Documentário retrata perplexidade com a síndrome da resignação | Jornal Plural
17 fev 2020 - 22h16

Documentário retrata perplexidade com a síndrome da resignação

Médicos são incapazes de explicar o que leva crianças refugiadas na Suécia a ficarem inertes, numa espécie de coma, diante do risco de serem deportadas

“A vida em mim”, produzido no ano passado, estreou há algum tempo na Netflix. O ponto de partida do documentário é uma patologia estranha chamada síndrome da resignação. Ela afeta crianças de mais ou menos dez anos de idade, filhas de famílias imigrantes que tentam escapar de barbaridades em seus países de origem. O curioso é que isso acontece muito mais com famílias que buscam asilo na Suécia.

Os sintomas da síndrome da resignação começam quando uma criança deixa de falar. Depois, aos poucos, ela vai parando de comer. Em seguida, ela fica completamente indiferente ao mundo. Imóvel, sem comer nem beber água, de olhos fechados, sem emitir nenhum som. É como se estivessem em coma.

Os médicos parecem perplexos diante desse distúrbio, e não sabem explicar os motivos, origens ou mesmo como as crianças escapam do estado vegetativo – e algumas delas conseguem se recuperar, às vezes depois de mais de um ano inertes.

Um jornalista diz que, quando o problema das crianças começou a ser noticiado, políticos conservadores espalharam fake news dizendo que as crianças estavam fingindo ou que os pais as envenenavam para que ficassem letárgicas. Mais tarde, exames médicos comprovaram que as crianças estavam muito doentes.

Uma das explicações possíveis para a síndrome da resignação – e para o fato de ela ocorrer com mais frequência em território sueco – é que essas crianças testemunharam situações terríveis (pai espancado, mãe estuprada, ameaças, medo…) e recomeçaram suas vidas na Suécia, frequentando a escola, aprendendo a língua e deixando o passado para trás. Porém, o governo sueco está cada vez mais exigente na hora de avaliar a possibilidade de dar asilo a alguém – eles dão, por exemplo, asilos temporários que duram um ano e, depois desse prazo, voltam a analisar o caso do requerente. De acordo com o documentário, a burocracia se tornou mais dura por causa de um sentimento contra imigrantes que tem ganhado força dentro do país.

Diante de um futuro incerto e com medo de voltar para o lugar de origem, essas crianças entram numa espécie de “modo de segurança”, desligando do mundo até que as coisas melhorem. Uma das crianças retratadas no filme se recupera depois de um ano e meio inanimada e, quando fala com a mãe sobre o período em que ela ficou desligada, a menina diz não se lembrar de nada e pergunta: “Eu estava dormindo, mãe?”.

Os cineastas John Haptas e Kristine Samuelson optam por uma narrativa enxuta – talvez até demais – e revelam muito pouco a respeito dos refugiados retratados no curta-metragem de 40 minutos. Das três famílias entrevistadas, sabe-se que uma delas é yazidi, a etnia perseguida pelo Estado Islâmico, no Iraque. As outras duas parecem ter escapado de algum lugar dos Bálcãs – uma informação sugerida indiretamente por um dos médicos entrevistados –, embora isso não fique claro.

Carente de informações, o documentário acaba sendo uma vinheta do sofrimento vivido pelos refugiados de conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio. É triste e desesperançado.

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