“Cine Marrocos” mistura glória e decadência | Plural
6 nov 2019 - 1h34

“Cine Marrocos” mistura glória e decadência

Documentário será exibido nesta quinta-feira (7) na abertura do Fidé 2019

A cena vai se formando aos poucos. O homem adentra a sala escura, traz às mãos uma fonte de luz improvisada – várias lâmpadas se aglomeram em um suporte retilíneo, o cabo de energia pendendo visível. Parte do teto da sala já cedeu, e as poltronas do cinema estão irregulares: braços, encostos e assentos distorcidos pelo abandono. Os estragos ficam mais, ou menos, visíveis conforme o homem move a fonte de luz. Assim tem início o documentário “Cine Marrocos”, do jornalista e documentarista Ricardo Calil. 

Dali em diante, o que se passa na tela é uma mistura entre presente e um passado distante, entre glória e decadência, ficção e realidade. O cenário é um esquecido Cine Marrocos – o cinema, inaugurado em janeiro de 1951, já foi um dos mais importantes, e luxuosos, da América Latina. Chegou a ser sede do Festival Internacional de Cinema do Brasil, em 1954. Fechado há algumas décadas, o prédio foi ocupado em 2013 pelo Movimento Sem-Teto de São Paulo (MSTS), e abrigou cerca de 600 famílias. 

Anúncio da inauguração do Cine Marrocos no jornal “Diário da Noite”, edição de 22 de janeiro de 1951. Periódico publicou notas sobre o cinema, exaltando a criação do espaço como prova da transformação de São Paulo de “província para metrópole”. Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional

A produção não se limitou a apenas documentar a ocupação, reabriu – ainda que brevemente – a sala de cinema e, em uma ação inusitada, colocou os ocupantes do Cine Marrocos no espaço mais nobre do local: a tela. Depois de exibir filmes do festival de 1954, a equipe realizou oficinas de atuação com um grupo de moradores, e propôs que eles reencenassem as obras clássicas. A ideia, explica Ricardo, veio do desejo de “uma ocupação integral”: “[…] que não fosse só física, mas também simbólica. Que aquele espaço fosse ocupado como um espaço de sonhos também”, salienta. 

Sob a ameaça de uma reintegração de posse, os espectadores conhecem fragmentos da vida dos personagens, mesclados às ficções que reencenam. “Essa ideia das encenações e das reencarnações cinematográficas é uma ideia esteticamente política”, explica Ricardo ao falar sobre uma espécie de mensagem da obra. 

As filmagens levaram cerca de dois meses, e aconteceram – em boa parte – em 2015. No ano seguinte, a ocupação foi desfeita pacificamente – momento também registrado pelas câmeras. A primeira exibição do documentário, no entanto, só aconteceu anos mais tarde, em 2018. A delonga se deu por um processo peculiar de capitalização: só após as filmagens foi possível viabilizar a compra dos direitos dos filmes exibidos em 1954. 

Apesar da distância temporal, a obra não perde a força. Por meio do encanto do cinema, “Cine Marrocos” nos lembra daquilo que é mais humano: a possibilidade dos sonhos. 

Serviço
Exibição de “Cine Marrocos” e bate-papo com diretor
Onde: Cinemateca de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti, 1174, São Francisco)
Quando: 7 de novembro (quinta-feira), às 19h
A exibição integra a programação de abertura do Festival Internacional de Documentário Estudantil 2019 (Fidé). Mais detalhes no site

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