Cautela e canja de galinha | Plural
9 fev 2020 - 22h51

Cautela e canja de galinha

Histórias inteiras têm o péssimo hábito de ser diferentes daquilo que queremos que elas sejam

É de Joseph Pulitzer, o visionário e lendário jornalista húngaro-americano editor do New York World, a frase: “Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma do jornal reside em sua coragem, em sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem-estar público, sua ansiedade em servir à sociedade”.

Pulitzer morreu em 1904. Em seu testamento, orientou a criação do Prêmio Pulitzer, célebre na área, e deixou uma boa grana para a criação da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, “para incentivar o serviço público, a literatura americana e o avanço da educação”.

Um grande homem.

Em seus jornais, Joseph Pulitzer também praticava o que ficou conhecido como “jornalismo amarelo”, com notícias e campanhas sensacionalistas que em 1898 arrastaram o presidente norte-americano William McKinley a uma guerra contra a Espanha.

Em 1899, Pulitzer pôs à mostra todo o potencial da sua mesquinhez durante uma famosa greve: a greve dos “newsboys”, os pequenos garotos jornaleiros. Nos Estados Unidos, a circulação dos jornais estava em queda, e a situação era difícil para toda a indústria, mas particularmente cruel com o seu elo mais frágil.

A maioria dos jornais de Nova York decidiu cobrar menos por cada exemplar que vendia aos pequenos jornaleiros, que depois apregoavam o cinematográfico “extra! extra!” pelas esquinas da cidade. Menos Joseph Pulitzer. Os moleques precisaram cruzar os braços por duas semanas pra convencê-lo a pensar melhor.

Essa é a história inteira. Simpatia pelos oprimidos, sim, pero no mucho.

Histórias inteiras têm o péssimo hábito de ser diferentes daquilo que queremos que elas sejam. Pra chegar perto do puro e inacessível cristal da verdade, pegue uma pá e comece a cavar.

No dia 17 de janeiro, um vídeo gravado com um celular dentro de um ônibus de Curitiba mostrava policiais militares revistando a mochila de uma mulher negra. Ela era acusada de roubar uma carteira. No fim, a carteira foi encontrada, mas com uma mulher branca, nos fundos do ônibus.

O vídeo correu as redes sociais e pipocou em sites de notícias. Um evidente ato de racismo.

A história não parou por aí. Na verdade, ela virou do avesso. E o que se descobriu posteriormente é que as duas mulheres, branca e negra, eram cúmplices em uma quadrilha de punguistas.

Mais uma vez, a história inteira – ou o mais perto que deu pra chegar até agora.

O mundo é um lugar complexo. E, no meio de toda essa confusão, Deus parece amar os gatos de apartamento e os vigaristas acima de todo o restante da Criação, do contrário não teria posto tantos no mundo.

A obrigação de um jornalista ao apurar uma acusação – qualquer acusação – é ter cautela. O tempo de um jornal não é o tempo das organizações e da militância política. As duas coisas são legítimas e exercem o seu papel na vida democrática, mas são diferentes.

Se o jornalismo tivesse mantido a cautela, talvez não precisássemos hoje lidar com a ascensão do autoritarismo, e os próprios jornalistas não estivessem sendo diariamente humilhados à entrada do Palácio da Alvorada por um sujeito que tem a capacidade mental de um cavalo dopado por anfetaminas.

Um jornalista que abre mão da cautela ao apurar uma acusação, abre mão de um princípio elementar da profissão. Está lá, no nosso código de ética, no parágrafo um do artigo 12: “O jornalista deve: ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas”.

Para isso, existe um conjunto de princípios, regras, técnicas e procedimentos de apuração que são – ou deveriam – rigorosos. Não basta alguém dizer que viu, esse testemunho precisa ser testado e provar que pode ficar em pé. No mínimo, você precisa estabelecer um conjunto confiável de testemunhos e bater um contra o outro para ver o que esfarela e o que fica inteiro.

Dá trabalho, geralmente bem mais do que o tempo de uma madrugada permite fazer. E se algum dia você tiver um jornalista na sua cola, agradeça se der a sorte de pegar um com disposição para seguir as regras.

“Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma do jornal reside em sua coragem, em sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem-estar público, sua ansiedade em servir à sociedade.”

Eu adoro essa frase. E você tem o direito de exigir isso de qualquer jornal. O que você não tem o direito de exigir é que um jornalista faça o seu trabalho nas coxas. 

Últimas Notícias