Ela escreveu um poema-protesto para uma geração cansada - Jornal Plural
8 set 2021 - 11h35

Ela escreveu um poema-protesto para uma geração cansada

Poesia de Jessica Stori é um retrato do Brasil à beira do colapso

Quando pôs suas mãos de aranha para escrever Carne e colapso, em 2018, Jessica Stori criou um dos poemas-protesto que melhor simbolizam a exaustão a que fomos submetidos nos últimos anos.

Página 43:

“eu vivo no Brasil

e isso é muito

para se ter em um corpo”

Não à toa, suas palavras saíram do livro publicado pela Urutau em 2020 e tomaram as redes sociais, os muros e os cartazes empunhados por quem – como eu e você – compartilha do mesmo peso.

Jessica nasceu no bairro Uberaba, em Curitiba. Na juventude, descolou uma bolsa de estudos e construiu uma carreira acadêmica como historiadora, mas no meio do caminho teve de aprender a fazer muita coisa para pagar as contas – de telemarketing a serigrafia. 

Agora ela é escritora e vive no coração da cidade, entre as plantas, o namorado e as cadernetas. “Eu me mantenho conectada com a Jessica criança que encontrou nos estudos motivos para acreditar em si mesma, viu ali uma ponta de confiança. Gosto de escrever, de ler, de pesquisar, de fazer colagem, de assistir, de ouvir”, divide. 

Apesar da tímida ascensão social, sua obra retrata um país vivido às margens, prestes a colapsar em suas dicotomias burguesas. Em entrevista ao Plural, a autora fala da experiência de botar as tripas no papel e oferecer identificação para uma geração cansada.

Plural: Quem é Jessica Stori? Ela gosta de quê?

Jessica: Sou formada em História pela PUCPR, onde fui bolsista Prouni. Atualmente faço meu doutorado em História na Universidade Federal do Paraná. Já trabalhei como ajudante de serigrafia, como telemarketing e como redatora. Gosto de estar em casa, com o Dédallo [Neves], com as plantas, com as minhas cadernetas. Gosto da rua, de estar rodeada de amigos. Gosto do silêncio, mesmo que tenha um pouco de medo. Gosto ainda mais de um silêncio sem expectativa, este que ainda tenho me aproximado. Gosto de ver minha família e amigues com saúde. Gosto quando as pessoas me contam suas impressões sobre o meu livro, gosto de dar minhas impressões sobre os livros das pessoas. Gosto de caminhar e de estar parada. Gosto de lavar o rosto e passar creme nos pés. Gosto quando alguém, do nada, começa a fazer carinho no meu cabelo em algum lugar aleatório.

Foto: Dédallo Neves

Me conta a sua história com a literatura? Quando é que você começou a escrever com vontade de publicar?

Gosto de pensar que a escrita sempre esteve comigo mesmo sem eu saber que queria ser escritora. Sempre escrevi diários e cartas e gostava de ter um caderno e uma caneta por perto. Colocava tudo ali desde muito nova, mas só fui escrever algo que não tinha a ver comigo perto dos 15 anos, quando escrevi o que eu pensava sobre o destino. Aí eu comecei a fugir da minha experiência e criar outras possibilidades com a escrita. Acho que a escrita está sempre com a gente porque a memória está, porque o esquecimento está. Falar de si, contar sobre o que se passou, é também inventar. Comecei a apostar no que escrevia quando um pouco depois passei a trocar textos com uma amiga, ela escrevia muito. Esse primeiro momento de partilha me entusiasmou a escrever mais e mandar mais textos para ela. Foi por aí que a palavra escritora surgiu na minha cabeça e eu soube o que queria ser. Depois conheci o Dédallo, com quem também troquei muitos textos, ele me lia com atenção, me fazia boas críticas e me estimulava a escrever. Ainda faz tudo isso. Apostei na literatura em voz alta em 2016, quando publiquei meu primeiro conto no Livro dos Novos III (Travessa dos Editores). Desde então sigo o desejo.

Você faz parte da Membrana Literária, junto de artistas curitibanas que atingiram projeção nacional. Vocês se descrevem como uma grupa interessada na criação de uma rede afetiva, crítica e colaborativa entre pessoas que escrevem, certo? Como você vive essa troca?

