Morre um grande poeta | Jornal Plural
30 abr 2019 - 9h20

Morre um grande poeta

Leia alguns poemas de Les Murray em tradução para o português

Morreu nesta segunda-feira um dos mais importantes poetas de língua inglesa dos últimos tempos. Les Murray, um australiano bonachão, com versos que sempre foram uma mistura da poesia clássica com a sabedoria do homem simples do interior do país, faleceu aos 80 anos.

Sempre cotado para o Nobel, foi malvisto por alguns por ter uma postura religiosa e um tantinho conservadora, na comparação com a maioria dos grandes poetas. Eu, particularmente, tenho paixão por tudo que ele escrevia.

Abaixo você lê alguns dos poemas mais importantes dele, em tradução que pode passar longe do ideal, mas que dá uma ideia do que ele sabe fazer com as palavras.

Um arco-íris absolutamente ordinário

O rumor corre por Repins,
O murmúrio corre por Lorenzinis,
na Tattersalls, homens tiram os olhos de planilhas de números,
os escrevinhadores da Bolsa de Valores esquecem o giz em suas mãos
e homens com pão em seus bolsos saem do Clube Grego:
Tem um sujeito chorando em Martin Place. Eles não conseguem pará-lo.

O trânsito na Rua George engarrafou por um quilômetro
e parou de se mover. As multidões estão irritadas com a conversa
e mais gente vem correndo. Muitos correm de outras ruas
que minutos atrás eram ruas importantes de negócios, apontando:
Tem um sujeito chorando ali. Ninguém consegue pará-lo.

O homem que cercamos, de que ninguém se aproxima
simplesmente chora, e não se cobre, chora
não como uma criança, não como o vento, como um homem
e não faz isso declamando, nem bate no peito, nem mesmo
soluça muito alto – e mesmo assim a dignidade de seu choro

nos mantém longe de seu espaço, o oco que ele forma em seu redor
à luz do meio-dia, em seu pentagrama de tristeza,
e uniformes longe na multidão que tentaram pegá-lo
olham para ele, e sentem, maravilhados, suas mentes
desejando lágrimas como crianças desejam um arco-íris.

Alguns dirão, anos depois, que um halo
de força se formou ao redor dele. Isso não existe.
Alguns dirão que eles ficaram chocados e que o parariam
mas eles não terão estado lá. A mais feroz virilidade,
a reserva mais firme, a mais lisa inteligência entre nós

treme de silêncio, e queima com inusitados
julgamentos de paz. Alguns na multidão gritam
eles pensavam ser felizes. Só as crianças menores
e os do mesmo gênero ao olhar para fora do Paraíso se aproximam dele
e se sentam a seus pés, com cães e pombos empoeirados.

Ridículo, diz um homem perto de mim, e fecha
sua boca com as mãos, como se tivesse proferido vômito –
e vejo uma mulher, brilhante, esticar a mão
e tremer quando recebe o dom do choro:
todos os que a seguem também o recebem

e muitos choram por mera aceitação, e outros mais
se recusam a chorar por medo de toda aceitação,
mas o homem chorando, como a terra, não exige nada,
o homem que chora nos ignora, e derrama
de seu rosto contorcido e de seu corpo ordinário

não palavras, mas tristeza, não mensagens, mas dor,
duro como a terra, simples, presente como o mar –
e quando ele para, ele simplesmente anda entre nós
esfregando seu rosto com a dignidade de um
homem que chorou, e agora terminou de chorar.

Fugindo dos crentes, ele se apressa pela Rua Pitt.


Os Mitchells

Eu vejo isso: dois homens sentados num poste
que cavaram um buraco e vão, depois do almoço, erguer
acho que pra fiação. Água ferve numa lata.
Abelhas zunem seu turno na névoa do branco

florir das acácias, sob o meio dia das sebes.
Comem grandes sanduíches de carne de uma caixa
de isopor com alça. Se entreouve um falando:
seca aquele ano. É. Que nem arar a estrada.

O primeiro, questionado, diria Eu sou um dos Mitchells.
O outro olharia um instante, folhas secas na mão,
e levantando os olhos, com dor e sutil diversão,
diria Eu sou um dos Mitchells. Do par, um já foi rico
mas nunca deixou de usar seu velho chapéu manchado de óleo. Quase tudo
que eles dizem é ritual. Algumas vezes a cena é numa avenida.


História legal

A identidade supersimplifica os humanos
ela nega o híbrido, como as árvores não podem.

Árvores, que se embrulham altas em páginas
autocosturadas a partir de terra água e luz

São pergaminhos fixos, lidos melhor quando fechados.
Elas se inclinam para as outras e para longe

Numa política de rivalidade solar
ou de entrelaçados modos no solo.

Lâminas cortadas delas são fiéis
fotocópias detalhando alimento e ancestrais.

Pela eternidade, seus anos concêntricos
serão eloquentes sobre sofrimento e velhos ares.


A cabeça derrubada

Uma grande cabeça careca dorme
como Lênin numa calçada.
Inclinando para trás, começa
um imenso ronco de respiração pela boca
sufocante como uma tempestade,
alto como uma porta de hangar
correndo sobre trilhos
mas sua companheira gentilmente
remolda seu travesseiro, até que
sua posição seja mais uma vez fetal,
respirando em direção aos pés.
Seu timbre se cala, e
a glote morre num gole.

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