Ramira - Final - Jornal Plural
4 jul 2021 - 14h37

Ramira – Final

Leia o final da estreia de Maureen Miranda na ficção

Parte 4

A VOZ

Os humanos ficam dormindo por cerca de oito horas por noite.  Não dá para acreditar o quanto de tempo que ficam nesse estado. Os olhos devem ficar exaustos de tanto não olhar nada. Bom, tem os sonhos, nos sonhos os olhos enxergam pra dentro. Dormi três horas e nadei por cinco levando Ramira para a encosta da Cidade Nova. Quando ela acordar, estará a uns duzentos metros da praia… vou sentir tantas saudades dela e do seu jeito, queria ter um jeito assim, mas isso já nasce com o ser. Sempre que imagino essa história de nascer e morrer, me dói a cabeça e não chego a conclusões que me agradem. Enquanto nado, me distraio com filosofias sobre a existência e me pego pensando se eu mesmo (a) existo concretamente ou sou uma ilusão?

E quando paramos de existir e quando começamos a não existir mais… o “outro lado”… passar para esse tal lado vem de forma galopante…, um piscar de olhos, um mergulho errado, um veneno ao invés de alimento, uma palavra torta, a cabeça estoura num golpe, mil maneiras e acordamos nesse outro lugar-lado…

O que imagino sobre isso é lindo e tem também doze anos e tem uma luz colorida e imensa, com cores que inexistem aqui e tem um ventinho morno, figuras amadas , flores que cantam com pequenas boquinhas nas pétalas…começo a cansar agora, de nadar e de mim. 

Diário de Ramira

Acordei pensando em vidas passadas, o sono da morte, um sono profundo… Como seria se eu despertasse em outro lugar, será que seria eu mesma? Nesse corpo? Sonhos e pesadelos no mesmo sono, o pesadelo é o sonho com máscara de bicho ruim.

Devo ter dormido oito horas direto, sem medos reais, sem frio, sem desconforto. Como poderia ser? A manhã era alaranjada, um mormaço me fazia espremer os olhos, uma pontada fazia cócegas na minha barriga… Meus seios doíam um pouco, me virava para o céu azul e puro, a cabeça para a esquerda e tinha visões, devia estar ficando louca, enxergava a praia calma, sem ondas, a areia com muitas pedras  cinzas e as casas enfileiradas na costa. Eram casas simples e de estilo colonial, um outro mundo pra mim, sim… era meu novo lar, a Cidade Nova!

Ainda era tão manhã que todos dormiam e eu mesma sonolenta e não querendo despertar daquele sonho adormecia novamente.

No sonho lúcido uma grande mão com cor de mármore me aconchegava, era quente… O teto do quarto que dormia era baixo e tinham estrelas que brilhavam sem atrapalhar a  embriaguez , eu ali, nunca fui tão inteira, tão eu mesma, tinha certeza que pulsava outro coração em mim, eu dois corações, eu duas naquela hora, eu cheia e completa, eu transbordando de vida, eu coragem, eu fé, eu futuro, eu agora, eu acompanhada, eu amor, amor, amor.

A VOZ

Essa Ramira é única. Estou exausto (a) de nadar até aqui e ela acorda, olha a praia, a terra firme e adormece? Definitivamente ela é singular. Morfeu e seus fidelíssimos adeptos.

Parte 5

Acordei porque meu barco-destroço encalhou na praia. Levantei com cuidado, sentia uma tontura e um zumbido no ouvido, via coisas da minha meninice desenhadas na areia, meus ombros pesados me levaram para o chão. Desmaiei.

Despertei numa cama linda de ferro, com cobertor suave de penas e uma senhora me olhando com ternura. Pensei que tivesse morrido.

Uma vez fui na casa de uma amiga brincar. Era de tarde, tinha sol e o casarão antigo da amiga, que se chamava Samia, ficava numa ladeira de pedras, cheiros fortes de maresia, frutas passadas e coisas quebradas. Não sei porque nesta tarde não quis levar Nage. Dentro da casa tinha pouca luz e um chão encerado e vermelho. Amava essa atmosfera, no ar quente algo fervia na chaleira. Uma conversa estranha começou entre pessoas estranhas lá fora, então desci a escada barulhenta e fui espiar, pura curiosidade infantil, barulhenta porque era de madeira muito gasta. Ah, eu tinha uns treze anos. 

Samia ficou me chamando, ouvi meu nome quatro vezes, mas não olhei pra trás e segui minha intuição.

Lá fora o calor era quase insuportável, nada de brisa, nada de sombra. Fui subindo a rua pela calçada, perdi o grupo que falava alto de vista. Comecei a caminhar devagar e a olhar para meus passos como se a calçada fosse rolante e de repente, eu sumi.  Sim, meu corpo saiu de cena. Virei só meu olhar, eu era nada e me enxergava flutuando a uns dois palmos do chão, meio transparente, deitada e de olhos fechados.  Tudo isso durou segundos, e quando me dei conta do que tinha me acontecido, desci a ladeira correndo para a casa da amiga, estava encantada. Lembro muito bem que tive a certeza de estar morta, como agora… Apesar de não ter morrido acredito que uma experiência dessas, mata um pouco a gente sim, mata para poder continuar vivendo. Acho que  é isso que chamam de paradoxo. 