Fiquei sabendo da Membrana logo quando ela apareceu nas redes sociais. Queria muito participar em seu primeiro ano, 2017, mas estava terminando a monografia e fazendo o projeto de mestrado. Deixei para o outro. Quando então vi que era a hora, no começo de 2018, mandei uma mensagem para o Francisco Mallmann e para a Julia Raiz, os dois também tinham publicado no Livro dos Novos III. Fui em uma reunião lá por maio e a Membrana transformou tudo aqui. Minha busca pela grupa foi de continuidade às primeiras trocas, eu queria conversar com outras escritoras que eu não conhecia, queria ler o que elas estavam escrevendo, ouvi-las. E foi isso, fui atravessada por elas, somando o meu desejo ao delas, colocando o que eu escrevia para jogo, ouvindo críticas honestas, mudando os caminhos, visualizando novas possibilidades criativas. Além de ser um encontro que significou meu crescimento e meu entendimento como escritora, eu encontrei irmãs para a vida.

Ano passado, você lançou um livro chamado Carne e colapso. Quando ele começou a nascer?

Eu comecei a escrever Carne e colapso em 2018. O livro foi elaborado durante meu primeiro ano de análise, um ano de tentativa de organização da minha própria história e, acredito que por isso, um período de criação. O contato com essas memórias me fez querer recriá-las, inventar em meio aos meus atravessamentos sobre o passado em contato com o presente, com o chão Brasil daquele momento – que se mostrava pavoroso, que se fez pavoroso através das urnas e todas as ações de morte que estamos vendo e vivendo mesmo antes da pandemia. Hoje vejo que o título não poderia ser outro, nem o tom. Apesar da dor, eu tentei construir um caminho de movimento, ver as memórias, as sensações, o Brasil e inventar outra coisa, mentir, brincar, colocar prazer nas histórias, a prática e o gozo, tocar tudo com a mão, as mãos tão presentes no livro. Por isso termino com histórias de corrida, o livro no fim com vontade de correr, ouvir outras pessoas contando sobre si, inventando sobre si. E ainda maior que meu corpo, que minha história inventada e atravessada pelo Brasil, o livro é sobre o choque com a palavra e sobre a necessidade de criar redes para além do tempo e do espaço com outras pessoas que escrevem, que pensaram coisas estranhas, que transformaram.

Durante a leitura, eu me vi numa Curitiba periférica que conheço bem. Como você sente que traz a cidade para a sua escrita?

Eu nunca pensei muito na presença de Curitiba nos poemas de Carne e colapso, senão as visualizações que tenho do Uberaba, bairro onde cresci. O Uberaba é meu lugar de inauguração no mundo, foi em suas ruas que eu me formei, que eu comecei a me sentir criativa. Eu lembro de estar sentada no meio-fio da rua Professor Toshiaki Saito escrevendo uma carta ou na Augusto Zibarth escrevendo diários. Eu consigo ver meus caminhos por todas as suas ruas na minha cabeça. Foi ali que conheci Deus, o que eu chamo para uma conversa no livro, foi ali que eu aprendi a dançar, um dos movimentos que eu escrevo em Carne, foi ali que eu me fechei em casa na semana da Chacina do Uberaba. Foi ali que eu vi despejo, desemprego, alcoolismo, mães correndo contra o tempo, contra tudo, fazendo acontecer. Crianças correndo para a rua, cheias de energia e voltando de pé sujo para casa. O Uberaba está em minha escrita muito mais do que eu sei.

Um dos seus poemas deu uma bela viralizada, né? Eu vi nas redes sociais de gente como a Camila Pitanga, no Papel Mulher, nos cartazes dos protestos… Como isso reverberou por aí?

Eu fiquei, em primeiro lugar, surpresa e feliz, pela circulação do que eu escrevi e por uma sensação de conexão com outras pessoas que vivem o Brasil, apesar do Brasil. Quando outra pessoa se apropria do que você escreve é muito doido e pode ser muito bonito. Acredito que esse tenha sido o caso, vi muita beleza nessa reverberação, como o poema se desvincula do corpo que o escreveu e da organização em livro, chega em tanta gente e significa em níveis diferentes. O que cada um desses corpos cria com o poema é algo novo. 

Ele tem muito a ver com o momento que a gente está vivendo, virou um poema-protesto. O que você estava sentindo quando escreveu? 

Eu vivo no Brasil era um trecho de um poema que escrevi para a Matilde Campilho depois de ler uma entrevista sobre seu período no Brasil. Depois disso, eu senti uma vontade enorme de escrever sobre o que era viver no Brasil. O que sobrou do poema foram as três linhas. Pode ser que ele tenha virado um poema-protesto, vejo que ele aparece em dias de notícias que tendem a nos arrancar de qualquer inércia ou apatia. Eu gosto de vê-lo pela revolta.

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