A palavra é erótica | Plural
17 jul 2019 - 6h00

A palavra é erótica

No fanatismo, a verdade minha e do meu grupo é a única possível

Foi em 2010, durante o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi na Itália – aquele que achávamos o suprassumo da aberração antes de sabermos o que viria pela frente, tanto lá como aqui – que surgiu um protesto interessante a partir dos estudantes de La Sapienza, uma das universidades mais importantes do país, em Roma.

Alguns poderão achar a manifestação de uma ingenuidade comovente, típica de adolescentes. Aceitemos o comovente, mas deixa eu explicar a tal manifestação primeiro.

As imagens de protestos de rua vêm quase sempre marcadas por fotos de policiais fazendo uma barreira humana – que eles precisem se despir de humanidade é outra história? – com escudos ostensivos que escondem cassetetes e gás de pimenta. Defesa e ataque nas mãos dos policiais. Tudo é muito eficaz, tanto do ponto de vista prático quanto simbólico: combatem o avanço dos manifestantes e erigem uma fronteira contra a qual o ir e vir dos direitos universais nada pode. Sem falar do fálico cassetete-tacape, por si só um símbolo de poder e força. De outro lado, os estudantes, cujas armas são gritos de protesto – capazes de no máximo fazer o soldado, já em casa, reclamar de uma dor de ouvido enquanto tira as botas e entra no banho – e os próprios corpos que, se em grande quantidade, impressionam e pressionam as fronteiras.

Eis que os estudantes de La Sapienza apareceram em 2010 com escudos. E os escudos tinham o formato de livros, com capas e títulos de grandes obras da nossa literatura e história civilizacional. O movimento Book-bloc.

A eficácia prática, claro, é nenhuma. Os escudos: feitos de isopor e papelão. Mas é de uma força simbólica – voltemos à palavra abandonada lá em cima – comovente.

Já devo ter falado aqui, em outras ocasiões, que o comovente não é só aquilo que nos faz chorar, mas é o que nos toca e faz nos mover juntos com ou por causa do objeto/sujeito que nos tocou – um cassetete que me afunda a testa me comove, diz aqui dentro um piadista fora de hora. A fronteira impede o movimento, a barreira de escudos policiais é um claro “não ultrapasse”, um evidente “chega pra lá”, um óbvio “nem vem”.

Não conheço melhor muro que a força bruta, capaz de erguer tantos outros muros; não conheço melhor ponte que a palavra, capaz de construir outras tantas pontes.

Os cassetet(tacap)es destruindo os escud(livr)os, esfarelando-os em sua fragilidade, é uma grande imagem metonímica do confronto civilizacional contemporâneo que, no entanto, não vem de hoje. Em nossas discussões cotidianas, em nossas grandes ou pequenas brigas diárias, o que acontece quando a palavra nos falta? Quando o chão do verbo some, perdemos o pé da palavra. Vem a irritação crescente, vem a vontade de partir pra cima, vem o sangue nozóio – que eu não consigo escrever sem o acento, como mandaria a gramática.

Quando um homem, desvairado e delirante / tarado e salivante, não consegue uma abordagem com palavras, o que é capaz de fazer?

Mesmo quando as palavras falham naquilo que queriam, elas são eficazes no processo de lamber as feridas da tentativa frustrada. Consigo, por meio delas, simbolizar perdas, fazer lutos.

Uma das estruturas psíquicas da psicanálise é a conhecida (de nome, né?) e temida psicose. Nessa estrutura, o sujeito não conhece o limite dado pela lei da palavra, que é diferente da lei da força. Não raro delira, imagina-se perseguido ou então tem a certeza de ser outra pessoa, e de peso, como Jesus ou Napoleão. Disso origina-se a clássica piada do “médico que pediu pra não contrariar”, e é verdade, já que o delírio segura o sujeito sem lei ao mundo e, se desmontado, pode fazê-lo entrar em um surto psicótico. Enquanto o neurótico é o sujeito da dúvida, o psicótico é o sujeito da certeza que, se cair por terra, não tem mais onde se apegar. Psicanalistas de todo o mundo, perdoem-me a simplificação, sabemos da quantidade de neuróticos agarradinhos aos seus fundamentalismos e que entrariam em parafuso se os vissem ruir.

Há casos de delírio compartilhado, em que uma pessoa mais frágil intelectualmente entra no delírio da outra e o alimenta, processo batizado de folie à deux (loucura a dois). É o que Jacques Lacan conta no famoso caso das “irmãs Papin”. Que esse delírio possa ganhar proporções de seita, coletivizando-se, não parece difícil acreditar. Uma verdade se construiu e é seguida. E olha que não falo apenas dos casos mais evidentes da política brasileira atual. De certo modo, há símbolos aos quais nos apegamos e em torno dos quais formamos uma aura: símbolos religiosos, culturais, políticos, de consumo. A diferença está na presença ou ausência do fanatismo. No fanatismo, a verdade minha e do meu grupo é a única possível; quem foge dela precisa conhecer essa verdade ou ser eliminado.

O não didatismo dos livros de literatura, ou seja, o fato de que a literatura não veio para consolidar um novo ídolo, não veio para reforçar um ou outro totem e tabu, mas para nos colocar em movimento – podemos ter certezas e convicções, claro, mas saibamo-las passíveis de questionamento e desmoronamento –, prepara-nos o tempo todo para novas travessias – saímos de nosso lugar e chegamos a outro, tornando diferente o lugar e a nós mesmos, como no exemplo clássico do rio de Heráclito.

Saídos de Sevilha e feito a primeira viagem de circum-navegação ao redor do planeta, os marinheiros retornaram à cidade e disseram: “Sevilha não é mais a mesma!” O que mudou, quem mudou?

O gesto de usar cassetet(acap)es para destruir escud(livr)os é fazer valer o delírio da certeza inabalável sobre a possibilidade de pluralizar modos de ver o mundo, afinal os livros nos emprestam olhos. Como não conseguimos fugir de nosso ponto de vista, podemos, com os olhos emprestados do outro, ampliar o nosso alcance. Pode ser romântico, sim, eu sei, mas se o muro é um “nem vem”, a literatura é um “chega mais”. A palavra embalada pelo encontro é erótica – capaz de fazer até um legume sem gosto virar símbolo de carinho, né, chuchu?

Talvez por isso a literatura ande tão em baixa. Mas também nunca a tivemos em alta por aqui. O gozo psicanalítico não é só prazer, é também dor, sofrimento. É esse tipo de prazer sofrido que eu sinto quando ouço e canto esse verso do Caetano: “aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.

 

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