Confie menos em você mesmo. Por favor, eu imploro | Jornal Plural
16 fev 2020 - 21h38

Confie menos em você mesmo. Por favor, eu imploro

O cérebro humano nunca precisou lidar com tantos dados e informações quanto lida hoje, diariamente, pelo celular

Você é um chimpanzé que tem um smartphone. Pode não parecer, porque você usa o banheiro, o forno micro-ondas e tem uns livros na estante, mas você é um chimpanzé com um smartphone.

Um macaco que foi armado com Facebook, Twitter, WhatsApp. Seria menos perigoso se a gente tivesse te dado um AK-47.

Porque o cérebro humano nunca precisou lidar com tantos dados e informações quanto lida hoje, diariamente, pelo celular. E ele não tem capacidade para processar tudo isso.

Então, ele pega atalhos.

O seu cérebro não está interessado se você vai elaborar uma resposta fácil e idiota para um problema social complexo. Ele está interessado em economizar combustível. É evolutivo. Seus antepassados venceram porque foram preguiçosos, mantiveram a energia a níveis satisfatórios e, quando o bicho pegou, puderam se virar.

Conquistar o seu cérebro é a coisa mais fácil do mundo. É como se ele vivesse sempre bêbado em um bloco de carnaval. Pode se agarrar à primeira coisa que aparecer, mesmo que seja um indício de baixa qualidade e sem muito fundamento.

Pra isso, quase tudo serve, se confirmar que o seu cérebro está certo, se garantir o que ele acha que já sabe. O seu cérebro quer ter certeza de sua superioridade, moral e intelectual. Ele quer constantemente levar um tapinha nas costas.

A psicologia chama isso de “viés de confirmação”. É um dos motivos da consolidação da praga das fake news. As pessoas acreditam no que as faz se sentir bem.

E, quanto mais o tempo passa, mais difícil é para o seu cérebro se livrar de uma crença. Os velhos são teimosos, não são? É uma verdade científica.

A tendência humana é proteger suas próprias crenças como se elas fossem um bebê. Uma criança chata que vive gritando no Twitter, mas que ainda assim precisa ser protegida.

A verdade é que você não vive em uma bolha. A verdade é ainda pior: você vive em um pequena Matrix, elaborada por você mesmo. O sujeito desmiolado que acredita que Cuba esconde uma bomba atômica leva isso às raias da barbárie, mas todos nós estamos vivendo mais ou menos apartados da realidade. Quanto mais certezas você tem, mais está sendo enganado.

É algo difícil de mudar, mesmo que você seja colocado diante de situações contraditórias e argumentos sólidos. É o que a psicologia também chama de “perseverança na crença”.

Mudar afeta a sua autoimagem. Diminui sua autoestima. Pode acabar com você.

Ao mesmo tempo, é um sacrifício em prol de um bem maior. É quase como se você fosse um mártir. Não há muitos indícios na história da humanidade de tragédias que aconteceram por conta da falta de autoconfiança pessoal, mas são inúmeras as que aconteceram por conta do excesso dela.

Um exemplo é Donald Trump. Por décadas, ele foi confrontado com provas de que era um péssimo empresário e gestor. Faliu empresas, se meteu em empreendimentos megalomaníacos e enfiou uma quantidade exorbitante de dinheiro, inclusive público, no ralo, mas nunca se permitiu abalar. Hoje, é presidente dos Estados Unidos.

Se por um momento apenas Donald Trump se tivesse permitido duvidar de si mesmo, o mundo hoje seria um lugar melhor.

O jornalista e crítico norte-americano H. L. Mencken escreveu que para cada problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.Tenha isso em mente da próxima vez que pegar o celular.   

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