– Que bom que acordou

– Eu morri?

– Não, mas quase

– Estou na Cidade Nova, certo?

– Certo querida… Mas tente descansar mais um pouco, não pensar em nada, pois você ainda está se recuperando.

– Mas e a senhora?  Quem é?  Poxa, e esse lugar tão lindo, muito obrigada por ter me acolhido.

– Me chamo Marília, moro sozinha aqui há quinze anos. Vim pra cá em busca de paz, liberdade, alegria e todas as coisas que não estava conseguindo onde morava antes.

– Nossa, meus motivos são os mesmos.

– Agora vou fazer uma comidinha pra você.

Com o passar dos dias fui me adaptando a nova vida. Eu e Marília tínhamos tantos pontos em comum que morarmos juntas definitivamente foi natural. Nossa rotina ritualística fazia com que me sentisse sempre renovada. Cozinhávamos, fazíamos caminhadas, íamos para a praia, ouvíamos música e líamos uma para a outra. Logo comecei a trabalhar na chocolateria que Marília abrira, a única da cidade.

Nossa casa era de frente para o mar e diversas vezes me distraía olhando as ondas, algo me hipnotizava a alma. Aos poucos, fui contando minha história para minha nova mãe. Ela escutava atenta e no final sempre chorava e, e eu também… ”Somos duas choronas” então ríamos de nós mesmas.   Nossas noites eram regadas a cafés exóticos, chás perfumados e pães incrivelmente quentes. 

Quando minha barriga começou a crescer, resolvemos decorar o quarto com golfinhos e estrelas do mar. Desenhei um ovinho rosa num dos cantos do quarto, perto do rodapé, mas só eu sabia disso.

Ontem vi uma mulher na rua paralela à nossa casa, era tão parecida com a mãe! Meu peito ficou sem ar e senti um nó na garganta. Nesses tempos em que tudo cresce em mim, tenho evitado pensar na vida que levava na Cidade Velha porque me faz muito mal. É uma saudade que não tem cura, uma saudade dos dias em que não vivi com Nage e com a mãe, de uma vida que não vivi com Bud, meu único amor.

Sonho com ele de vez em quando e tento sufocar a esperança que de quando em quando vem em minha cabeça.

Tenho que pensar no hoje

No sempre hoje

E sufocando o ontem

Sigo

Às vezes sem ar

Mas sigo

A VOZ

Todos  os meses volto à Cidade Nova para ver Ramira. Fico a uns vinte metros da praia. Ela passeia com uma senhora, está tão linda. As duas caminham na areia, às vezes de mãos dadas como irmãs, estão sempre conversando, parece que nunca falta assunto.

Ramira afaga a barriga e vez ou outra olha na minha direção.  De noite também a vejo, ela acende a luz do seu quarto, no andar de cima aonde mora e passa horas na janela olhando o mar, tenho a impressão que me procura mas devo estar ficando louco(a). Um dia desses, ou numa noite clara juro que darei um salto e acenarei para ela! Imagina o susto que ela vai tomar!

Fico sonhando com esse momento, mas sei que é impossível. 

Na chocolateria  os dias passam como num livro, folha por folha, página por página. Os detalhes da minha vida seguem cheios de arabescos e rococós.

Marília cuida de mim e me conhece como ninguém. Ela percebe quando estou triste e neste estado especial nem tento esconder, não consigo…

É que achei que tivesse visto a mãe na rua um dia desses e me veio na memória o olhar dela e isso meio que acabou comigo. 

Parte 6

Sobre os olhos da mãe: 

Eram castanhos escuros e grandes comparados aos outros olhos, eram fundos, às vezes cadavéricos. A pálpebra era imensa e um pouco caída, melancólica. Amendoados, cílios grandes, pouca sobrancelha, tirou muito na adolescência e os pelos se foram, então ela tatuou de leve, mas saiu com o tempo. O mais importante dos olhos da mãe é que eram profundamente tristes, uma saudade morava neles e isso é tão arrebatador que doía fisicamente em mim. Quando minha cabeça visitava os olhos da mãe, Marília me trazia um chá fraco de melissa, ela mesma o preparava, a infusão vinha até minhas mãos numa caneca de cerâmica, era a que eu mais gostava, tão orgânica, que respirava junto comigo, a caneca. Acredito que os objetos respiram quando são feitos à mão e essa peça em particular suspirava junto, juro. 

Ah…Marília, Marília…só você.

Um agrado para Mar e Ilha:

Um dia você me achou

Cheia de areia e dor

Me  pegou no colo

Do amor

E agora eu tenho

Alguém, eu

Tenho dois

Você e meu filho

Sou muito

Agora.

Sei que não escrevo bem, não entendo de poesia nem nada, mas depois do chá, escrevi essa coisinha num guardanapo da chocolateria e entreguei pra ela. Então, para não perder o costume, choramos e rimos ao mesmo tempo.

