Livrarias de menos | Jornal Plural
16 jan 2019 - 0h00

Livrarias de menos

Curitiba é a capital do Sul com a pior relação livrarias/população. A oferta caiu ainda mais com o fechamento recente das lojas da FNAC e da Saraiva. Mas há quem veja o mercado com otimismo

Lorena Aubrift Klenk

Uma sociedade sem pessoas circulando teria sido um bom argumento para um conto de Jorge Luis Borges ou um romance de José Saramago, sugere Bernardo Gurbanov. Presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), ele encontra nessa imagem uma forma de traduzir a crença de que livrarias só deixariam de existir num mundo povoado por seres confinados em suas próprias casas, algo improvável fora das páginas da ficção fantástica. Uma convicção que não se abala mesmo diante dos recentes sinais de crise nesse mercado – que, só em Curitiba, perdeu três grandes lojas nos últimos meses.

“O homem é um ser gregário, tende a se juntar aos seus semelhantes. Isso vai perenizar esse tipo de comércio. Nem o livro e nem a livraria vão desaparecer”, diz Gurbanov, que vem se dedicando a tentar entender as razões para a contínua redução no número de negócios do gênero nos últimos anos. Segundo dados da ANL, em 2012 o Brasil tinha 3.481 livrarias. Em 2014 eram 3.095. A entidade estima que hoje sejam apenas 2.500.

Considerando o último dado oficial, de 2014, o país teria uma livraria para cada 64,9 mil habitantes – uma proporção muito inferior ao que a Unesco preconiza como ideal, que é uma livraria para cada 10 mil habitantes. Como a distribuição geográfica das lojas é muito desigual – o Sudeste concentra 55% do total e o Sul, 19%, enquanto o Nordeste tem 16%, o Centro-Oeste 6% e o Norte, apenas 4%  –,  é natural que uma cidade como Curitiba tenha uma densidade maior.

O levantamento da ANL indica a existência de 58 livrarias em Curitiba em 2014 – o que dá uma proporção de uma para cada 33 mil habitantes. Comparando com a média nacional, parece bastante. Mas basta olhar para a realidade de uma cidade como Florianópolis (com uma livraria por 19,7 mil habitantes) ou como Porto Alegre para mudar essa visão. Com população menor que a de Curitiba, a capital gaúcha tinha 89 livrarias em 2014. Uma para cada 16 mil habitantes, o que equivale ao dobro da proporção da capital paranaense.

Gurbanov afirma que dificilmente essa diferença sofreu alguma mudança significativa desde então. Uma explicação bastante convincente para o abismo entre as duas realidades vem de Thiago Tizzot, sócio da Arte & Letra, livraria e editora de Curitiba que há 12 anos desafia os prognósticos negativos para o segmento livreiro. “Não acho que podemos dizer que os gaúchos leem mais ou são mais cultos. O que acontece é que Porto Alegre tem todo um ambiente favorável ao consumo de livros, o que inclui a forma como eles encaram a produção local. É algo que em Curitiba estamos apenas começando a construir”, afirma.

Ele lembra, por exemplo, que Porto Alegre tem uma das mais antigas feiras de livros do país, que ocorre há 64 anos na Praça da Alfândega, no centro histórico. Desde 1994 a cidade lança edições anuais do Prêmio Açorianos de Literatura, voltado exclusivamente para a produção local. Autores gaúchos ocupam espaço de destaque em muitas livrarias da cidade, e os interesses da classe são defendidos pela Associação Gaúcha de Escritores, que existe desde 1981 e tem entre os fundadores nomes como Moacyr Scliar e Mário Quintana.

Acostumado a viajar em função de sua atividade, Tizzot diz que é frequente encontrar pessoas que, conhecendo autores paranaenses como Cristovão Tezza, Luís Henrique Pellanda, Luci Collin e Guilherme Gontijo Flores, imaginam Curitiba com uma cena literária agitada. “Aí descobre que não tem. Mas devagar estamos começando a trilhar esse caminho”, diz.

“Não pode ser só isso”

Sócio do irmão Frede na Arte & Letra, Thiago Tizzot não fala em números quando indagado sobre os aspectos financeiros da empresa. “O que posso dizer é que estamos aí há 12 anos. Sempre pode melhorar, mas o negócio consegue se manter”, diz ele. Além da loja no bairro Batel, os irmãos administram um café no mesmo local, a editora (que surgiu em 2001 e foi a semente do negócio), um café no interior da Biblioteca Pública do Paraná (onde os únicos livros à venda são os publicados pela editora Arte & Letra)  e uma filial da livraria aberta há pouco mais de seis meses no campus da PUCPR.

