A notável (e inacabada) história do morador de rua que escreveu um dicionário | Plural
21 jul 2019 - 21h37

A notável (e inacabada) história do morador de rua que escreveu um dicionário

Sandoval Matheus conta a história do “Joe Gould brasileiro”

Conheci Marcelo há mais ou menos nove anos. Na época, eu tentava terminar o curso de jornalismo, uma faculdade eu levara a maior parte do tempo nas coxas e na qual já me arrastava há cinco ou seis anos. Procurava alguém sobre quem escrever, mais especificamente alguém que rendesse um amplo perfil jornalístico, um texto que, amontoado com outros, compusesse meu trabalho final, um livro-reportagem sobre outsiders da cidade – e daí, enfim, a suprema liberdade.

Fiquei sabendo da existência de Marcelo lendo o jornal. Entrei em contato com o autor de um artigo e descobri que Marcelo, apesar de morar na rua, checava regularmente uma conta de e-mail. A resposta demorou uns dois dias, mas veio. Marcamos um encontro, e eu coloquei a proposta.

Achava, de antemão, que talvez ele fosse um pouco maluco. O que eu já sabia de sua história me fazia pensar em Joe Gould, personagem da obra de Joseph Mitchell, um morador de rua de Nova York que por anos afirmou estar escrevendo um revolucionário e audacioso livro, um catatau que batizara de “A história oral da humanidade”. A obra nunca viu a luz do dia, e pelo livro de Mitchell, “O segredo de Joe Gould”, ficamos sabendo que provavelmente nunca tenha sido mais do que um punhado de páginas avulsas.

Marcelo também vivia nas ruas de uma grande cidade, Curitiba, e tinha um projeto megalomaníaco: um dicionário que concomitantemente traduzisse palavras similares de sete línguas. “Algo inédito no mundo”, dizia. “São 42 dicionários em um”, calculava. Ao contrário de Joe Gould, porém, Marcelo já tinha algo concreto, palpável: a primeira edição, financiada por ele, de um compêndio de 7,2 mil palavras. “Um manual de sobrevivência”, dizia. “Bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, obrigado – coisas que você vai precisar saber se está em um lugar estranho.”

Naquela primeira reunião, o homem de 44 anos que encontrei lendo o jornal no número 969 da Rua Visconde do Rio Branco – o Sesc da Esquina – não me pareceu um morador de rua. Trazia os cabelos penteados e o rosto barbeado; um cavanhaque, que começava a ficar grisalho na ponta inferior, decorava o queixo. A camiseta – em cuja gola se dependuravam os óculos escuros –, a calça jeans e as sandálias de couro aparentavam limpeza. Em sua conversa, usava adjetivos como “paleozóico” e “dantesco”, fazia referências históricas a Roma, citava Newton e Einstein; por causa de sua formação matemática, falava de sistemas alfanuméricos e da busca pela “equação geral dos números primos” – encontrá-la era outra de suas veleidades.

Conversamos durante toda a tarde e terminamos bebendo cerveja num pé-sujo do centro da cidade.

Marcelo me contou que a ideia do dicionário surgiu durante um périplo que fizera, anos antes, pela Europa, diante das dificuldades que encontrou para se comunicar com gente vinda de variadas partes do globo. A pesquisa começou lá e foi concluída no Brasil, onde ainda morou algum tempo com a família após a volta, numa cidadezinha do interior do Paraná, próxima a Pato Branco.

Ele era “bem-nascido”, por assim dizer. Estudara em colégios de ponta, como o Bom Jesus, e formara-se em matemática, ciência que inclusive lecionou. Chegou a ter casa própria, mas a vendeu, perseguindo a ideia de concluir a pesquisa para o dicionário.

À época, não tive certeza do que o levou a romper com a família. O trabalho com o dicionário pode ter sido um dos motivos. “Minha família sempre confundiu trabalho com salário”, reclamava. Por alto, falava de algumas brigas. Numa tarde em que nos encontramos foi mais longe e alegou que sua irmã havia tentado assassiná-lo, anos antes, por envenenamento, num episódio descrito como uma intriga palaciana. Uma história estranha, difícil de checar, mas que não parecia o delírio de quem pegara pesado demais com os psicotrópicos. Marcelo, apesar da rua, não fazia mais do que puxar uns baseados, beber cerveja de vez em quando e fumar cigarros Free azul, que só acendia após arrancar o filtro com uma dentada.

Sobre o dicionário, me explicava: “A significação de uma palavra é dada por sua potência. Literatos e dicionaristas não perceberam isso. É algo inédito no mundo!”. Com isso, queria dizer mais ou menos o seguinte: no dicionário pensado por ele, cada termo recebe um número, graficamente localizado mais ou menos como a potência em uma fórmula matemática. O segredo está no fato de uma mesma designação, nas diferentes línguas, se dar pela mesma potência. Assim, se “água” recebe a potência dois em português, “water” receberá o mesmo número em língua inglesa, o que acontecerá igualmente nos outros cinco idiomas. As diversas formas para traduzir “água” estarão no fim do livro, agrupadas sob o guarda-chuva “2”. Ficava fácil, dessa forma, traduzir qualquer termo para qualquer uma das sete línguas, que também eram graficamente diferenciadas por uma cor específica: as palavras em português em verde, as em inglês em vermelho, as em alemão em amarelo… De fato, parecia engenhoso, embora rudimentar. Talvez pudesse ser mesmo um bom quebra-galho.

