O levante feminista que abriu o Bar Palácio para mulheres "desacompanhadas" - Jornal Plural
8 set 2021 - 12h19

O levante feminista que abriu o Bar Palácio para mulheres “desacompanhadas”

Em 1984, o gerente do tradicional bar de Curitiba se recusou a atender quatro estudantes e o caso foi parar na delegacia

“Bar Palácio terá que enfrentar feministas”, anunciava a manchete do jornal O Estado do Paraná na edição de 4 de fevereiro de 1984. A reportagem da jornalista Adélia Lopes falava de uma marcha agendada para a semana seguinte, em repúdio à discriminação do proprietário, o espanhol José Lopes, conhecido como “Pepe”. Na época, a lei máxima do estabelecimento era não servir mulheres “desacompanhadas”.

Aos 80 e poucos anos, seu Pepe ainda é dono do bar, mas está debilitado e não concede mais entrevistas. A gerência da casa ficou com Laurindo Graciano, ou apenas “Graciano”, como é chamado pela clientela. Ele começou a trabalhar no estabelecimento exatos dez anos depois do episódio e herdou as histórias contadas pelo proprietário.

“Eu soube que essa regra foi uma maneira que eles encontraram de manter o ambiente familiar. Naquele tempo o Bar Palácio ficava ao lado do Centro de Convenções, numa rua com muitas garotas de programa. Elas entravam para conquistar os clientes”, fala Graciano.

Em 2006, a historiadora Mariana Corção escreveu um livro sobre o bar que corrobora a declaração do gerente. “O Palácio é um espaço tradicional que foi aberto na década de 1930, na rua do Palácio do Governo, para ser frequentado por políticos e homens da alta sociedade. Como o bar era noturno, eles evitavam que prostitutas utilizassem os serviços para manter o nível de sociabilidade elevado”.

“Entre as décadas de 1960 e 1970, com a revolução sexual, a regra começou a ficar deslocada”, acrescenta a pesquisadora. No entanto, a diretriz machista permaneceu inquestionada pela conservadora sociedade curitibana até a madrugada do dia 27 de janeiro de 1984, quando os funcionários se recusaram a atender quatro estudantes boas de briga: Sonia Cristina Bittencourt, Cláudia Sigmalt, Vera Lúcia Bittencourt e Isabel Cristina Oliveira. 

A farra acabou na delegacia

Em 1984, Babel – apelido de Isabel – era uma estudante universitária de vinte e poucos anos que gostava de se divertir com as amigas pelos bares, festas e casas noturnas da cidade. Mas naquele 27 de janeiro, a noitada foi um bocado diferente e terminou na delegacia.

“A gente saiu do London e foi ao Palácio pensando: eba, vamos comer, recuperar as forças e depois vamos pra casa, né? Geralmente era lá que rolava o fim da noite. Dava pra ir de longo ou de jeans, a gente encontrava gregos e troianos. Só que eu nunca havia percebido que sempre estava acompanhada dos namorados ou dos amigos”, resgata.

Ao chegar no estabelecimento, elas receberam o aviso indigesto. “O garçom nos disse que eles não serviam mulheres desacompanhadas. Quando ele começou a falar, nós achamos que era brincadeira, mas aí percebemos o bar todo olhando pra nós. A Sonia levantou pra dez e falou: ‘Como assim? Vamos pedir pra alguém sentar aqui’. Mas ele repetia que não podia, não podia e não podia: era a regra da casa”.

Após ouvirem as mesmas palavras da boca do gerente, elas saíram em busca da delegacia mais próxima. “A Sonia queria fazer o boletim na mesma madrugada. Andamos várias delegacias e não achamos nenhuma aberta – o que foi muito estranho, porque se fosse qualquer outra coisa mais grave, não tinha como fazer o boletim de ocorrência”.

As quatro combinaram de prestar queixa na manhã seguinte, tempo suficiente para o burburinho se estender pela cidade e atrair a mídia. No mesmo dia, a mãe de Babel soube do ocorrido pelo rádio e ficou chocada ao ouvir que a filha havia transgredido a moral curitibana. 

Quando os fotojornalistas chegaram na delegacia, Babel diz que virou para Claudia e disse: nós parecemos assassinas. Imagem: Gazeta do Povo/acervo da Biblioteca Pública do Paraná

“Toda luta tem muito sofrimento, não tem glamour. Tivemos que prestar depoimento com todo mundo apontando o dedo pra nós, perguntando por que as moças não estavam em casa. Lidamos com a família e também com a opinião pública”, diz a bibliotecária.

Direito garantido

No dia 29 de janeiro de 1984, o jornal O Estado do Paraná publicou o desfecho do caso. A nota intitulada “Mulher já pode ir sozinha ao Palácio” dizia que o gerente do bar foi intimado, depôs na delegacia e se comprometeu a não mais discriminar mulheres. “É contravenção penal. Ele não sabia”, informou a redação. 

O mesmo texto registrou que as moças voltaram ao espaço acompanhadas de mais oito mulheres, “formando uma caravana disposta a fazer valer a condição de cidadãs em dia com seus direitos políticos”, e finalmente foram aplaudidas e servidas.

Imagem: acervo da Biblioteca Pública do Paraná

“De fato, houve uma mudança. Depois desse episódio, eles começaram a servir mulheres desacompanhadas, principalmente nesse perfil de estudantes, intelectuais e filhas de clientes”, afirma Mariana Corção.

Quase 40 anos depois, Babel celebra o direito conquistado. “Todos ganharam: a cidade que deixou de ser um tantinho retrógrada e conservadora, as mulheres que foram ouvidas e o Bar Palácio que passou a atender as lindas senhoritas ‘desacompanhadas’, como eles chamavam. Cá entre nós: a gente nunca esteve desacompanhada”. 

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4 comentários sobre “O levante feminista que abriu o Bar Palácio para mulheres “desacompanhadas”

  1. Tinha também aquele restaurante japones Kamikaze (em Santa Felicidade, na Manoel Ribas), onde o dono se orgulhava de dizer que não servia mulheres desacompanhadas. Isso já era fim dos anos 80 ou começo dos 90.

  2. Parabéns Sonia Cristina Bittencourt, Cláudia Sigmalt, Vera Lúcia Bittencourt e Isabel Cristina Oliveira. 1984 foi um momento importante na história do Brasil que precisamos recuperar nestes tempos agora do GENOCIDA.
    Sobre o Kamikaze não sabia. Cheguei a comer lá e podia ter feito um protesto.
    Avante Mheres da Boa Luta.
    #ForaBolsonaro

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