Thiago e Frede Tizzot, da Arte & Letra: 12 anos no mercado. Foto:
André Dalla Pria .

Para Tizzot, o que explica a sobrevivência da Arte & Letra, ao mesmo tempo que muitas livrarias fecharam, é o modelo de negócio adotado. “Enquanto as livrarias não se adaptarem à nova configuração do mercado, muitas continuarão fechando”, afirma. De acordo com ele, o ponto de inflexão para o segmento no Brasil foi a entrada da Amazon no mercado nacional, afetando não apenas as concorrentes presentes no mundo digital, mas também as lojas físicas: “Já não basta ter livros à venda. Vejo muita livraria que recebe as caixas das editoras, expõe os livros e fica esperando. Se a empresa é pequena e oferece isso, não vai vender, porque o consumidor encontra esses livros na Amazon ou em outros sites, geralmente a preços menores. É preciso oferecer alguma coisa diferente”.

O que, por exemplo? Um café, como a própria Arte & Letra possui? “Também, mas hoje quase toda livraria tem um café. Não pode ser só isso”, continua Tizzot. Para ele, o segredo está em encontrar um conceito. “Depois que abrimos e começaram a sair notícias sobre a Arte & Letra, surgiram quatro ou cinco livrarias na região. Todas fecharam, porque não tinham uma ideia que as sustentasse. É preciso descobrir algo que interesse ao leitor e acreditar nessa ideia.”

Já não basta ter livros à venda. Vejo muita livraria que recebe as caixas das editoras, expõe os livros e fica esperando.

Thiago Tizzot, dono da Arte & Letra

A ideia na base da Arte & Letra, segundo ele, é manter um acervo que seja importante para o leitor. “Noventa por cento dos cerca de 5 mil títulos que temos são livros selecionados por nós por alguma razão. Há um porquê para cada livro estar lá”, diz Tizzot. O atendimento, segundo ele, também faz toda a diferença. Quem chega na livraria é atendido por um dos seis funcionários ou, com frequência, por um dos donos. “A gente sempre tenta ir além de dizer que tem ou não tem determinado título. Nosso cliente geralmente quer descobrir coisas novas, entrar em contato com editoras e autores novos.”

“Se gostar, venha pagar”

Pelo menos um aspecto os irmãos Tizzot têm em comum com o mais tradicional livreiro da cidade: no ramo há 52 anos, Aramis Chain faz questão de manter o contato direto com a clientela de sua livraria, localizada atrás da Reitoria da UFPR. Algumas estratégias são inusitadas. Não é raro, por exemplo, ver o livreiro de 75 anos na porta da loja oferecendo um livro “emprestado” para alguém que passe por ali, mesmo que ele jamais tenha visto a pessoa antes. “Eu digo: leve. Se não gostar, você me devolve. Se gostar, vem me pagar. Noventa por cento das pessoas vêm pagar e ainda levam mais um livro”, conta.

Chain considera seu negócio “uma das últimas livrarias do país”. “A maioria são papelarias, vendem de tudo, e os livros são secundários ali”, afirma. Na Livraria do Chain, os livros ocupam todo o espaço de 500 metros quadrados. Ao contrário de Tizzot, porém, ele não vê o cenário com otimismo. “No mundo todo, mas principalmente no Brasil, há um desinteresse pelo conhecimento e pela leitura. Há uma substituição do conhecimento pela riqueza mais mundana e as relações familiares mudaram muito”, diz ele, em meio a comentários sobre a disseminação da maconha, a perda de valores, o consumismo exacerbado, a proliferação de faculdades a distância que não estimulam o saber e o comportamento da classe política.

“Eu digo: leve. Se não gostar, você me devolve. Se gostar, vem me pagar. Noventa por cento das pessoas vêm pagar e ainda levam mais um livro”

Aramis Chain, livreiro

Aramis Chain conta que chegou a ter 45 funcionários e um acervo de quase 100 mil títulos. Hoje, informa ter 50 mil títulos e oito funcionários em Curitiba (mantém também uma loja em Guarapuava). Sua sucessora no negócio é a filha Amanda, formada em Administração de Empresas. “Ela telefona para os clientes, visita escolas”, conta, antes de mostrar um certo desalento sobre o futuro da livraria: “Não posso dizer se as livrarias vão desaparecer, mas o futuro é incerto”.

