte das vendas pela Estante Virtual, mas viu na pandemia a necessidade de investir em outro canal de vendas. “Algumas pessoas sabem que esse período vai trazer dificuldades para a livraria e continuam comprando”, diz Marcos Ramos Duarte, proprietário da loja desde 2009. 

Ainda assim, a queda nas vendas é grande, algo em torno de 60%. “Para o tipo de comércio que a gente tem, é importante que as pessoas venham até a loja”, diz Duarte. Na Itiban, o trunfo era – justamente – os eventos realizados na loja física. Porque o desempenho da loja virtual é muito abaixo do esperado. “Se a meta [on-line] é vender mil reais, não se chega a 10% disso”, diz Taketani. 

Na Joaquim, shows aconteciam eventualmente. Foto: Lyrian Oliveira

A Livraria Vertov, criada em 2012, também tem acervo na Estante Virtual. Além das vendas por WhatsApp e das entregas, ela optou também por reduzir o horário de funcionamento da loja, que agora atende com hora marcada. Ainda assim, a queda no volume de vendas foi inevitável. “As vendas diminuíram drasticamente. Do dia 16 de março até esta semana [21 dias], temos um faturamento equivalente às vendas de uma semana do período anterior à crise do coronavírus”, diz Erich Meiners, sócio da livraria. A Vertov tira parte do seu rendimento de eventos internos e externos. 

Muito like e pouco retorno

“Como é que você se reinventa como um negócio atrativo on-line, quando grandes empresas oferecem tudo que você tem a um preço menor?”, questiona Duarte. Das quatro livrarias de rua, embora todas adotassem as vendas on-line como uma opção, nenhuma tinha o recurso como prioridade nos negócios. 

A questão de oferta é um dos problemas enfrentados. Fica inviável, enquanto pequenos negócios, cadastrar todo o acervo disponível. “Superimpossível competir com quem já está consolidado”, ressalta Taketani. Os preços praticados on-line também dificultam a concorrência. “Não conseguimos concorrer com a Amazon, e com as próprias editoras, que conseguem reduzir – com superdescontos – o preço de capa”, afirma Meiners. 

A saída, temporariamente, é procurar pelo próprio espaço nesse ambiente virtual, seja apenas para conseguir pagar as contas, ou para manter um rendimento mínimo. “Preciso encontrar alguma forma de resgatar essa peculiaridade, essa singularidade, que a livraria de rua tinha”, diz Tizzot. Para os pequenos, tentar competir com frete e preços on-line é inviável. 

Na Itiban, a aposta no momento são os “ItiKits”. A ideia é montar uma pequena coletânea de obras para serem arrematas com preços mais atrativos. “Mas geralmente a gente ganha muito like e pouco retorno”, diz Taketani.

Futuro incerto

Não ter grandes dívidas em aberto é uma solução que boa parte das livrarias adotou ao longo dos anos. Uma lição aprendida durante o encolhimento do mercado editorial nos últimos tempos. Essas medidas asseguraram que, até o momento, a maior parte dos negócios ainda consiga se manter apesar das quedas nas vendas. As dúvidas passam a crescer daqui em diante. Negociar com fornecedores é o primeiro item na lista de prioridades.

Vertov: espaço congregava eventos, lançamentos, clubes de leitura e grupos de estudo. Foto: Day Luiza

Soluções conjuntas, envolvendo o diálogo entre editoras e outras livrarias, também passam a ser mais viáveis. “As ações governamentais têm sido ‘lentas’ e bastante confusas, e claro que têm priorizado grandes empresas e os setores financeiros em vez dos trabalhadores”, diz Meiners. 

Em meio às dúvidas – e à pandemia –, uma das poucas certezas é a de que as coisas não voltarão a ser como antes. “A gente tem que pensar em muitas questões, não é só ‘aguentar o mês e voltar a como era antes’. Não vai ser assim”, diz Duarte. 

Para Taketani, os sinais que o público manda são importantes. “A gente vai se reinventando. (…) Cada movimento muito pequeno nos dá esperança: uma ligação, uma mensagem dos clientes. Qualquer coisa é muito importante para gente continuar trabalhando”, diz. 

Serviço
Atendimento Itiban
Via redes sociais, site da loja ou ainda pelo e-mail [email protected]
Entregas: terças, quintas-feiras e sábados
Frete sob consulta

Atendimento Joaquim Livros & Discos
Via WhatsApp – (41) 996 393 392
Entregas: quartas e sexta-feiras
Visita com hora marcada
Frete sob consulta

Atendimento Livraria Vertov
Via WhatsApp – (41) 995 613 967
Entregas e frente sob consulta
Atendimento com hora marcada

Atendimento Arte & Letra
Vendas por meio das redes sociais, pelo site da editora e por meio da parceria com a Cia. Das Letras.
Entregas e frente sob consulta

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