Por falar em ex... | Jornal Plural
Clube Kotter
23 jan 2019 - 0h00

Por falar em ex…

Em sua estreia como cronista do Plural, o humorista Fagner Zadra conta sobre suas ex-namoradas e até sobre seu relacionamento com outra tetraplégica. “Foi meio parado”, diz ele.

Se houve um tempo em que não se tinha um pouco de ranço de ex-cônjuge, isso foi na Idade da Pedra, onde o rolo de macarrão era o tacape, diferente de hoje em dia, onde o tacape é a rede social, usada como arma de defesa e ataque, inclusive para dar pancadas na cabeça do/da ex. Sempre tem motivos para ter um pouco de ranço de ex, ou você ainda estaria com a pessoa. Minhas ex-namoradas devem estar de cabelo em pé lendo isso, na expectativa e com frio na barriga, para meu deleite. Olha o ranço aí!!!

Nem tive muitas, mas o suficiente para querer estar solteiro. Até já tive a experiência de morar com uma que adorava o próprio umbigo, literalmente, pois dentre várias de suas paranoias – e eram muitas – e mesmo sendo magérrima, ela não suportava ter qualquer tipo de barriguinha. Muito menos que falasse sobre a possível barriguinha. Desisti de conviver com ela depois que um pote de pepino saiu da mão dela, sobrevoou a cozinha e se espatifou contra a parede, logo atrás de mim.

Jogar na parede. Até que é uma forma eficiente de abrir um pote de pepino, mas é meio perigoso comer vidro na salada, mesmo se for vidro temperado. Então creio que o objetivo era mesmo o meu abate, ou algo do tipo. Quero morrer heroicamente; seria humilhante morrer com uma potada de pepino na cabeça. Imagine no velório.

– Eu gostava dele, do que foi mesmo que ele morreu?

– Sabe pote de pepino? Então…

Isso tudo, porque no calor de uma discussão, e também porque não perco a oportunidade de fazer piada de gente assim, eu disse:

– Calma, Cinturinha de Ovo.

Aí o pote voou.

Já na cadeira de rodas e bem mais imóvel do que hoje, fiz outras tentativas. E antes que você se pergunte, não, não me tornei deficiente por causa de alguma namorada, mas sim, por um relacionamento que não de certo com uma bola gigante, tipo um Indiana Jones que se deu mal. Não que este fato seja menos absurdo dos que os contados aqui. Enfim, já na cadeira…   

Uma me deu de presente um capacete de alce com uma galhada que não passava pelo vão da porta. Isso, mesmo eu dando conta do recado! Viram de onde vem o ranço?

Teve outra que, como eu, também era tetraplégica. É um relacionamento possível. Confesso que foi “meio parado”, mas bem interessante. Nunca tinha tido um relacionamento à distância estando no mesmo ambiente da outra pessoa. Imagine duas pessoas tetraplégicas na cama. Com uma só nesta condição, é bem tranqüilo, duas já fica mais difícil, mas nada impossível, ate porque brasileiro arruma jeitinho para tudo.

Com essa até daria para morar junto, tenho certeza de que ela não me jogaria um pote de pepino na cabeça – não conseguiria segurar o pote!  Até porque ela é uma ótima pessoa e não faria algo do tipo, e também porque tenho tomado cuidado com piadas durante as discussões enquanto as pessoas seguram compotas de conserva.

Hoje ela está quase recuperada, é uma vencedora e agora usa apenas uma bengala como auxílio. Não deu certo entre a gente, mas é uma pessoa muito querida e continuamos amigos. Acho que termos namorado foi uma “mancada”.

Dito isto, quero mesmo é falar sobre o relacionamento do Zé do Atuba.

Zé do Atuba estava andando impaciente, de um lado para outro em seu gabinete de vereador, quando seu assessor entra na sala.

– O senhor mandou me chamar?

– Sim, preciso que você redija uma nota, dizendo que não aceito esta separação ridícula, e que não vou largar dela.

– Sinto muito, sr. Zé, mas acredito não ter mais volta.

– Não vou largar dela e pronto, me nego!

– O sr. precisa largar dela.

– Mas não vou, foi difícil de conquistar, agora não vou largar!

– O senhor precisa superar e partir para outra. Infelizmente vai ter que largar a cadeira na Câmara dos Vereadores!

– Estou falando é da mamata, não vou largar dela!

– Ah tá! De qualquer forma, terá que sair do cargo, o sr. perdeu a eleição.

– Por calúnia da oposição e da mídia.

– Na verdade foi porque o senhor disse em público que aqui na nossa cidade vereador pagava para trabalhar. Aí o eleitor não aceitou muito bem, por isso perdeu a eleição.

– Não tem mais jeito, mesmo?

– Infelizmente não.

O Zé Do Atuba ficou olhando para o seu assessor durante alguns minutos em silêncio, aí disparou.

– E um cargo como secretário?

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