Jabuticabas congeladas | Jornal Plural
22 jan 2019 - 0h00

Jabuticabas congeladas

Em sua crônica de estreia no Plural, Luís Henrique Pellanda dá notícias do que não narrou em sua ausência: senhorinhas de Curitiba, árvores e até a piranha solitária do Passeio Público.

Alguns leitores me escrevem dizendo que há muito não dou notícias da cidade. Perguntam o que houve, se me ausentei, se estive doente. Meio a sério, meio brincando, respondo que sim, quem não esteve? Importa é que estou de volta e continuo o mesmo, embora admita (não sem algum rancor): os infortúnios que ultimamente vêm tomando conta do país me fizeram descuidar de muita coisa no ano que se passou.

Por exemplo. No prédio em frente ao meu, havia sempre uma senhora debilitada à janela, na altura do meu andar, acompanhada de sua cuidadora. A senhora olhava para fora; a cuidadora só cuidava de seu celular. Nunca nos cumprimentamos, a senhora e eu, apenas trocávamos aquele olhar cogitativo de quem tenta reavaliar o mundo a partir da posição de um outro. Como seria estar lá naquele apartamento, postado àquela janela, do lado de lá da rua? Durante anos, jogamos esse jogo. A senhora debilitada me encarava profundamente, e eu a ela. A cuidadora jamais nos flagrou.

Pois aquela senhora morreu. Quando foi, não sei, não percebi, um dia simplesmente deixei de olhar para fora. E só me dei conta de sua morte quando vi colarem, nas vidraças daquele imóvel já vazio, sem suas cortinas de renda, sem seus móveis em couro e madeira de lei e seus tapetes persas, meia dúzia de anúncios de vende-se. Onde eu estava quando fizeram a mudança? Não faço ideia. Ao menos registrei a chegada dos dois novos moradores do apartamento. Um casal de quiriquiris se instalou num dos vãos do cobogó que protege do sol a extinta cozinha da falecida. Improvisaram ali o seu ninho. E agora, sempre que olho para o prédio em frente ao meu, sou encarado por dois falcõezinhos que, sabiamente, não se imaginam no meu lugar.

Outra que deixei de contar a respeito do ano passado: pela primeira vez vi um tucano solto no centro da cidade. Empoleirado num cinamomo da Doutor Faivre, bem perto da Fesp. Falei em tucano solto, notem, mas não quero com isso ser dúbio ou irônico, de modo algum. Nossa época não é para ambiguidades. Já escrevi, em outro jornal, que sou contra a predação político-partidária de animais, e das aves em particular. Desse tucano, portanto, reporto só o necessário, o verificável: era pequeno, bonito, tinha o bico verde e talvez fosse um araçari, o que não o tornaria menos belo, mas o pouparia de polêmicas e piadas de duplo sentido. De minha parte, confesso que sua aparição me entristeceu um pouco, pois não creio que Curitiba seja um lugar adequado para tucanos.

Falei em tucano solto, notem, mas não quero com isso ser dúbio ou irônico, de modo algum. Nossa época não é para ambiguidades.

Já os papagaios-verdadeiros, meus velhos vizinhos de fronte azulada, continuam bem e se reproduzem a toque de caixa. Dia desses, outra senhora, em visita a minha casa, ao vê-los palestrando nas antenas circundantes, encantou-se. Eram seis pássaros. Ela foi até eles, debruçou-se na soleira da área de serviço e, ensaiando alguns cracrás e assobios, pretendeu dialogar com a turma. Eles se calaram, intrigados, ou quem sabe ofendidos, e só não debandaram por educação ou timidez. A senhora, todavia, me segredou que, com um pouco de jeito e outro tanto de paciência, podemos não só compreender o que apregoam os papagaios, mas também convencê-los a nos contar tudo. Tudo o quê, perguntei a ela. Tudo, resumiu a senhora, recolhendo-se a seus mistérios, e ao mesmo tempo me convocando a desbravá-los. Prometi que o faria, sim, dedicaria mais de meus esforços à tarefa de me comunicar com os papagaios. Se durante o ano me revelarem algo que preste, compartilho com vocês.

Uma terceira senhora, aliás (hoje só estou lembrando de senhoras), me fez improvisar outra promessa, há cerca de um mês. Eu tomava um sorvete empanado na companhia de um bom amigo, numa das tendas da feirinha da Praça Osório. Conversadeira, a tal senhora, com quem eu dividia o balcão e uma paixão quase infantil pelos refrescos, me aconselhou a experimentar a seguinte maravilha: chupar jabuticabas congeladas.

Sem qualquer pudor, me descreveu a sensação de tê-las na boca, uma a uma, e de rolá-las com cuidado da ponta da língua à garganta, partindo-as com os molares, feito seixos de açúcar. E a descrição que me fez foi tão sensual e perfeita que me é impossível reproduzi-la aqui, por escrito. Deixo a vocês o trabalho de imaginá-las, a cena e a personagem, embora saiba que muitos leitores, se vissem essa senhora, a achariam desinteressante e até feia, ou velha demais (usava, inclusive, dentadura). É pena. Estariam enganados. Ela é linda, pois todo ano se entrega ao prazer de colher, congelar e chupar as frutinhas negras e redondas que há décadas colhe em seu quintal, apenas pela lubricidade de fazê-lo.

Caso me perguntem se já cumpri o prometido, adianto que ainda não, pois desde então não encontrei jabuticabas (a jabuticabeira de meus pais secou no ano passado). Tão logo as encontre, porém, vão para o gelo. Informo a vocês.

Sem qualquer pudor, me descreveu a sensação de tê-las na boca, uma a uma, e de rolá-las com cuidado da ponta da língua à garganta, partindo-as com os molares, feito seixos de açúcar

Nesse tempo em que andei relapso, muitas outras árvores, aqui perto de casa, secaram ou caíram. Árvores exuberantes, de que eu gostava muito. Caíram sem que eu nunca escrevesse nada sobre elas, ou sobre a queda que as vitimou. Mas caíram, ressalto, por conta de chuvas, ventanias ou acidentes de trânsito. Não foi por falta de crônica. As árvores continuarão a germinar, florescer, frutificar e morrer normalmente, ao menos em Curitiba, mesmo que nenhum cronista disso tome nota ou conhecimento.

O que permanece mais ou menos igual é a situação da já notória piranha vermelha do Passeio Público. Sempre me perguntam sobre esse peixe especial, que tanto me comove, assim como me perguntavam dos urubus que, anos atrás, dividiam comigo um terraço na Ébano Pereira. Pois a piranha continua solitária, lamento. Talvez ainda sonhe com algum cardume a que se reunir, ou com uma enxurrada de sangue fresco vindo libertá-la durante o sono, numa noite escura. Certo é que continua viva, assim como nós. Me parece que perdeu um dente importante, não tenho certeza, uma presa inferior, à esquerda, o que lhe emprestou um ar meio caricatural, e mais humano (o que não é, nem de longe, um elogio).

A novidade é que seu cubículo mudou de posição, está mais de frente para a porta do aquário, o que lhe dá uma vista agradável de quem entra e sai e do exterior do parque. Já é um avanço. Acredito que dali ela possa ver, de vez em quando, um pipoqueiro e seu carrinho ao sol do verão curitibano. E que avalie como seria estar de pé diante daquele carrinho, reintegrada e livre (pelo menos em teoria), estourando milho para esta criançada que, apesar dos infortúnios que ultimamente vêm tomando conta do país, insiste em continuar nascendo.

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