Como são escolhidos os filmes do Cine Passeio? | Plural
24 out 2019 - 23h05

Como são escolhidos os filmes do Cine Passeio?

O cineasta Marcos Jorge e o crítico Marden Machado se misturam ao público para saber o que faz sucesso no cinema

“Cinema é, para mim, a vida concentrada. Tanto para quem o faz, quanto pra quem o curte. Você entra ali e em duas horas vive uma vida inteira”, define Marcos Jorge – diretor curitibano responsável pelo premiado “Estômago” (2007). Na curadoria do Cine Passeio, Marcos faz dupla com o crítico e jornalista Marden Machado. “Cinema é algo que me estimula, que me ensina, me entretém, que torna a vida mais suportável neste planeta… que me acalenta. É quase tudo”, declara o crítico.

A dupla, que já mantinha uma amizade de longa data, trabalha no projeto desde 2017 – mais de um ano antes do cinema se materializar na esquina da rua Riachuelo com a Presidente Carlos Cavalcanti, em 27 de março deste ano. A primeira conversa aconteceu em um café, em um sábado à tarde. “Precisávamos pensar em um projeto curatorial. O que seria esse espaço, como ele se comportaria, qual a finalidade dele, como iríamos atrás dos objetivos estabelecidos”, explica Marcos.

Apesar dos perfis e das formas diferentes de vivência do cinema – um crítico, outro diretor – não foi complicado chegar a um bom acordo. “Definimos alguns critérios como base de tudo”, narra Marden. Entre eles, o de sempre ter na programação pelo menos um filme brasileiro. O alinhamento resultou no formato de exibição atual do Cine Passeio, denominado “horizontal”: quando há um filme diferente por sessão.

A escolha por esse tipo de sistema se dá por conta da estrutura enxuta do cinema de rua, e por conta da grande oferta de longas. “Percebemos que havia uma quantidade considerável de filmes que não haviam sido exibidos em Curitiba, que estavam parados”, relembra Marden. O perfil, a princípio, não agradou muito as distribuidoras grandes e médias, que relutaram em embarcar no projeto. Hoje, o único cinema de rua de Curitiba já trabalha com todas.

Hoje, o Cine Passeio é o único cinema de rua da cidade. Foto: Cido Marques/FCC

Há, ainda, um segundo ponto importante de concordância para que o filme entre na programação: “Os dois devem ver qualidades no filme que a gente programa. Podemos até não gostar da obra, mas reconhecemos a qualidade”, explica Marcos. O diretor caracteriza a programação como “de rua”: equilibrando exibições comerciais com artísticas. Entre os objetivos dos curadores está em primeiro lugar a formação de público e, depois, a transformação de Curitiba em uma vitrine do cinema de qualidade. A ideia é aumentar a oferta de longas em exibição. “A nossa proposta não é ganhar dinheiro, nem fazer concorrência para os outros cinemas de Curitiba”, ressalta.

No dia a dia, o trabalho funciona da mesma forma: no domingo fazem uma análise do balancete dos filmes daquela semana. Conversam e decidem quais ficam, quais saem. Na segunda-feira a tarefa é negociar com as distribuidoras. Na terça de manhã, o Cine Passeio já tem programação. O processo todo envolve um critério frio, uma nota média usada de base, mas também uma avaliação mais intuitiva. “Quando a gente sente que o filme tem potencial para crescer, a gente mantém”, salienta Marden.

A trabalho de curadoria também implica em hábitos um pouco particulares de cada um. Marden, por exemplo, costuma passar os fins de semana entre o público, camuflado, ouvindo aos comentários dos espectadores. O crítico relembra, com orgulho, quando entreouviu a conversa de um casal – elogiaram a estrutura, a beleza arquitetônica, mas o rapaz ressaltou justamente a programação. Para Marcos, que reside em São Paulo e vem uma vez ao mês à capital paranaense, o novo hábito adquirido foi morar no cinema sempre que está em Curitiba: “Chego de manhã, a tarde vou ver os filmes, converso com a gerência, com os funcionários… Quando vejo já é meia noite, eu sou o último lá dentro”, comenta.

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