28 set 2021 - 15h45

Maior e vacinado

As dúvidas, no entanto, brotam, e precisam ser imediatamente sanadas. Dentro daquela cabecinha, quase posso ver os miolos girarem. O mundo o assombra

Foi Mário Quintana quem escreveu que o maior chato é o chato perguntativo. A cada indagação, uma pequena âncora impede que você viaje por aí na maionese, o pensamento como que levado por balões de hélio, enquanto ele pondera, pontua, justifica, e exige a opinião do interlocutor: “tô certo?”, “tô errado?”. Quem nunca se viu preso a um chato perguntativo num balcão, atire a primeira pedra – de preferência nele, que é pra eu poder seguir o meu caminho.

Entre os chatos perguntativos, um grande percentual é de crianças. Elas raramente frequentam balcões, pelo menos não sozinhas, e também não estão muito a fim de validação, mas são uma fonte inesgotável de questões. Não que eu tenha filhos, mas tenho um sobrinho, de oito anos, e isso me basta: “o planeta é redondo?”, “o que é diâmetro?”, “Plutão não é um planeta?”, “por que o marido da rainha Elizabeth não era rei?”, “o Grêmio já escapou do rebaixamento?”, “por que o Uruguai é tão pequenininho?” e, pra meu alarme, “tio, por que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos?”.

Ok, essa última eu inventei. É que é tudo um pouco desnorteante, nos dias em que ele está inspirado. Não era esse o acordo inicial. Eu sou apenas o tio. Minha única responsabilidade deveria ser corromper o caráter da criança até transformá-la em uma versão usando pijama de bolinhas do Diabo da Tasmânia.

As dúvidas, no entanto, brotam, e precisam ser imediatamente sanadas. Dentro daquela cabecinha, quase posso ver os miolos girarem. O mundo o assombra.

Normal.

Ao contrário de mim, que talvez não esteja lá muito normal. Aos 34 anos, me tornei imune ao mundo. Nada – absolutamente nada – é capaz me abalar. Um homem grave e imbatível. Perguntem ao meu sobrinho.

Pode ter a ver com o fato de eu ter nascido no Brasil, mais especificamente no estado do Paraná, e desde então ter me arrastado dentro das respectivas coordenadas geográficas. Criei casca grossa. O noticiário não mais me aflige. Se as manchetes anunciarem que o governador Ratinho Junior está prestes a iniciar uma guerra nuclear com a Bolívia que colocará fim à raça humana, eu provavelmente apenas darei de ombros, como quem diz: não poderia mesmo durar para sempre, poderia?

Ainda ontem, enquanto eu esperava pra atravessar a rua até a loja de conveniências, um dinossauro usando óculos escuros e dirigindo um Opala conversível prateado desfilou diante de mim, cheio de marra, bebendo Dinamite Pangaláctica no gargalo. O pessoal da borracharia ficou boquiaberto. Eu apenas acenei.

Não importa o quanto vocês tentem, sou agora maior e vacinado. Uma rocha insensível às intempéries, ao abrasador sol da existência, às ventanias políticas, aos raios ou às tempestades que ainda estão por vir. Talvez uma pergunta do meu sobrinho possa, brevemente, me desconcertar, mas rapidamente voltarei ao prumo.

Uma rocha, como eu disse. Uma rocha na terra vazia.

A parte ruim é que uma rocha não tem por hábito manter muitos hobbies. Pouca coisa, nos últimos tempos, me entusiasma. Tudo soa meio monótono e enfadonho. Não cultivo muito interesse pelas discussões do momento e, se vez ou outra ainda dou um palpite, é apenas porque, como uma pedra no meio do caminho, pretendo irritar o maior número possível de pessoas.

Dia desses, a fim de passar o tempo, até tentei me forçar a ver uma série. Por quê, Deus Todo-Poderoso? Por quê? Se entendi direito, tinha a ver com uma jornalista alcoólatra que volta pra cidade natal pra discutir com a mãe e investigar um assassinato. Muito mais que isso, não posso dizer. Parei no primeiro episódio.

O maior chato, talvez, seja o chato que já viu de tudo. Ou que acha que.

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Redação Plural.jor.br