Promiscuidade e imoralidade

Bernardo Gurbanov: momento de “promiscuidade” afeta livrarias. Foto: Divulgação.

Aramis Chain e o presidente da Associação Nacional de Livrarias, Bernardo Gurbanov, utilizam palavras diferentes para definir as distorções enxergadas por ambos no mercado de livros e que, de acordo com eles, estão na raiz da onda de fechamento de livrarias. Chain diz que o contexto atual é “imoral”, em razão de fatos como o financiamento do BNDES a livrarias que depois quebraram, como a Cultura, e a relação direta entre editoras e consumidores.

Gurbanov, por sua vez, afirma que “a cadeia da produção e comercialização de livros vive um momento de promiscuidade”. “Todo mundo vende para todo mundo, sem respeitar a cadeia do setor. As editoras de didáticos, por exemplo, vendem para o consumidor com praticamente o mesmo desconto que dão para as livrarias. Ou seja, o livreiro perde clientes para o seu próprio fornecedor”, critica.

“A cadeia da produção e comercialização de livros vive um momento de promiscuidade.”

Bernardo Gurbanov, presidente da ANL.

Com experiência de mais de 50 anos no mercado livreiro, o presidente da ANL – que é dono da Editora e Livraria Letraviva – diz que o fechamento de lojas de grandes redes serviu para chamar a atenção para a necessidade de reorganizar o processo de produção e comercialização de livros. Ele gosta de comparar o segmento com o mercado de medicamentos: “Enquanto em número de livrarias o Brasil está muito aquém do ideal, quando se trata de farmácias temos cerca de 90 mil – oito ou nove vezes mais que o preconizado pela Organização Mundial da Saúde. Mas nessa cadeia não há promiscuidade. Laboratório não vende direto para o consumidor, que só compra na farmácia”.

Luto pela Bisbilhoteca

É uma situação que a psicanalista Cláudia Serathiuk conhece bem. Durante cinco anos, de 2007 a 2012, ela administrou a Bisbilhoteca, livraria voltada exclusivamente para o segmento infanto-juvenil, que fechou as portas para não acumular mais prejuízo.  Leitora desde bem jovem, e na época mergulhada na literatura infantil por causa dos dois filhos pequenos, ela vislumbrou um nicho promissor e preparou-se para o negócio.  “Fiz muita pesquisa, cursos, viajei para o Rio e São Paulo, conversei com muitos livreiros”, conta.

O ambiente da Bisbilhoteca era muito convidativo. Colorido, alegre, tinha sempre alguma programação cultural e atendentes que sabiam o que faziam. Conheciam os livros e davam indicações adequadas ao interesse do cliente. O acervo tinha livros do mundo todo, que não se encontrava em outras livrarias da cidade – fruto do permanente esforço de pesquisa de Cláudia.

Ela conta que viveu um luto quando precisou encerrar o negócio: “Até hoje me emociono quando falo disso. A livraria foi um sucesso culturalmente, mas não se viabilizou financeiramente. O lucro líquido de uma livraria como a minha é de 5%, no máximo, o que é uma margem muito pequena”.

Cláudia atribui o fechamento da Bisbilhoteca a fatores como a mudança no perfil da região onde estava instalada, ao lado da Praça da Espanha, no Bigorrilho.  “Virou uma região de agito, bebedeira, e isso afastou muitas famílias. Pensei em mudar de lugar, mas não tinha mais capital e não encontrei sócios afinados com a ideia de manter o foco na literatura infanto-juvenil”, diz. Mas o fator preponderante, segundo ela, foi o fortalecimento do comércio eletrônico, especialmente a partir da chegada da Amazon: “Fazíamos um trabalho de formação de leitores, mas a maioria das pessoas ia lá, recolhia nossas indicações e depois ia comprar na Internet por um preço menor”.

Passados seis anos do fechamento da Bisbilhoteca, Cláudia diz que, hoje, mudaria algumas coisas na forma como conduziu o negócio, mas acha que não errou ao apostar num nicho específico. “Isso não está entre as causas do fechamento. Acho que hoje as livrarias pequenas talvez tenham mais chances de sobrevivência do que as grandes, desde que tenham um foco e agreguem serviços”, afirma.