Parte 7

Nossa cidade girava em torno do turismo e da pesca. Tínhamos muitos clientes fiéis e nosso círculo social era grande, mas me tornei uma mulher pouco receptiva ao passar do tempo, sentia que nossa Tríade era meio fechada e não aprofundava conversas com mais ninguém. Simpática sempre fui, disfarçava bem para os outros e para Marília estava bom assim.  Quando fez oito meses em que cheguei na Cidade Nova, ela me deu um diário, chegou em casa com um embrulho me dizendo que era o dia do meu aniversário e que essa seria a minha nova data de nascimento.

Adorei o presente e me agarrei nele com entusiasmo e emoção. Marília conhecia tanto de mim, o pacote era rústico, assim, meio amassado de papel feito em casa e amarrado com barbante.

Comecei a preencher as páginas de sopetão, na mesma noite em que ganhei, com objetivo de contar tudo para minha criança que rodopiava dentro de mim. Dessa vez usei as duas palavras e ficou bom.

A VOZ

Ramira não fica mais olhando o mar como ficava antes. Agora ela posicionou uma escrivaninha de frente para a janela e passa boa parte da noite escrevendo à luz de três velas grossas. Não entendo muito o motivo das velas, mas a imagem é poética. Espero ansiosa (o) o nascimento do filho. Meu coração se enche de alegria e uma vasta clareza do porquê  existo nasce em mim. Sinto que quando o filho nascer posso seguir outros rumos. Até lá passarei por aqui de quando em quando.

Com o diário em mãos, nasceu outra Ramira, essa que agora escreve aqui.

Sigo meus dias um a um, respirando o futuro e esquecendo do agora… Sinto que a gravidez me anestesia. 

Hoje pela manhã senti mil chutes quando fazia minha caminhada antes de ir trabalhar. Meu filho chutava tão forte que precisei parar um pouco, me concentrar no presente, essa foi a mensagem do meu pequeno. Conversei mentalmente com ele e o acalmei, falta pouco… ainda assim, em êxtase, meio cambaleante de vida, subi as escadas que levam ao meu quarto, me sentei na mesa e comecei a escrever!

Vou enviar essa carta pelo correio para meu próprio filhinho, sim, é um menino , quero que a primeira carta que ele receba na vida seja essa! Sei que está fora de moda, mas isso não tem importância e junto com a carta farei um desenho, não sei desenhar, mas vou fazer o melhor possível.

“Arthur, meu filho

Você é o grande amor da minha vida. Nós dois viemos de um lugar que já foi muito lindo e que hoje em dia se calou dentro de mim. Nosso lar agora é essa casa e nossa família é diferente, pois você tem a mamãe e uma avó ‘torta’, que se chama Marília, a pessoa mais generosa que já conheci e que nos ama muito, somos sortudos!

Sim, meu pequeno ursinho, existem pessoas más, mas essa vovó é muito especial e salvou duas vidas de uma só vez, a minha e a tua, quando você ainda era um peixinho na barriga da mamãe.

Teu pai se chama Bud e adora usar lenços coloridos e é um grande herói… Nós nos perdemos um do outro na viagem até aqui, mas algo me diz que ele mora em alguma ilha distante e tenta incansavelmente me achar e sobreviver de alguma forma.

Arthur, você tem outra avó, mas ela também está perdida, quem sabe um dia ela nos encontre? Não podemos perder a esperança! Sabia que sua tia Nage também é criança? Sim, ela mora no céu, cercada por estrelas e sóis brilhantes  e cuida da gente lá de cima. Sabe filho, a natureza é sábia e às vezes fica triste e brava… Na vinda para a Cidade Nova, ela ficou de mau humor e gritou com o barco que nos trazia e tudo virou de ponta cabeça! A mamãe ficou sozinha flutuando sobre um pedaço de madeira, guardei uma lasquinha dele na gaveta da cômoda branca, nem sei por que, mas o que você precisa saber é que uma sereia nos ajudou… isso é o mais relevante de tudo que escrevi até agora.

Durante muitos dias e noites ela me deu alimento, água, soprou ventos quentes para me aquecer, cantou para me acalmar e me confortou nos momentos mais difíceis. Não sei qual seu nome, aliás, acho que ela nem sabe que sei de sua existência…, ela preferiu assim e eu a respeitei. Não sei onde ela está agora, mas sinto que ainda cuida de  mim, por esse motivo, passo tantas horas olhando o mar, na esperança que ela queira fazer algum contato comigo. Olha como somos abençoados, temos dois anjos na nossa vida, a vovó Marília e a sereia… que título lindo para um livro, não? “Vovó Marília e a Sereia“, quem sabe um dia eu escreva essa historinha…

Filho, esse será nosso segredo para toda vida. Sabe meu amor, mesmo que nunca mais eu a veja, eu sei que guias, anjos, seres iluminados, ou seja lá o que for, existem e podem tomar diferentes formas, nunca se esqueça disso… por isso, nunca mais me senti só… e, se você um dia se sentir assim, é só olhar o mar…

A nossa sereia era mais ou menos assim: (desenho infantil de sereia )

Com amor infinito,

Mamãe Ramira.“

FIM

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