Mesmo assim, o dicionário de Marcelo ainda era completamente desconhecido. Ou quase. Ele já havia sido apresentado a alguns garçons e a outros tantos editores – cerca de 40, brasileiros e europeus, segundo ele me disse. Às vezes os garçons de restaurantes chiques da cidade compravam os dicionários. Poucas vezes, porém, pelo “preço de capa” de R$ 30. De modo que não era raro a barganha terminar em algo como dois sanduíches e um refrigerante.

Com os editores, nem isso. Invariavelmente Marcelo recebia deles uma carta-resposta – ou um telefonema – mais ou menos com os seguintes dizeres: “Obrigado, mas não estamos interessados na publicação da referida obra”. E nas entrelinhas dessas correspondências ou no tom dessas vozes quase sempre se podia perceber um “por favor, não insista”.

Marcelo costumava dizer que tinha o avião; faltava-lhe a gasolina.

O que ele queria – e o dicionário por certo lhe daria, achava – era o reconhecimento por um trabalho inédito, nunca antes pensado pelos grandes intelectuais, algo que o colocaria no panteão destinado aos maiores. Não foram raras as vezes que me sugeriu guardar bem o material recolhido em nossas entrevistas; poderiam compor, num futuro próximo, a sua biografia – e na mesma linha fez cálculos delirantes sobre minhas comissões com a venda dessa obra.

Marcelo se achava incompreendido. Tinha verdadeiro desdém pelos que o cercavam e uma adoração um tanto tosca pela Europa, especificamente a Holanda. Tinha autoestima. Fazia questão de dizer, sempre que possível – e às vezes mesmo quando não era possível, e ele precisava fazer um esforço para encaixar a frase no meio de outra discussão –, que morava na rua por opção. Afinal de contas, poderia muito bem voltar a dar aulas particulares de matemática, que, se não dão a glória mundial a ninguém, pelo menos têm alguma serventia na hora de pagar o aluguel.

Mas enquanto nenhum editor se dispunha, com sua obra, a ajudar pobres-diabos ignorantes em terras estrangeiras, Marcelo sobrevivia basicamente da venda de um dicionário aqui e acolá e da caridade alheia. Dormia em lugares fixos e estratégicos, que considerava menos perigosos; comia em restaurantes populares ou em sopões distribuídos por religiosos; tomava banho duas ou três vezes por semana, em albergues mantidos pela prefeitura.

E seguia com uma ideia fixa. Que me fazia lembrar a exortação de Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave o olho”.

***
Devemos ter nos encontrado, ao todo, meia dúzia de vezes. Marcelo era uma figura interessantíssima e estava animado com nossas conversas. De repente, começou a dar sinais de que algo o incomodava. Ele se preocupava com os relatos que me havia feito a respeito de seu consumo de maconha. Talvez pensasse que sua glória futura pudesse ser manchada por um texto a esse respeito. Me retornava os e-mails solicitando novos encontros cada vez com menos frequência. Deixou de atender ao celular. Provavelmente para me despistar, disse que uma pequena editora da capital havia se interessado pelo dicionário e que ele, a fim de rever e ampliar a edição, iria se autoexilar novamente em sua cidadezinha do interior.

Achei prudente dar um tempo a ele, antes que a insistência me fizesse perder de vez o personagem. De quando em quando, enviava um e-mail, perguntava como andavam os trabalhos. Às vezes ele me respondia, outras não.

O conteúdo de uma de minhas últimas mensagens foi este: “Olá, Marcelo. Por onde você anda, rapaz? Como vai a nova edição do dicionário? Um abraço”.

A resposta que recebi foi a seguinte: “Alô, Sandoval. Continuo trabalhando. Se nos próximos anos eu conseguir decolar financeiramente e sobreviver exclusivamente de literatura, convidarei o amigo para conversarmos sobre literatura e minha vida pessoal. Até lá, muito trabalho por fazer. Agradeço a mensagem e a lembrança”.

Pelo visto, a proposta da editora não vingou. Nunca soube da chegada ao mercado de um dicionário revolucionário, “inédito no mundo”, ou qualquer coisa que se assemelhasse a isso. Também não soube mais de Marcelo.

Lembrei dele na semana passada, quando vasculhava e-mails antigos à procura de uma velharia qualquer e tropecei em uma de nossas trocas de mensagens. Quase dez anos depois, fiz uma nova tentativa de contato. Nada.

Acho uma pena.

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