Ecossistema afetado

O fato é que ninguém consegue prever com certeza o que acontecerá com o mercado de livrarias quando a economia se recuperar e as melancias se ajeitarem na carroça depois do solavanco sofrido com a crise na Cultura e na Saraiva, ambas em processo de recuperação judicial.

Thiago Tizzot, da Arte & Letra, defende que não há uma crise no setor, mas problemas decorrentes de escolhas equivocadas. “No caso das redes Saraiva e Cultura, parece que houve um problema de gestão, agravado pela recessão. Mas como elas são muito grandes, o fechamento de lojas chama a atenção do público”, afirma.

Saraiva do Crystal: atividades encerradas no fim de 2018. Foto: Lorena Aubrift Klenk.

A Saraiva fechou no fim de dezembro as duas lojas que tinha em Curitiba, nos shoppings Mueller e Crystal (que agora não tem nenhuma livraria). A loja da rede no Crystal foi a primeira grande livraria a abrir na cidade, e seu fechamento entristeceu muita gente. Embora considerasse a Saraiva e a maior parte das outras livrarias apenas “lojas que vendem livros”, Fabiane Cristina Silva Mesquita conta que recebeu “com muito pesar” a notícia de que a empresa fecharia suas lojas em todo o Brasil. Mestra e doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela conta que não troca uma livraria por um site de livros na Internet: “Gosto de folhear antes de comprar, de devanear entre um livro e outro, sensação que a Internet não pode propiciar”.

Poucos meses antes da Saraiva, em setembro de 2018, a FNAC (pertencente à Cultura) havia encerrado as atividades no ParkShoppingBarigüi.

A Cultura ainda mantém sua imensa unidade de dois pisos aberta no Shopping Curitiba. A Livraria da Vila do Pátio Batel forma com ela a dupla restante das redes de fora que permanecem em Curitiba. A presença mais marcante do setor na cidade é de um grupo local, as Livrarias Curitiba, que fundado há 55 anos e que continua ampliando sua participação. O grupo – que não respondeu aos pedidos de entrevista para esta reportagem – tem, de acordo com informações de seu site, 29 lojas espalhadas por 16 cidades do Paraná, Santa Catarina e São Paulo.

Em Curitiba, além da distribuidora – que recentemente recebeu investimentos de R$ 34 milhões para a construção de uma nova sede –, são sete lojas, das quais apenas uma de rua (na Boca Maldita, centro da cidade). A oitava será aberta este ano, no Jockey Plaza, o próximo shopping center a ser inaugurado na cidade.

Todas as unidades de shoppings são megalojas, que vendem muito mais do que livros – um modelo que não funcionou para outras redes, agora em dificuldades. “O que aconteceu com algumas grandes redes foi que elas se expandiram a partir de um modelo vitorioso nos anos 1990, baseado em lojas de shopping com grandes superfícies. Com as mudanças de hábitos provocadas pela tecnologia e a recessão prolongada, elas entraram numa guerra de preços fratricida, sacrificando parte do seu lucro para sobreviver. Mas isso, com o tempo, prejudicou todo o ecossistema do livro”, analisa o presidente da ANL, Bernardo Gurbarov.

Espaços vazios

As administrações dos shoppings não informam o destino pretendido para os espaços deixados pelas livrarias que fecharam as portas em Curitiba. O Crystal e o Mueller não quiseram falar. A diretora de Marketing do ParkShoppingBarigüi, Silvia Pires Omairy, respondeu da seguinte forma à pergunta sobre se o shopping pretende atrair outras livrarias para substituir a FNAC: “Novidades fazem parte do nosso dia a dia e, em breve, teremos algumas boas para divulgar”.

A FNAC ocupava desde 2004 uma área aproximada de 2 mil metros quadrados do centro comercial. De acordo com Sílvia, mesmo com todas as transformações do mercado, a importância relativa das livrarias no mix de lojas não foi reduzida nesse período entre a chegada e o fechamento da FNAC: “De forma alguma. São espaços fundamentais para proporcionar experiências diferenciadas a cada vinda ao shopping. Muito mais que vender livros, as livrarias modernas são espaços de convivência e até conveniência. Por isso, têm presença garantida na composição de um bom mix de lojas”.

Bernardo Gurbarov, porém, acha que a experiência negativa de algumas redes e os altos custos para manutenção de uma loja em shopping podem levar a um aumento no número de livrarias de rua. Seja como for, acredita, haverá sempre um lugar onde comprar um bom livro e encontrar pessoas: “Socialmente a livraria tem um papel civilizador, e por isso é imprescindível”.

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